Recados de 2020 para a Medicina

Recados de 2020 para a Medicina

Irene Abramovich*

06 de janeiro de 2021 | 10h30

Irene Abramovich. FOTO: DIVULGAÇÃO

2020 foi um ano repleto de incertezas e dificuldades, para todos nós. A pandemia de covid-19 trouxe mudanças significativas e, por mais que o mundo agora vislumbre a luz no fim do túnel com o advento de vacinas com o potencial de deter a doença, muitas das adaptações que tivemos que implementar em nossas vidas vieram para ficar, do home office ao ecommerce.

Na medicina não foi diferente. Em todo o mundo, a sociedade se deparou com a mesma situação: diante de um vírus complexo e devastador e apesar de todos os riscos e inúmeras dificuldades – desde a falta de EPIs até a superlotação de leitos– médicos de todo o planeta arriscaram suas vidas para salvar muitas outras. Como consequência, mesmo com o fim da pandemia, permanecerá a mensagem que esta doença a todos reforçou: valorizar o trabalho dos médicos e a ciência é algo fundamental para qualquer sociedade que tenha a saúde como prioridade.

Para permitir que esse trabalho em prol da população fosse realizado segundo as melhores práticas possíveis, no Estado de São Paulo, o Conselho Regional de Medicina não fechou as portas, e trabalhou incessantemente para priorizar seus serviços essenciais durante todo o ano.

Não foram poupados esforços para orientar e apoiar os médicos. Ainda em março, no início da pandemia, o órgão foi o primeiro a lançar um hotsite exclusivo sobre a covid-19, com atualizações diárias e um compilado de informações envolvendo todos os protocolos necessários para o atendimento e orientações sobre tratamentos baseados em evidências. Também promoveu diversas aulas online, com especialistas das mais variadas áreas, que trataram desde temas gerais, como os aspectos clínicos da doença, até aspectos mais específicos, como os fenômenos dermatológicos decorrentes da infecção pelo novo coronavírus. É válido ressaltar que as lives atingiram audiências recordes, e que encontram-se disponíveis no canal do YouTube do Cremesp à sociedade em geral e também nas coberturas jornalísticas publicadas no site.

Todos os canais do Conselho priorizaram tópicos para auxiliar o trabalho dos médicos. Entre as ações promovidas, ênfase foi dada ao combate a falsos tratamentos e à disseminação de fake news, seja por médicos, como no caso, por exemplo, da interdição cautelar por veiculação de um suposto “soro da imunidade” contra o SARS-CoV-2; seja por profissionais não médicos, como foi visto nas várias vitórias obtidas na Justiça, em ações pioneiras, contra a propaganda de tratamentos a base de ozônio. Logo em março, o Cremesp também solicitou às autoridades competentes a testagem de médicos e profissionais da saúde e propôs ao Congresso auxílio indenizatório a médicos vitimados pelo novo coronavírus. Foram realizadas, ainda, cerca de 700 fiscalizações para checar as condições de atendimento em unidades de saúde e hospitais de campanha, que orientaram diretores técnicos sobre como deveriam funcionar seus serviços, para que a segurança de todos fosse priorizada.

A última live do ano reuniu especialistas para falar, em especial, sobre as vacinas em desenvolvimento no Brasil e no exterior. Este é um tema que ainda requer atenção para que médicos e população não sejam vítimas de boatos e desinformação. A vacina nos aponta a esperança de dias melhores. O Cremesp inicia seu ciclo de palestras online em 2021 com este tema e a primeira aula do ano deve acontecer ainda em janeiro, apoiada pela recém-instituída Câmara Temática de Vacinações e Imunizações, que reúne especialistas na área para discutir o tema.

Apesar de todas as adversidades geradas pela pandemia, o Conselho buscou contribuir com a melhor atuação médica, emitiu 6.644 novos registros profissionais e 4.811 de empresas. Além disso, informatizou e facilitou a solicitação de rodízio de veículos, por meio da implementação de uma plataforma online, e disponibilizou, gratuitamente, o 5Minute Consult, um aplicativo voltado à medicina, baseado em evidências, que tem o intuito de auxiliar o médico em diagnósticos mais precisos, entre outras ações.

Por fim, a pandemia deixa também diversos recados à classe médica. Com a morte de diversos profissionais nesse período, que, inclusive, foram homenageados pelo Conselho, não é apenas necessário que a sociedade passe a valorizar mais seus médicos, mas também que os próprios médicos se valorizem. E isso exige que cuidem de si mesmos, especialmente de sua saúde, incluindo a mental, também tema das lives do Cremesp. Já no campo da educação médica, a pandemia trouxe um alerta para o futuro: é preciso rever conceitos, conteúdos e práticas educacionais para garantir um treinamento de qualidade aos novos médicos que assumirão a enorme responsabilidade de cuidar de tantas vidas.

*Irene Abramovich, presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp)

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