Real estate, data centers e águas submarinas

Real estate, data centers e águas submarinas

Felipe Barreto Veiga e Julia Somilio Marchini*

14 de novembro de 2020 | 03h30

Felipe Barreto Veiga e Julia Somilio Marchini. FOTO: DIVULGAÇÃO

Quando falamos em Real Estate no Brasil, logo pensamos em grandes centros urbanos ou rurais com valores exorbitantes, intensa disputa por terrenos, regulação da propriedade estrangeira, consideráveis investimentos e, claro, muitos impostos e taxas para manutenção da propriedade, motivos que acabam afastando investidores locais e estrangeiros da realização de negócios em território.

Não obstante, ainda existem empreendedores e investidores que mantém o ímpeto de alavancar o desenvolvimento do Real Estate no país. Sem adentrar no momento promissor que vivem as incorporadoras após alguns anos de marasmo no mercado imobiliário, este breve artigo visa comentar um novo ângulo de negócios que poderá ser desenvolvido com o suporte do direito imobiliário e leva em consideração um estudo promovido pela Microsoft e seu projeto intitulado Natick, relacionado à manutenção de datacenters.

Dito isso, destacamos o papel essencial dos datacenters: os centros de processamento de dados (os “Data Centers”) que é o ambiente, ou espaço físico, que agrega toda a infraestrutura necessária para manter o funcionamento de sistemas e recursos digitais de uma organização, desde a rede até o armazenamento, acesso à internet e aplicações. Normalmente, são projetados para garantir o tráfego, processamento e armazenamento de enormes quantidades de dados, além de disponibilizar inúmeras aplicações ao mesmo tempo, de forma ininterrupta – o que chamamos de disponibilidade, umas das características mais importantes de um Data Center”.

Data Centers movimentam o dia a dia da humanidade, não só por fornecerem a estrutura tecnológica e de telecomunicações necessária para suportar a operação de empresas, governos e pessoas, mas também por serem o ambiente físico que concentra tais estruturas, em especial servidores, equipamentos de processamento e armazenamento de dados, além de comportarem os sistemas ativos de rede, como roteadores e switches.

Ou seja, sempre que utilizamos a internet ou alguma tecnologia em nuvem, na verdade estamos utilizando os serviços de milhares de Data Centers – portanto, você utiliza os Data Centers muito mais que imagina, você apenas não vê a utilização do serviço.

Em uma comparação simplista, é como se você estivesse utilizando a energia elétrica da sua casa: antes da energia chegar até você, ela passou por usinas e linhas e redes de transmissão.

Este uso intenso dos Data Centers exige que os equipamentos tenham uma refrigeração intensa para não superaquecerem. Quem já visitou o Data Center ou a sala onde fica qualquer servidor (até mesmo aquele servidor interno que fica na sua empresa) sabe que o equipamento precisa ficar em ambiente com temperatura controlada, seja com o uso intenso de ar-condicionado, seja com sistemas de ventilação que auxiliam no resfriamento dos equipamentos.

As centrais de mineração de bitcoins, por exemplo, que também precisam de uma grande capacidade de processamento, como os Data Centers, normalmente tem seu maior custo relacionado ao resfriamento de seus equipamentos, sobretudo com relação ao custo de energia elétrica.

Vale comentar que as empresas que administram tais Data Centers ou centrais de mineração de bitcoins normalmente não utilizam os serviços de fornecimento de energia elétrica das concessionárias, que é mais caro. Tais empresas adquirem a energia elétrica no mercado aberto, reduzindo drasticamente seus custos, mas ainda assim a despesa é extremamente relevante para seus negócios.

De acordo com Ben Cutler, as despesas de resfriamento e acondicionamento dos Data Centers é quatro vezes maior do que o custo para o seu funcionamento.

Diante dos desafios com estes custos, em 2018 a Microsoft decidiu inovar com o projeto Natick e, para isso, implantou um Data Center submarino a apenas 9km da costa escocesa – um cilindro selado repleto de servidores que foi transportado por empresas especializadas em manutenção matinhas que, por fim, abaixou até o leito, de 36m, e depois o resgatou.

Dentre os objetivos do projeto, o principal deles era o de alcançar a refrigeração natural para o funcionamento do Data Center e, para analisar o sucesso do projeto, a cápsula onde o mesmo foi instalado foi retirada do fundo do mar e trazida à superfície para análise pelos pesquisadores da Microsoft.

