Receber pagamento de obra sem propina era ‘sonho de uma noite de verão’

Receber pagamento de obra sem propina era ‘sonho de uma noite de verão’

Chefão do Setor de Operações Estruturas da Odebrecht, Hilberto Mascarenhas afirmou em sua delação que valores dados para agentes públicos são regra para recebimento em negócios públicos

Luiz Vassallo, Ricardo Brandt, Julia Affonso e Fausto Macedo

16 de abril de 2017 | 09h00

ISAIAS URIBACI CHAVES SANTOS

O executivo Hilberto Mascarenhas da Silva Filho, chefão do Setor de Operações Estruturadas da Odebrecht – o departamento paralelo do grupo que entre 2006 e 20014 pagou US$ 3,37 bilhões em propinas e caixa 2 para partidos, políticos e agentes públicos-, afirmou em sua delação premiada que receber dinheiro em obra pública sem pagamento de corrupção era “um sonho em uma noite de verão” – referência à peça teatral de William Shakespeare, Sonho de Uma Noite de Verão.

Na sistemática de pedidos, autorizações e ordenamentos de pagamentos de propinas dentro do grupo, o delator afirma que Isaias Ubiraci Chaves tinha um papel importante. Apesar de não ser funcionário da Odebrecht, era ele que “recebia as requisições” de pagamentos, delegado por Marcelo Odebrecht – o presidente afastado do grupo, preso desde junho de 2015, pela Lava Jato em Curitiba -, e acionava o Setor de Operações Estruturadas.

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Uma das ordens que Ubiraci tinha recebido de Marcelo era: “se uma obra mandou menos recurso para a matriz do que pediu, essa obra não podia pedir pagamento nenhum”.

“Ela estava com a conta corrente negativa. Se alguém enviasse um pedido referente a uma obra que tivesse valor arrecadado menor do que pediu para os pagamentos não contabilizados ela não podia receber”, explicou Hilberto Silva.

“Acho que o que ele (Marcelo) queria era forçar aquela obra a regularizar a situação da conta corrente dela.”

O chefão dos pagamentos de propina, homem de confiança da família Odebrecht que trabalhava há 40 anos no grupo, disse que avisou Marcelo do problema.

“Marcelo, isso que você está fazendo é um tiro no pé. Porque, às vezes, ele está pedindo dinheiro para pagar o cara que vai pagar a fatura dele. Se você proíbe que ele dê o dinheiro a pessoa, ele não vai receber a fatura, ele vai ficar sempre negativo.”

Um dos 78 delatores da Odebrecht, que resultaram nos primeiros 76 inquéritos abertos no Supremo Tribunal Federal (STF), por ordem do ministro Edson Fachin, relator da Lava Jato, Hilberto disse acreditar que o chefe dizia que queria que o responsável pela obra corresse “atrás, sem precisar dar nada”.

“Isso é um sonho na noite de verão. Não era assim que funcionava… Esperamos que no futuro, mude. Mas as tesourarias e os órgãos não funcionava assim, se não me der o meu, não sai aqui o pagamento.”

O chefão do setor de propinas, que era quem executava as transferências de valores em contas secretas no exterior ou em dinheiro vivo no Brasil, afirmou que de 2006 a 2009, Marcelo Odebrecht era quem aprovava 100% dos pedidos de pagamentos.

“Era uma requisição. Se não tivesse aprovado por Marcelo ele não dava sequência. Ubiraci chama-se o verdadeiro cão de guarda. Não passava, não tinha como. Duas coisas que ele não deixava: sair um ordem se a conta corrente do cara estivesse negativa ou passar uma solicitação de pagamento dele para mim que não tivesse sido aprovada por Marcelo.”

À partir de 2009, com o aumento do fluxo dos recursos, Hilberto afirmou que os 11 líderes empresariais, que era segundo andar na hierarquia do grupo – abaixo apenas do diretor-presidente, Marcelo -, passaram a ter autoridade para liberar os pagamentos.

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