Racionamento? São Pedro vai levar a culpa

Racionamento? São Pedro vai levar a culpa

Roberto Pereira D'Araujo*

15 de setembro de 2021 | 13h30

Roberto Pereira D’Araujo. FOTO: DIVULGAÇÃO

Estamos cada vez mais perto de outro racionamento e, mais uma vez o dedo do governo aponta para São Pedro. O pior é que, como o santo não tem advogado que o defenda, muitos acreditam mesmo que ele seja o culpado.

Só que, quem conhece os dados básicos do setor, por exemplo, a série de afluências, sabe que, no período 1949 – 1956, esses mesmos rios apresentaram índices de baixas afluências muito similares a atual “escassez” hídrica. Portanto, não é verdade que essa situação represente uma tragédia não previsível.

Na realidade, os reservatórios não estariam vazios se outras usinas com preços no entorno dos preços do MWh hidráulico tivessem sido construídas. Basta consultar o plano Decenal 2021, realizado pela EPE em 2011 para ver que houve uma “frustração” de 8.400 MW de hidráulicas. Pode parecer coincidência, mas, as térmicas, ao contrário, superaram em 8.300 MW a previsão. Esse é o preço de um planejamento “indicativo”, exigência de um modelo mercantil que não está funcionando a contento.

O mundo todo está muito preocupado com as mudanças climáticas e, um dos esforços para alterar essa terrível trajetória são as eólicas e solares, que, além de serem mais inocentes nas causas do aquecimento, cada vez mais têm reduzido seus preços.

O Brasil tem investido em parques eólicos, mas até agora, apenas 10% da nossa matriz é movida pelo vento. Para se ter uma comparação, na Dinamarca, os ventos já geram 56% da energia do país. (https://www.statista.com/statistics/217804/wind-energy-penetration-by-country/).

Nas fotovoltaicas, esse nosso ensolarado país, só tem 1,7% de sua eletricidade a partir do sol. A Austrália já tem 10,7 % e a Alemanha, 9,7%. (https://ourworldindata.org/renewable-energy).

Um outro fato difícil de ser entendido por parte dos consumidores é que, desde que o modelo mercantil foi adotado (1995), nós quadruplicamos a capacidade de energia termoelétrica, inclusive com contratação de térmicas a diesel e óleo combustível. É preciso a razão desse desvio de uma rota mais compatível com um país tão privilegiado de recursos naturais.

Como nosso sistema lida com um estoque, o que se fez “outrora” afeta o que ocorre no “presente”. É como uma memória que registra as decisões de cada momento afetando a reserva de água. Por defeito de modelagem, o nosso mercado livre, se aproveitou das sobras de energia decorrentes do racionamento de 2001 e das hidrologias favoráveis por 10 anos. O preço referência do mercado (PLD) esteve muito abaixo do preço pago pelos outros consumidores. Sendo assim, o “mercado” não investiu na expansão da oferta, e, ocupando 30% do consumo, leilões atraíram mais térmicas.

No singular sistema brasileiro, usinas caras são “computadas” na oferta, mas, otimizar o custo, a água dos reservatórios as substitui. Assim, ao contrário do que a maioria imagina, térmicas caras esvaziam reservatórios!  E a culpa não é do Operador Nacional do Sistema, pois para operar de outro modo, muitos parâmetros acordados entre os agentes teriam que ser alterados. O que é evidente é que o custo de operar o sistema está mais caro do que expandir a oferta!

Segundo a Agência Internacional de Energia, desde 2018, já somos os vice-campeões de carestia na eletricidade pelo método de paridade do poder de compra. Com os “jabutis” e a própria privatização da Eletrobras, vamos ganhar da Alemanha, a mais cara.

Não foi bem desse jeito que imaginamos uma revanche do 7 x 1.

*Roberto Pereira D’Araujo, diretor do Instituto Ilumina

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