Racismo não tem fronteiras

Racismo não tem fronteiras

Antonio Baptista Gonçalves*

24 de junho de 2020 | 13h00

Antonio Baptista Gonçalves. FOTO: DIVULGAÇÃO

2020 é o ano que constará nos livros de história pela disseminação de uma pandemia mundial com consequências sanitárias, sociais e econômicas para os países envolvidos. A covid-19 desvelou as deficiências dos países inapelavelmente. No Brasil a pandemia mostrou a desigualdade econômica e social de um país que deveria proteger as comunidades, mas faz o contrário, já que os trabalhadores são a base do setor de serviços, e o medo do vírus é menor do que o da fome, assim, continuam indo trabalhar e se arriscar e a seus entes queridos, pela necessidade.

Em outros lugares velhas feridas reapareceram, como a violência gratuita e injustificada cometida por um policial branco de Minneapolis contra George Floyd, um homem negro de 46 anos que foi imobilizado com os joelhos em seu pescoço por mais de oito minutos mesmo dizendo que não conseguia respirar, que resultou em sua morte.

Qual foi o motivo da brutalidade? A suspeita de tentar usar uma nota falsa de U$20,00 em uma loja de conveniência, portanto, claro está que a reação policial foi desnecessária e com excesso injustificado em relação ao ato cometido.

A sociedade norteamericana mostrou indignação e vários Estados tiveram manifestações clamando por justiça contra as ações desproporcionais da polícia e nem os Decretos de toque de recolher tiraram as pessoas das ruas. Não foi o primeiro caso, provavelmente, não será o último e não se trata de um incidente isolado. O racismo é presente e não se limita aos Estados Unidos da América.

No Brasil pergunte a qualquer morador de uma região periférica como é a abordagem policial para um negro no período noturno. Serão vários os relatos de brutalidade, de violência gratuita por suspeita e averiguação. No entanto, a mesma
cautela e truculência não são observadas em bairros nobres com homens brancos e seus veículos importados.

Com a covid-19 os ânimos e as tensões estão potencializados, as pessoas estão cansadas, aflitas e com medo de um inimigo invisível. A tolerância diminuiu com a obrigatoriedade de se cumprir um retiro forçado. A reação da população negra norteamericana ao longo de vários Estados mostram a indignação, a dor e a revolta pela mantença do racismo no espaço tempo.

O caso George Floyd mostra que o homem branco ainda não entendeu que não há variação tonal para a dignidade da pessoa humana e seus direitos fundamentais. As tensões derivadas do racismo não foram superadas, quando muito ficam adormecidas. A cada novo caso a indignação e a revolta voltam e a velha ferida reabre. Agora, os protestos não parecem arrefecer e são dirigidos contra à policia e às autoridades para que seja aplicada justiça.

No caso do policial Derek Chauvin a revolta se acentua pelo oferecimento da denúncia por homicídio culposo, sem intenção de matar, mesmo quando ouviu da vítima que não conseguia respirar e o manteve em asfixia por mais dois minutos. O que se esperava era a acusação de homicídio em primeiro grau, o que equivale ao homicídio doloso, quando há intenção de matar. Ainda mais para um agente que, ao longo de 20 anos de serviços policiais, teve quase duas dezenas de denúncias contra si, várias delas por violência, com a maioria arquivada.

Como dissemos, não foi o primeiro caso e o racismo não tem fronteiras. No Rio de Janeiro nas comunidades cariocas a violência é uma realidade e com ela o racismo e o preconceito, na periferia a violência policial é o cotidiano para muitos negros. A Constituição diz que todos são livres, será? A violência e a desigualdade são realidades. É preciso responsabilizar os que abusam de sua autoridade ou são racistas, não importa quem sejam ou que cargo ocupem.

Temos de refletir como que os brancos irão modificar as condutas racistas contra os negros. Sim, os brancos, porque não são os negros os responsáveis pelo racismo, portanto, são os brancos que devem se engajar ativamente na luta antirracista. É preciso se mudar a postura, o comportamento, as atitudes e, principalmente, o discurso. Não
basta o Estado fazer campanhas de conscientização, também, não tem sido suficiente os negros defenderem o fim do racismo. Cada um de nós pode contribuir para enfrentar essa realidade.

Será que as pessoas brancas em seu círculo familiar e de amizades sabem o que é racismo? A velha máxima de que “até tenho amigos negros” já denota seu racismo.

Reflita e mude. Quando um idoso faz uma piada racista ele não pode deixar de ser repreendido pela escusa da idade. O fato de ser mais velho não lhe dá liberdade de falar ou se comportar como um racista, não há liberdade para o desrespeito para com o próximo. Estes são alguns poucos casos da variedade de atos perpetrados diuturnamente contra os negros de forma consciente ou não. É necessário mudar, independente da cor.

Para lutar contra o racismo não é obrigatório ser negro basta ser humano. Os brancos, amarelos, mulatos, pardos, índios, também devem agir.

Em tempos de covid-19 é momento de reavaliar velhos comportamentos, modificar, evoluir e transcender. O racismo não tem fronteiras e é presente no mundo seja através do Apartheid, dos resquícios da escravidão ou da defesa da supremacia branca. A inclusão e a defesa do humano são o caminho para a inclusão, não há preto, branco, amarelo há ser humano. Todas as raças devem ser respeitas e a mudança deve começar dentro de nós. Educação, cultura, inclusão e cidadania com respeito ao próximo, somente assim, poderemos tirar os fantasmas que insistem em permanecer no armário.

*Antonio Baptista Gonçalves é advogado, pós-doutor, doutor e mestre pela PUC/SP e presidente da Comissão de Criminologia e Vitimologia da OAB/SP – subseção de Butantã

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