Reciclemos, para nos salvar

Reciclemos, para nos salvar

José Renato Nalini*

06 de julho de 2022 | 09h00

José Renato Nalini. FOTO: IARA MORSELLI/ESTADÃO

A humanidade conquistou longevidade, as tecnologias tornaram o planeta menor, a comunicação instantânea com qualquer parte do globo é uma rotina e o conhecimento nunca esteve em tamanha ascensão e cada vez mais acessível e disponível.

Mas há coisas que parecem não ter aprimorado o comportamento das pessoas. Uma delas é a excessiva produção de resíduos sólidos, o eufemismo hoje empregado para chamar o velho lixo. Somos perdulários na produção de descarte. Desperdiçamos de forma exagerada e com isso vamos transformando o mundo num contaminado depósito daquilo que não nos serve mais.

Ocorre que a espécie racional está correndo um risco e é capaz de perecer antes de alcançar estágios civilizatórios tão intensamente sonhados. O aquecimento global produz mutação climática agressiva. O desmatamento abrevia a experiência dos humanos que ainda não têm um Planeta “B” para ocupar. Se não houver profunda mutação nos hábitos e verdadeira conversão para uma existência realmente ecológica, o caos chegará muito antes do que se espera.

Por isso é que a gestão do lixo precisa ser encarada como tema grave. Por enquanto, o trabalho de coleta de material apto à reciclagem não deriva dessa consciência ambiental, senão da miséria. São os informais, os invisíveis, os que passam fome que procuram sobreviver da nossa falta de cuidado e de higiene ou de nossa absoluta carência de educação de berço.

São os sacrificados catadores que limpam nossas ruas, nossos córregos, todos os espaços onde a displicência até delitiva das pessoas vai deixando rastros de seu perverso consumo.

Somente a juventude é capaz de um enfrentamento condigno da situação. Aquela mocidade que parece já ter nascido com chip, tamanha a desenvoltura evidenciada no manejo das modernidades fornecidas pelas TICs – Tecnologias da Informação e Comunicação, bendito fruto da Quarta Revolução Industrial.

A jornalista Daniela Arcanjo mostra que a startup Green Mining está remunerando de forma decente os catadores de garrafas de vidro. Ela mantém a estação Preço de Fábrica e trabalha com blockchain, a cadeia que se tornou popular com a difusão das criptomoedas.

São jovens lúcidos, que levam a sério a Política Nacional de Resíduos Sólidos, que existe desde 2010 e o Acordo Setorial de Embalagens de 2015. Os países civilizados praticam há muito a logística reversa, para favorecer a economia circular. O Brasil, que produz diariamente milhares de toneladas de material desperdiçado, é um exemplo de desfaçatez. Nosso lixo é um dos mais valiosos do mundo. Não sabemos aproveitar essa riqueza e aceitamos, passivamente, que trinta e três milhões de brasileiros passem fome todos os dias.

Existe um MNCR – Movimento Nacional de Catadores de Materiais Recicláveis, que congrega cerca de oitocentos mil catadores no Brasil. em 2021, o Anuário da Reciclagem mapeou 9.754 desses profissionais em 358 organizações de materiais recicláveis. 54% são mulheres e 76,1% são negros. São eles que permitem que possamos caminhar pelas vias públicas, que estariam abarrotadas de nossos restos, não fora o incessante trabalho de quem sobrevive daquilo que jogamos fora.

O boom imobiliário em São Paulo e em outras grandes cidades inunda as vias de folders de propaganda. Todos recebem, mas em seguida jogam essa papelada na sarjeta. Vão parar nas bocas-de-lobo e ajudam a causar inundações nas cidades que foram construídas para o automóvel, não para gente. Esse é apenas um exemplo. Não existe catador desse tipo de folheto. Quem vive dessa atividade prefere a latinha, que é o material mais reciclado no Brasil. O descarte das latinhas pelo consumidor é seguido pelo catador autônomo que as recolhe e, depois de juntar boa quantidade, vende o material para o sucateiro. Existem cooperativas que recolhem as latinhas nos eventos. O sucateiro repassa as latinhas para a usina que as funde e transforma em lâminas. Estas vão para fábricas de latas, que vendem o produto para a empresa de bebidas. Exemplo bem-sucedido de economia circular. Mas é preciso criar uma cultura coletiva da reciclagem. Obrigar o Poder Público a fazer coleta seletiva. Educar os produtores de material que vai parar na rua – os folhetos de publicidade imobiliária, por exemplo – a uma divulgação menos poluente. Por que não entregar uma muda de árvore, em lugar de um papel com fotos, que quase ninguém lê e cujo retorno é pífio?

Tudo é uma questão de educação ecológica. Sua previsão consta da Constituição Cidadã desde 1988. Você tem visto algo efetivo nessa área?

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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