Redes sociais, democracia e eleições

Redes sociais, democracia e eleições

Rodrigo Augusto Prando*

29 Agosto 2018 | 06h35

Rodrigo Augusto Prando. FOTO: DIVULGAÇÃO

O artigo ora apresentado ao leitor tem um objetivo singelo de ser um convite.

Convidá-lo à reflexão e, sobretudo, de acessar e ler o livro digital, gratuito, Sobrevivendo nas redes: guia do cidadão, de autoria de Bernardo Sorj, Francisco Brito Cruz, Maike Wile dos Santos, Marcio Moretto Ribeiro e Pablo Ortellado.

O livro em tela pode ser obtido no site da FFHC (Fundação Fernando Henrique Cardoso). Assim, fica, aqui, o registro de quão importante é a iniciativa da confecção do livro, especialmente de forma gratuita para que o cidadão possa, como indica seu título, sobreviver nas redes sociais em tempos de fake news, polarização política conjugada ao ódio, destruição de ideias e pessoas, bem como de evidente ameaça à cultura democrática.

No rodar da tela do computador ou nos tablets e smartphones, o leitor verificará cinco capítulos, redigidos pelos especialistas e que tratam dos seguintes temas:

1) O filtro bolha: ouvindo ecos de nossa própria opinião, 2) A polarização política e como ela ocorre nas redes sociais, 3) Boatos e notícias falsas, 4) Como o debate público pode ser manipulado nas redes sociais e 5) Caixa de ferramentas (aqui, são as ferramentas para lidar com boatos e notícias falsas).

Antes, porém do índice, já se encontra os “Conselhos básicos para ler e compartilhar notícias”, que, de forma clara e didática, já permite uma melhor compreensão do fenômeno em voga: a política nas redes sociais.

O primeiro conselho implica a desconfiança das informações que confirmam nossa visão de mundo. Na maioria das vezes, a desconfiança existe naquelas informações que questionam nossas crenças e valores; mas aceitamos, com relativa facilidade, tudo aquilo que confirma o conteúdo de nossos pensamentos.

Para os autores: “As informações falsas e manipuladas são produzidas levando em consideração nossos preconceitos”. E, como corolário desta inicial advertência, solicita-se ao indivíduo não divulgar uma informação no caso de não ter certeza de sua veracidade.

Neste caso, ainda que seja natural compartilhar imediatamente as informações ou imagens que nos agradam, isso pode ter impacto negativo, no caso de disseminação de mensagens falsas; há que, portanto, resistir ao “vou repassar por via das dúvidas, vai que é verdade”.

Outro conselho relevante é que se uma informação é importante, tem urgência e fundamentada na realidade, em pouco tempo, questão de minutos, ela estará disponível em vários veículos da mídia.

Caso isso não ocorra, a prudência indica que se desconfie de tal informação. Uma notícia, séria, verdadeira, costuma apresentar nome do autor, data, o título do veículo na qual foi divulgada e, ainda, as fontes que dão lastro à matéria.

Algo que se pode fazer – eu faço com frequência – é copiar e colar um trecho da notícia num mecanismo de pesquisa disponível na internet.

Acerca dos veículos de comunicação – rádios, jornais, revistas, televisão, sites – os autores explicam a importância de se conhecer o histórico destes veículos e, com o tempo, formando uma perspectiva crítica que será capaz de encontram os que praticam “um jornalismo mais sério e cuidadoso”.

Ainda, nesta seara, muitos sites que produzem informação falsa ou de combate têm nomes parecidos com veículos sérios e isso é feito para confundir o leitor desatento.

Muitas notícias divulgadas são verdadeiras, mas apresentam datas que dizem respeito a outro momento e, mais importante, a um outro contexto. A fala de um político ou a manchete de um jornal, trazidas, por exemplo, dos anos 1990 é real, mas pode, hoje, servir para a desinformação e conturbar o debate político.

No caso de consulta, à guisa de exemplo, da Wikipedia, recomenda-se a leitura das seções “Ver histórico” e “Discussão”, pois, ali, ficam registrados os debates entre os editores da publicação e as várias e diferentes versões de um artigo.

Finalmente, há a sugestão de se conferir a manchete com o texto das matérias daquilo que se lê na Internet. Há manchetes bastante sensacionalistas que prendem a atenção do leitor, mas que não tem relação direta e lógica com o conteúdo da matéria ou da mensagem.

Esses conselhos, dicas mesmo, que constam no livro, reclamam, um a um, considerações sociológicas ou, até, da “sociologia do conhecimento”, já que implicam em refletir como nossa visão de mundo e nossos valores são conectados com as informações que nos chegam, sejam elas verdadeiras ou falsas.

Não se pode desejar – e nem se espera isso – que todos os leitores, internautas, tenham capacidade analítica e ferramental teórico para a compreensão de tudo que lemos, ouvimos ou assistimos. No entanto, espera-se e, mais que isso, valoriza-se aquele cidadão que, no âmbito da democracia, cumpre fundamental papel de desconfiar, de questionar, de debater e de não disseminar notícias falsas.

Nossas vidas, hoje, estão, em maior ou menor grau, expostas nas redes sociais, direcionadas por algoritmos, numa bolha de reciprocidade de opiniões que nos confortam e agradam com “likes” e curtidas, com “memes” e “lacradas”.

Manter o diálogo, não se fechar para o outro (não excluir e nem bloquear os que pensam diferente) e procurar se cercar de informações de qualidade faz diferença não só no período eleitoral, mas, essencialmente, para uma melhor qualidade de nossa democracia e de nossas relações sociais cotidianas.

*Rodrigo Augusto Prando é Doutor em Sociologia. Professor e pesquisador do Centro de Ciências Sociais e Aplicadas (CCSA) da Universidade Presbiteriana Mackenzie

Mais conteúdo sobre:

Artigoeleições 2018redes sociais