Raquel questiona pagamento de honorários de sucumbência a procuradores de 10 Estados e do DF

Raquel questiona pagamento de honorários de sucumbência a procuradores de 10 Estados e do DF

Procuradora-geral requer ao Supremo imediata suspensão das leis do Acre, Amapá, Bahia, Maranhão, Rio, Pará, Piauí, Pernambuco, Sergipe, Tocantins e Distrito Federal

Luiz Vassallo

20 de junho de 2019 | 10h29

Raquel Dodge, procuradora-geral da República. FOTO: FABIO MOTTA/ESTADÃO

A procuradora-geral, Raquel Dodge, propôs ao Supremo dez ações diretas de inconstitucionalidade (ADIs) contra normas estaduais e distrital que permitem o pagamento de honorários advocatícios de sucumbência a procuradores dos estados e do Distrito Federal.

Documento

As informações foram divulgadas pela Secretaria de Comunicação Social da Procuradoria e estão na página da instituição na internet.

São questionadas leis estaduais aprovadas no Acre, Amapá, Bahia, Maranhão, Rio de Janeiro, Pará, Pernambuco, Sergipe, Tocantins e DF.

Com essas ações, já são 13 ADIs propostas pela PGR para questionar esse tipo de normatização.

Em todas, o principal argumento apresentado é o de que ‘os honorários recolhidos pela parte vencida em processos judiciais contra os entes públicos devem ser compreendidos como receita pública, não podendo ser destinados a advogados e procuradores que atuaram nos casos’.
A primeira ação foi protocolada em dezembro do ano passado e tem como objeto a Lei 13.327/2016, que permitiu o pagamento desse tipo de verba a advogados públicos que defendam a União, as autarquias e as fundações.

Em maio deste ano, foi ajuizada ação contra o pagamento a procuradores de Goiás.

Nas ações enviadas ao STF na terça, 18, e quarta, 19, Raquel destaca que as normas que permitem o recebimento de honorários a procuradores dos estados e do DF são incompatíveis ‘com o regime de subsídio, o teto remuneratório constitucional e os princípios republicanos da isonomia, da moralidade, da supremacia do interesse público e da razoabilidade’.

A procuradora-geral aponta que ‘honorários de sucumbência têm nítido caráter remuneratório e de contraprestação de serviços no curso do processo’.

Segundo ela, essas verbas, uma vez executadas e recolhidas pelo ente público, integram a receita pública.

“Não podem ser classificadas, em hipótese alguma, como receita de índole privada, dada a manifesta incompatibilidade com o regime estabelecido em lei para seu recolhimento e distribuição”, assinala Raquel.

A PGR observa que a atuação em causas judiciais não constitui ofício estranho às atribuições institucionais de procuradores dos estados e do DF.

Para ela, o pagamento de honorários de sucumbência ‘simplesmente remuneram trabalho ordinário daqueles servidores’.

Ainda de acordo com as petições iniciais nas ADIs, o regime de pagamento unitário que caracteriza o modelo constitucional de subsídio – modelo pelo qual é feito o pagamento dos vencimentos dos advogados públicos e procuradores dos estados – ‘repele acréscimos remuneratórios devidos em decorrência de trabalho ordinário de agentes públicos’.

“Em se tratando de agentes públicos remunerados por subsídio, para que gratificação ou adicional pecuniário seja legitimamente percebido, faz-se necessário que não decorra de trabalho normal, mas possua fundamento no desempenho de atividades extraordinárias, que não constituam atribuições regulares desempenhadas pelo agente público”, pontua a procuradora-geral nas ADIs.

Honorários de sucumbência

Os honorários de sucumbência são reconhecidos como parcela remuneratória devida a advogados em razão do serviço prestado.

Diferentemente dos advogados privados, que arcam com custos em razão da manutenção de seus escritórios e percebem honorários contratuais, advogados públicos são remunerados por subsídio, ‘revelando-se incongruente a percepção de parcelas extras, pagas unicamente em razão do êxito em determinada demanda’.

Raquel sustenta que ao admitir a obtenção de vantagem financeira dissociada dos subsídios pagos aos integrantes da advocacia pública, e vinculada ao êxito numa determinada causa – ainda que parcial, as normas questionadas viabilizam a ocorrência de conflitos de interesse entre o ocupante do cargo de procurador dos estados e do Distrito Federal e os objetivos buscados pelo ente político.

Medidas cautelares

As ações pedem a concessão de medida cautelar – liminar – para suspender imediatamente a eficácia das normas questionadas.

Para a procuradora-geral, o perigo na demora está no fato de que as leis impugnadas estabelecem o direito de membros da advocacia pública receberem parcela remuneratória ‘em detrimento dos cofres do Estado’.

“Além do dano ao erário e da improvável repetibilidade desses valores, por seu caráter alimentar e pela possibilidade de os beneficiários alegarem boa-fé no recebimento, esse pagamento desacredita o sistema constitucional de remuneração por meio de subsídio e gera desigualdade espúria entre agentes públicos’, argumenta Raquel.

COM A PALAVRA, A ASSOCIAÇÃO NACIONAL DOS PROCURADORES DOS ESTADOS E DO DISTRITO FEDERAL

NOTA OFICIAL

A Associação Nacional dos Procuradores dos Estados e do Distrito Federal – ANAPE, tendo presente o ajuizamento de várias Ações Diretas de Inconstitucionalidade questionando a percepção de honorários de sucumbência pelos Procuradores dos Estados e do Distrito Federal, REITERA a convicção, amparada em fundamentada doutrina e jurisprudência, no sentido da constitucionalidade das legislações atacadas, algumas em vigência HÁ DÉCADAS, bem como a legitimidade de gozarem os Advogados Públicos desta PRERROGATIVA PROFISSIONAL deferida legalmente à ADVOCACIA.

Ainda, a Entidade destaca que o tema guarda relação direta com o RESULTADO da atuação profissional, sendo ônus SUPORTADO PELA PARTE ADVERSA e, portanto, parcela de NATUREZA PRIVADA e não receita pública constitucional e legalmente prevista para o financiamento dos Entes.

Ademais, destaca que a afirmação da prerrogativa profissional decorre de DIPLOMAS LEGAIS de caráter nacional, Estatuto da Ordem dos Advogados do Brasil – EOAB – Lei 8.906, de 04 de julho de 1994, e Código de Processo Civil – Lei 13.105, de 16 de março de 2015, todos amplamente debatidos no CONGRESSO NACIONAL, local próprio para a realização deste debate.

De igual modo, a definição da FORMA DE DISTRIBUIÇÃO nos Entes Federados foi toda prevista em LEIS LOCAIS com a necessária participação dos respectivos PARLAMENTOS. Neste contexto de total conformação das legislações à CONSTITUIÇÃO FEDERAL, conforme amplamente AFIRMADO pelo CONSELHO FEDERAL DA ORDEM DOS ADVOGADOS DO BRASIL e pelos reconhecidos juristas CARLOS AYRES BRITTO, ILMAR GALVÃO e CELSO ANTÔNIO BANDEIRA DE MELLO, INFORMA que postulará o ingresso, na condição de amigo da corte, em todas as ações que impugnam as legislações estaduais e distrital que tratam do tema, registrando as suas razões de direito, na certeza de que a SUPREMA CORTE reiterará as decisões já proferidas em relação à matéria. Brasília, 19 de junho de 2019.”

Telmo Lemos Filho, Presidente.

Bruno Hazan, 1.º Vice-Presidente.

Carlos Alberto Rohrmann, 2.º Vice-Presidente.

Helder de Araújo Barros, Diretor Jurídico e de Prerrogativas.

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