Quer um futuro? Comece pelo passado

Quer um futuro? Comece pelo passado

Cassio Grinberg*

06 de julho de 2019 | 05h00

Cassio Grinberg. FOTO: DIVULGAÇÃO

A música Let’s Misbehave, de Cole Porter, além de inspiração para filmes de Woody Allen, nos brinda também com versos provocadores: “quer construir um futuro, querida? Por que não arranja primeiro um passado?”

Nos esquecemos, muitas vezes, que desenvolvimento trata menos de um futuro distante do que de sua conexão reversa com o presente e, paradoxalmente, o passado. Ainda que haja temporais, começaremos a definir o produto da colheita com base em decisões tomadas no plantio, e nossos projetos bem poderiam ser como um Waze: ajustamos o trajeto ao destino com base nas nuances do caminho a percorrer.

Temos a tendência a exagerar nosso passado: supervalorizamos, em nossas empresas e casas, decisões acertadas e também enganos que mesmo os “gênios” cometem. Antecipamos resultados mal passados e perdemos com isso a chance de ativar o magnetismo intuição-experiência. É comum, nas falas das pessoas que “chegaram lá”, a classificação de seus erros como etapas de um itinerário natural.

Costumamos, pior que isso, tratar a passagem do tempo como armadilha: nos valemos de clichês como “a vida é curta” e decretamos que ficou tarde para começar projetos. Vasculhamos biografias ilusórias e imaginamos passados que deveríamos ter tido. Sintonizamos o indexador das redes e fabricamos medidas do que devíamos estar fazendo. Ligamos o cronômetro do espelho e deixamos de comemorar aniversários com amigos. Ignoramos que Momofuku Ando inventou o macarrão instantâneo depois dos setenta anos de idade, e delegamos nossa esperança a terceiros ao pensar que estudar inglês ou piano deveriam ter sido decisões tomadas por nossos pais para nós mesmos muito tempo atrás.

E por que tratamos nosso passado como condenação, quando ele bem poderia ser propulsão para decisões que podemos nos permitir tomar exatamente agora? Será que o fato de não conseguirmos nos impulsionar neste passado não mostra justamente nossa dificuldade de, em vez de desenhar a partir dele, não conseguir deixar de voltar sempre a ele?

*Cassio Grinberg, sócio da Grinberg Consulting

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