Quem se lembra de Rodrigues Alves?

Quem se lembra de Rodrigues Alves?

José Renato Nalini*

06 de novembro de 2020 | 08h00

José Renato Nalini. FOTO: IARA MORSELLI/ESTADÃO

Tempos de grosseria, de rusticidade e de falta de compostura, podem fazer os moços acreditarem que o Brasil sempre foi assim. Não foi. Já fomos melhores. E não é preciso ir muito longe. Nasceu em Guaratinguetá, em 7.7.1848, Francisco de Paula Rodrigues Alves.

Estudou no Colégio Pedro II e era melhor aluno do que Joaquim Nabuco e Rio Branco. Bacharel em Letras em 1866, ingressa na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco e é colega de Rui Barbosa, Joaquim Nabuco, Castro Alves e Afonso Pena.

Gosta de escrever e colabora com a “Imprensa Acadêmica” e com o “Dezesseis de Julho”. Empata com Afonso Pena para tornar-se redator, o que, acreditem, era um posto cobiçado entre os acadêmicos.

Colou grau em 5.11.1870 e dele disse o grande João Mendes: “Caráter sisudo, inteligência cultivada, ideias sãs, eis elementos valiosíssimos que o senhor doutor Rodrigues Alves porá a serviço do partido, se quiser dedicar-se à carreira política”.

De retorno à terra Natal, ali se destaca na advocacia, é eleito vereador, juiz de paz e promotor público. Torna-se depois Juiz Municipal e de órfãos. Candidata-se à Assembleia Legislativa Provincial de São Paulo e é eleito em 1872, reeleito em 1874, 75, 78 e 79. Deve-se a ele a lei de 1873 que torna obrigatório o ensino primário. Para isso, teve de duelar oralmente com Sá e Benevides, para quem essa obrigatoriedade “derrubava o pátrio poder”. Foi de Rodrigues Alves a iniciativa de criação da “Escola Normal” da Praça, hoje sede da Secretaria da Educação.

Aos 27 anos casa-se com Ana Guilhermina de Oliveira Borges, neta do Visconde de Guaratinguetá e enviuvou aos 42, nunca mais se casando. Devota-se à criação das filhas, alunas do Colégio Sion.

Elegeu-se para a Câmara Federal, conhecia bastante economia e fazia discursos que mostravam performance financeira, o que era raro à época. Ficou célebre um discurso sobre a escravidão. Fazendeiro de café, era emancipacionista e votou a favor da abolição como deputado.

Com a renúncia do Visconde de Parnaíba à Presidência da Província, Rodrigues Alves assume o governo. Incentivou a imigração e obteve autorização da Assembleia Provincial para contratar a introdução de cem mil imigrantes europeus. A Princesa Isabel concedeu a ele o título de Conselheiro do Império.

Foi eleito deputado constituinte após à proclamação da República, mas renunciou para ser Ministro da Fazenda de Floriano. Colocou o Erário em ordem. Divergiu de Floriano, espírito indômito, e foi eleito Senador, substituindo Rangel Pestana, que assumiu a presidência do Banco da República. Reeleito por 9 anos, resignou o mandato para ocupar novamente a Pasta da Fazenda, agora com Prudente de Morais, que dele dizia: “Você é um dos raríssimos homens cujos escritos sou capaz de assinar sem ler”. Renunciou quando Prudente de Morais se afastou por doença e foi substituído por Manoel Vitorino.

Quem o sucedeu foi Bernardino de Campos, que não deixava de se aconselhar com ele. Tornou-se líder do governo no Senado e assumiu a presidência de São Paulo, em 1900, renunciando para disputar a Presidência da República. Foi Campos Salles quem o convenceu a se candidatar. Hesitou e se recusou mais de uma vez, mas Campos Salles insistiu e ele acabou sendo eleito. Foi o terceiro Presidente Civil.

Pode-se afirmar que Prudente de Morais edificara a paz, Campos Salles restaurara o crédito do Brasil e Rodrigues Alves forma a tríade dos verdadeiros construtores da República.

Propôs-se à missão do saneamento. Varíola, peste, febre amarela, tudo matava no Rio, cidade colonial que não tivera planejamento. “Ir ao Rio é suicidar-se”, comentava-se à época. Os donos da cidade eram os ratos. A cada dois meses, matavam-se mais de vinte mil ratos. Um monarquista, Correia Bittencourt, escrevia sobre “o entusiasmo com que a febre amarela e outros morbos transmissíveis têm colaborado com o novo regime, na inglória tarefa de demolição da nossa nacionalidade. A capital é o esquife da nossa reputação o sarcófago dos nossos foros de povo civilizado”.

O jovem médico Oswaldo Cruz, cujo pai a febre amarela dizimara, pôs-se à luta. Simultaneamente, Francisco Pereira Passos, Paulo de Frontin e Lauro Muller reformam a cidade. Foram os nossos barão de Haussman, que formatou a moderna Paris e Sir Christofen Wren, que fez o mesmo em relação a Londres.

Claro que isso teve um custo. Povo e mídia se rebelaram. Ameaçou-se invadir o Catete. Rodrigues Alves foi aconselhado a deixar o palácio, mas respondeu: “Fico. Aqui é o meu lugar”.

Afinal, a grandiosa obra de saneamento chegou a bom termo. A mortandade cessou. O paulista de Guaratinguetá enfrentou também graves questões internacionais, entre as quais a do Acre. Venceu por ser sereno, prudente, verdadeiro diplomata e pacificador.

Encerrado o governo, volta à sua Guaratinguetá. Insistem para que ele se candidate novamente. Rui Barbosa o persuadiu. Foi eleito Presidente da República para o quadriênio 1918-1922. Mas quem assumiu foi Delfim Moreira, porque em 14.11.1918, Rodrigues Alves afirma que não poderia assumir, por motivo de força maior. Estava gravemente enfermo. Falece aos quinze minutos de 16 de janeiro de 1919.

Quem diria que cem anos depois, estaria o Brasil a enfrentar a pandemia da Covid19? Em outras circunstâncias. Com outro panorama político, outras pessoas. É sempre bom lembrar do paulista Rodrigues Alves, que um dia proclamou: “Não se devem esquecer os homens de Estado que são verdadeiramente dignos somente quando se mostrarem grandes e leais no poder, grandes e leais quando fora do Governo. Os que procedem de outra forma, não passarão jamais de espíritos medíocres, de ambiciosos vulgares”.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020

Tudo o que sabemos sobre:

Artigo

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.