Reduzir acidentes de trânsito evitaria colapso social e econômico

Reduzir acidentes de trânsito evitaria colapso social e econômico

Alysson Coimbra de Souza Carvalho*

16 de fevereiro de 2021 | 15h25

Alysson Coimbra de Souza Carvalho. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Todo mundo conhece o impacto dos acidentes de trânsito na mortalidade de jovens, no Sistema Único de Saúde (SUS) e no sofrimento de milhares de famílias brasileiras. Os danos são incalculáveis. O que quase ninguém comenta é como a segurança viária é fundamental para o desenvolvimento de um país e afeta a sociedade como um todo. Mais que isso, no Brasil de profundas desigualdades sociais, reduzir os acidentes em apenas 10% permitiria custear dois meses do novo auxilio emergencial a cerca de 40 milhões de brasileiros.

Analisando o lado econômico, o Brasil gasta, segundo a ONU, 3% do Produto Interno Bruto (PIB), cerca de R$ 220 bilhões, com acidentes de trânsito todos os anos. Se conseguíssemos uma redução de apenas 10%, por exemplo, teríamos R$ 22 bilhões livres para investimentos. O Ministério da Economia estima gastar, em 2021, entre  R$ 24 bilhões e R$ 50 bilhões com a ajuda à população vulnerável. Reduzir acidentes ajudaria a salvar vidas não só no trânsito, mas alimentando milhões de brasileiros que não têm renda para colocar comida na mesa.

A queda do número de acidentes também reduziria os gastos da Previdência Social com aposentadorias por invalidez permanente, que aumentam todos os anos. Somente em 2020, a violência no trânsito deixou 210.042 pessoas inválidas.

Como a maior parte das vítimas do trânsito é composta por jovens, todos os anos o país perde parte da sua força produtiva nos acidentes. Isso cria uma tragédia social que impacta toda a sociedade e, muitas vezes, não é noticiada. De uma hora para outra, centenas de milhares de famílias perdem os responsáveis pelo sustento do lar e são arrastadas para abaixo da linha da pobreza.

O resultado desse cenário é a pressão sobre a Assistência Social, Saúde, Emprego, Economia, Previdência Social e até Segurança Pública, já que o aumento da miséria está diretamente relacionado ao aumento da criminalidade.

Gastar com a violência no trânsito compromete parte considerável do orçamento com gastos que poderiam ser evitados se o país adotasse políticas públicas e ações integradas entre os poderes, especialistas e sociedade civil. Se nada for feito para frear o número de acidentes, em poucos anos teremos um número cada vez maior de dependentes do INSS, o que certamente provocará um colapso social e econômico.

Ao mesmo tempo, a redução dos acidentes liberaria recursos para investimentos em setores estratégicos e alavancaria a economia, além de permitir a ampliação de programas de auxílio e renda, algo essencial na recuperação econômica do Brasil.

*Alysson Coimbra de Souza Carvalho é médico especialista em Medicina de Tráfego e coordenador da Mobilização de Médicos e Psicólogos Especialistas em Trânsito

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