Quero uma Lava Jato em Campinas

Quero uma Lava Jato em Campinas

Tenente Santini*

26 de junho de 2019 | 05h00

Tenente Santini. Foto: Akira Sassaki

No dia 1.º de janeiro de 2016 comecei uma nova missão em minha vida: propor projetos e fiscalizar a administração pública de uma das cidades mais ricas do país. Hoje, 2 anos e meio depois da posse como vereador em Campinas, me vejo com uma grande responsabilidade, a de ajudar a quebrar um mecanismo corrupto que se instalou na cidade há mais de uma década.

Meu perfil de policial e de cidadão indignado com o caos que se instalou no município fez com que meu gabinete recebesse quase que diariamente denúncias de diversas naturezas contra o Prefeito, agentes políticos ligados a ele, de contratos suspeitos da Prefeitura, favorecimento e superfaturamento, dentre outros.

Meu sentimento é de que tinha as peças de um grande quebra-cabeças que poderia revelar algo maior. Sujo. Que poderia passar Campinas a limpo. E meu dever era montar essas peças e escancarar para todos. Foi o que fiz.

Em um verdadeiro trabalho de ‘formiga’, recebi as denúncias, apurei, apresentei muitas ao Ministério Público e divulguei nas minhas redes sociais e para os principais órgãos de imprensa. Com o único intuito de alertar a população sobre o que está acontecendo. Não se trata de um movimento político e, sim, ideológico.

No dia 5 de junho de 2019 ocorreu um fato que viria alterar o status quo. Na sessão plenária na Câmara Municipal de Campinas, expus todos os fatos e denúncias captadas nestes 2 anos e meio. Falei do envolvimento de parlamentares com o PCC, com roubo de cargas, grilagem de terras, cargos fantasmas e até roubo de ticket de assessores.

Meu discurso caiu como uma bomba entre os parlamentares da base do prefeito. E a resposta veio de forma imediata. E com a arma típica da velha política: a intimidação.

Um dos Vereadores, vendo a carapuça servir, ameaçou entrar com uma Comissão Processante contra mim por quebra de decoro parlamentar.

Em resumo, eles querem me cassar.

Não demorou e os ‘marionetes’ do prefeito compraram a briga e demonstraram total apoio ao ato, que é ilegal e inconstitucional, afinal não cometi crime algum, só utilizei da minha prerrogativa de imunidade parlamentar no discurso.

Era um ímpeto jamais visto na Câmara.

Um movimento para me tirar do jogo e cassar meus direitos políticos por 8 anos.

A base do governo, desacostumada com este enfrentamento ao sistema, começou a articular e colher as assinaturas para protocolar o pedido de abertura da Comissão Processante.

E como a pressa é a inimiga da perfeição, esqueceram de um detalhe: estavam utilizando a ferramenta errada. Um ato falho beirando o amadorismo que reflete o modo de fazer política e gestão pública nas últimas décadas.

A intenção dos vereadores, ao menos no discurso, era que eu provasse o que havia dito. Mas não é a Comissão Processante o meio para isso e, sim, uma CPI, onde as provas são colhidas junto com testemunhos de envolvidos. Mas isso não parecia interessante para eles, afinal, as provas estariam à mesa.

Aliás, a CPI foi um instrumento jurídico bastante acionado por mim contra o Prefeito de Campinas. Tentei a CPI da Saúde, das Merendas, da Máfia das Multas e da Organização Criminosa na cidade.

Todas negadas justamente pelos mesmos que apertam os passos para aprovar a minha cassação. Mesmo com denúncias no Ministério Público. Mesmo com as prisões de pessoas do alto escalão. Mesmo com o Prefeito condenado em segunda instância pelo Tribunal de Justiça de São Paulo.

E por que é difícil quebrar este sistema? Por ele está enraizado, entrelaçado por meio de um cabide de empregos que incha a máquina pública. E o dinheiro do salário destes cargos financiam campanhas políticas e fazem o mecanismo funcionar. É assim em diversas cidades do Brasil.

Mas o que este velho mecanismo esquece é que a população é, sim, soberana. E os campineiros não aguentam mais o sucateamento da cidade. Pessoas estão morrendo nos hospitais. Crianças estão sem merenda. Falta segurança nas ruas. Empresas estão saindo da cidade, aumentando o desemprego.

Enquanto isso, pagamos um dos IPTU´s mais caros do Estado. A taxa de água das mais caras do país. Mais de R$ 1 bi e meio em dívidas. Uma gestão pífia e pessoas despreparadas para administrar a cidade.

Mas tudo isso só fomenta meu ímpeto em combater e quebrar este sistema.

Em caso de aprovação da Comissão Processante quero explicitar toda essa sujeira.

Se isso custar meu cargo de vereador, sem problemas. Meu papel de alertar a população estará realizado.

Quero uma cidade limpa, uma Câmara renovada. E sem corrupção. Quero uma Lava Jato em Campinas

*Tenente Santini (PSD), policial militar da reserva, atualmente vereador de Campinas

Tendências: