‘Quero saber quem vai pagar essa porra desse apartamento’, diz Lula à PF sobre tríplex no Guarujá

Ex-presidente irrita-se após responder série de indagações de delegado federal acerca do apartamento no litoral paulista que empreiteira de seu amigo reformou a custo milionário

Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba, Julia Affonso, Mateus Coutinho e Fausto Macedo

14 de março de 2016 | 16h00

Foto: Leo Barrilari/EFE

Foto: Leo Barrilari/EFE

Em um trecho de seu longo e tenso depoimento à Polícia Federal, no dia 4 de março, quando foi conduzido coercitivamente para depor em uma sala no Aeroporto de Congonhas, o ex-presidente Lula ficou irritado após responder uma série de indagações sobre o tríplex 164/A do Condomínio Solaris (antigo Mar Cantábrico), no Guarujá. A PF e o Ministério Público suspeitam que o petista é o verdadeiro dono do imóvel.

Ele afirmou que não é dono do imóvel e insistiu na versão que vem apresentando desde que a Operação Lava Jato passou a investigar a participação da empreiteira OAS nas obras do edifício e na reforma milionária do apartamento. “Quero saber quem vai pagar essa porra desse apartamento. Eu quero saber.”

O delegado iniciou essa etapa do depoimento, relativa ao apartamento na praia das Astúrias, com a pergunta. “O senhor comentou agora que o apartamento não é seu, que o senhor estava querendo o dinheiro de volta…”

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Lula: Estou querendo, não recebi ainda, estou querendo.”

“O senhor fez o requerimento, é um termo de declaração com o requerimento de admissão do quadro social da Mar Cantábrico, da Bancoop. Quando é que foi feito esse requerimento para o senhor sair da Bancoop?”

Lula: “Agora em dezembro.”

“Por que nessa data que está aqui consta 2009, o ano?”

“Eu não sei a data que consta, querido.”

“2009.”

Lula: “Não, 2009 consta aí, foi o seguinte, quando houve o Termo de Ajuste de Conduta entre o Ministério Público e os cooperados.

Ainda o ex-presidente. “E a Bancoop deixou de mandar boleto, como a gente estava num ano eleitoral a minha preocupação era eleger a nossa Dilma Roussef Presidenta da República. Eu estava pouco me lixando pra Bancoop. Por que o Ministério Público não disse que fez um Termo de Ajuste de Conduta nesse apartamento, por que não assume, e que orientou aos cooperados, que orientou a OAS a fazer? Não sei por que não assume?”

O delegado da PF perguntou. “Vamos esclarecer uma nota do Instituto Lula que afirmou o seguinte: ‘que as modificações no apartamento seriam incorporadas ao valor final da compra, as modificações feitas no apartamento tríplex atenderam aos desejos do senhor e da sua família.’ Vamos deixar claro, essa nota que o senhor tratou dizendo que atendiam, ou não atendiam… se não me engano, foi que não atendiam, isso já tinha sido feito alguma modificação e mesmo assim não atendeu?”

Lula: “Não, não tinha sido feito, porque, como a insinuação da imprensa era de que estava sendo feito, o que o Instituto quis dizer na nota é que se fosse feito eu teria que pagar a diferença.”

Lula: É, porque se você compra uma galinha e ela vale dois contos e quando você vai ela está com três pintinhos, ela vai valer mais.”

O delegado. “O senhor se recorda qual o valor que o senhor está pedindo para a Bancoop lhe devolver?”
O ex-presidente respondeu. “Eu estou pedindo … também está aqui, a somatória do valor que eu paguei, corrigido.”

“Então não tem o valor atual do imóvel ou eventuais investimentos?”

“Não tem, não tem. É o valor que eu paguei corrigido. (…):Se tem alguém que pode me processar é a OAS, ela falava o seguinte: ‘Eu estou tendo prejuízo com o apartamento, você vai pagar.’ Agora, eu quero o apartamento agora, alguém vai me dar, ou o Ministério Público vai me dar, ou a Veja vai me dar, ou a Globo vai me dar, mas eu preciso do apartamento agora e quero saber quem vai pagar essa porra desse apartamento. Eu quero saber.”

O delegado da PF prosseguiu. “Esse termo de declaração, que está aqui, foi assinado de fato em 2015, correto? De fato consta 2009, mas foi explicado, é isso?”

“Deve ter sido”, disse o petista.

O delegado quis saber. “Antes disso, o senhor sofreu a cobrança de algum valor por parte do Bancoop ou da OAS?”

Lula: Não. A Bancoop na verdade, coitada, a Bancoop tinha quebrado, por isso que os cooperados, com a assistência do Ministério Público, fizeram o acordo pra contratar a OAS pra fazer a obra.”

Delegado. “Certo. A aquisição do imóvel, a Bancoop estava vinculada à unidade 141A. O senhor tomou alguma providência para verificar se a unidade havia sido comercializada pela OAS?”

Lula: Tinha sido vendida já, me parece. Já tinha sido vendida, está aqui também.”

Delegado. “Qual foi a providência que o senhor tomou quando soube que a sua unidade foi vendida, qual foi sua reação?”

Lula: Eu queria ver se tinha outra noutro bloco qualquer, quando falaram desse apartamento eu fui ver.”
Nessa altura, o delegado da PF cita Fernando Bittar e Jonas Suassuna, que seriam os verdadeiros donos do sítio Santa Bárbara, em Atibaia, outro imóvel que os investigadores supõem pertencer ao ex-presidente: “O senhor sabe informar se o senhor Fernando Bittar teve alguma relação com o triplex no Guarujá?”

Lula: Não, nenhuma. Ele certamente, se eu tivesse, se o apartamento fosse meu, ele iria freqüentar um dia.”

Delegado: “O senhor sabe informar se o senhor Jonas Suassuna tem alguma relação com o tríplex do Guarujá?”

Lula: Não. Agora nem eu tenho.”

O delegado da Polícia Federal voltou a perguntar sobre o empresário Léo Pinheiro, da OAS. “O senhor Léo Pinheiro, ex-presidente da OAS, tem alguma relação com o tríplex do Guarujá, em São Paulo?”
Lula: Eu acho que ele era presidente da empresa que ganhou o direito de fazer a obra.”

“E ele tinha ciência das modificações que seriam feitas no triplex?”

“Não sei.”

O delegado foi adiante. “Mas nessa visita em que o senhor esteve com ele, ou na outra oportunidade em que ele esteve com a dona Marisa, ele tinha ciência dessas modificações?”

Lula: “Não.”

“Se eventualmente o senhor quisesse ficar com o imóvel…”

“Não, não. O que ele disse é que ia fazer o estudo.”

“Mas ele tinha ciência da cotaparte que o senhor tinha adquirido?”

“Tinha, é lógico que tinha.”

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