Após a análise, os pesquisadores entenderam que a manutenção e acondicionamento de servidores em águas submarinas é algo possível e muito vantajoso pois, segundo o estudo, “a taxa de falhas na água é um oitavo do que vemos em superfície” quanto aos servidores que quebravam ou precisavam de manutenção.

Com temperatura menores, tendo em vista que a região submarina apresentou uma diferença de aproximadamente 10ºC, o estudo concluiu que há também uma grande economia de investimentos em sistemas de resfriamento e, claro, nos custos com energia elétrica para manutenção dos mesmos.

A economia de energia, no entanto, não foi a única vantagem a se destacar: o estudo verificou que não é necessário o uso ativo de equipamentos ou funcionários de segurança, tendo em vista que a profundidade e dificuldade de acesso às águas submarinas torna mais complexa a ação de criminosos.

Não somente, e agora sim retornando ao Real Estate, o estudo também concluiu pela vantagem imobiliária da instalação dos Data Centers em cápsulas submarinas, tendo em vista que se diminuem drasticamente os custos de setup e implantação do Data Center, principalmente com relação ao imóvel, pois os há pouca demanda por espaços semelhantes, não existe disputa privada pelo solo oceânico e a negociação do espaço em si pode ser feita diretamente com os governos.

Feitos os comentários acima, percebe-se que este experimento realizado pela Microsoft trouxe diversos ângulos e possibilidades de negócios para o setor de Data Centers. Em nosso entendimento, tais possibilidades se estendem ao Brasil, um dos países com maior extensão litorânea e uma região estratégica para a instalação de Data Centers na América Latina.

As águas nacionais atualmente servem para diversas outras atividades fundamentais para nossa economia, como transportes fluviais, exploração de petróleo, pesca, turismo, etc.

Porém, nos parece que nosso país poderia se transformar ao arriscar novas ideias com relação ao uso de seus oceanos. Entendemos que “se, a princípio, a ideia não é absurda, então não há esperança para ela”, mas esta ideia possui fundamento.

Apenas como um exemplo alheio à nossa área litorânea, podemos comentar a zona econômica exclusiva do Brasil, a Amazônia Azul – área de aproximadamente 3,6 milhões de quilômetros quadrados e equivalente à superfície da floresta Amazônica – na qual haveria uma infinidade de territórios a serem explorados e possivelmente utilizados para a instalação de Data Centers como os do projeto Natick.

Lamentavelmente, nossos rios não podem ser utilizados como suporte para esta tecnologia, pois as cápsulas em questão são gigantescas e precisam de espaço o suficiente para não serem incomodados pelo tráfego de barcos e outras embarcações, além do fato mais importante de nem todos possuírem o pré-requisito da baixa temperatura das águas.

Dito isso, nos parece que a melhor saída é o uso das águas de nossa costa. Porém, de acordo com a Lei 8.617/93, compete apenas ao governo brasileiro autorizar o uso do leito nacional, devendo haver interesse estatal para tanto. Ora, se o país pretende continuar a ser uma potência no setor de telecomunicações, igualmente nos parece que haveria a possibilidade de um interesse de Estado na concessão de uso de tais águas, ainda que de forma extremamente regulada e mediante arrecadação de taxas e tarifas de concessão.

Certos de que não somos os profissionais mais adequados para verificação de das condições técnicas com relação à baixa temperatura das brasileiras, é necessário um estudo mais aprofundado quanto à possibilidade de uso de nossa costa para a instalação de Data Centers submersos.

Porém, se validadas as condições de nossa costa, e desde que seja criada legislação ou normativa que permita tal uso de territórios submersos, o Brasil terá o potencial de fazer parte dos países que poderão ser utilizados para a instalação de Data Centers submersos e, desta forma, aumentar sua importância global no setor de tecnologia e telecomunicações.

Mas, antes disso, esperamos que o Brasil seja o próximo destino da turnê do Projeto Natick. Ou melhor, da continuidade do projeto, pois o período de testes foi encerrado e a Microsoft concluiu pela sua viabilidade.

*Felipe Barreto Veiga é advogado do BVA Advogados e Julia Somilio Marchini é integrante da área de Pesquisa e Inovação do escritório

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