Racismo, racismo reverso e outros bichos

Racismo, racismo reverso e outros bichos

Cris Monteiro*

09 de fevereiro de 2021 | 16h00

Cris Monteiro. FOTO: DIVULGAÇÃO

Há alguns dias coloquei em minhas redes sociais a fotografia dos funcionários do meu gabinete parlamentar em São Paulo. Pouco tempo depois recebi mensagens de alguns seguidores: “Não tem pessoas negras na sua equipe, vereadora”? Não, não tinha. Fui traída por algum viés inconsciente. Como poderia? Fui uma das líderes no programa de inserção de negros no banco em que trabalhei como executiva até 2018. Foi um trabalho maravilhoso e tenho orgulho de ter participado dele. Mesmo assim, na hora de contratar minha equipe na Câmara, não veio à tona essa consciência que tenho. Fiz uma equipe 100% branca – embora com 70% de mulheres e com um integrante LGBT. Mas todos brancos.

Os vieses inconscientes são preconceitos internalizados, baseados em estereótipos de gênero, raça e classe social, entre tantos outros. É “aquilo” que está guiando, de forma invisível, suas ações. É fácil apontar nossos dedos para outras pessoas e cunhá-las de preconceituosas. Mas a realidade é que todos temos nossos vieses inconscientes. Resolvi então que poderia mudar esse cenário.

Ainda sobrava uma vaga de estagiário e, apoiada pelo meu grupo de funcionários, decidimos destinar aquela vaga a um(a) jovem negro(a). O entusiasmo na equipe após a decisão era palpável. Partimos para a ação e divulgamos a vaga. Rapidamente, a exultação se transformou em estupefação. Nos demos conta de que estávamos sendo chamados de racistas, de que violávamos alguns códigos ao impedir a inscrição de mais brancos para a vaga do gabinete.

Deveríamos simplesmente contratar o melhor candidato. Fosse negro, pardo, branco. Vários me sugeriram retirar a opção “candidato negro” e contratar um preto sem fazer alarde, uma vez que a pauta identitária seria controversa. Outros, mais acirrados, bradaram em minhas redes: “Você fere o princípio da meritocracia, está louca!”.

George Orwell, em 1945, escreveu em seu satírico A Revolução dos Bichos (Animal Farm, no original): “Todos os animais são iguais, mas alguns animais são mais iguais que outros”. Eu penso que uma sociedade só é livre quando a liberdade é gozada por todos, e isso só acontece quando as mesmas oportunidades são oferecidas a todos.

A meritocracia é um lindo conceito – em especial, quando aplicada em sociedades isonômicas. Há a sabedoria utilizada nos fóruns atenienses, por Aristóteles, como a do o princípio da igualdade. Ela pressupõe que pessoas colocadas em situações diferentes sejam tratadas de forma desigual: dar tratamento isonômico às partes significa tratar igualmente aos iguais e desigualmente aos desiguais, na exata medida de suas desigualdades. Outro aspecto a ser mencionado na polêmica são as vertentes defensoras de que os cidadãos de hoje não podem pagar por dívidas contraídas no passado como, por exemplo, os efeitos da escravidão nas pessoas de pele preta.

Penso diferente e não me baseio em nenhuma teoria. Pessoalmente, não tenho essa dívida, mas eu, dentro de uma sociedade desigual, posso e devo sim trabalhar para reduzir essas desigualdades. Não posso simplesmente dizer “essa dívida não é minha e tenho apenas que esperar que o tempo cure essas feridas”. Tenho consciência de que a solução está distante. Mas prefiro fazer parte da busca da solução em vez de negar o problema.

No episódio do programa de trainees da Magazine Luiza _conceitualmente semelhante ao caso da vaga no meu gabinete, mas bem diferente em escala_ de oportunidades somente para negros, eu me posicionei: “Há anos os programas de trainees eram somente para brancos”. Nesses programas as empresas não eram explícitas dizendo que eram somente para brancos. Mas bastava ver os resultados para concluir que apenas jovens brancos eram contratados. O racismo ficava escamoteado.

E esta situação se mantem real. O próprio IBGE informou, em novembro último: trabalhadores negros enfrentam mais dificuldade para encontrar um emprego se comparados a trabalhadores brancos, mesmo quando possuem a mesma qualificação. Quando trabalham, recebem até 31% menos. As desigualdades raciais no país se refletem em menos oportunidades e menos renda disponível. A renda média domiciliar per capita dos pretos ou pardos foi de R$ 934 em 2018, metade do que era recebido pelos brancos, de R$ 1.846, como divulgou à época o jornal “O Estado de São Paulo”.

Tenho a certeza de que vou contratar um(a) jovem inteligente e talentoso(a). Não será contratado somente por ser negro, mas porque terá a oportunidade de concorrer a uma vaga que, em circunstâncias ditas normais, não seria sua. Que me perdoem meus colegas liberais de raiz, cujas convicções os levam a chamar de “racismo reverso” uma simples ação bem minúscula em tamanho. Não era a minha intenção incomodá-los tanto. Eu apenas me reservo o direito de, com as minhas convicções, gerar uma pequena ação de inclusão.

Acredito que, se não tivesse eu também sido traída por vieses inconscientes e tivesse, a princípio, incluído negros em meu gabinete, nem os mais acirrados me criticariam. Portanto, proponho que simplesmente ajudemos a mudar essas fotografias repletas de pessoas brancas até em gabinetes públicos, num país com 52% de negros. Não apenas nas fotografias da minha equipe, mas de todos os lugares, empresas, comércios, serviços e órgãos públicos. Tenhamos responsabilidade ou não pela escravidão, necessitamos, no mínimo, evitar os vícios daqueles tempos derrotados, como sabiamente propõe Orwell.

*Cris Monteiro é vereadora em São Paulo pelo partido Novo e foi executiva do mercado financeiro

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