Quem são os 30%?

Quem são os 30%?

Bernardo de Vito Schneider*

12 de junho de 2020 | 02h00

Bernardo de Vito Schneider. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Em 30 de maio surgia o movimento “Somos 70%”, idealizado principalmente pelo economista Eduardo Moreira, mexendo com a base de apoio de Bolsonaro, que começou a efetuar mil e um cálculos para tentar deslegitimar o movimento. O problema, como sempre, é que o bolsonarismo não compreende o cerne das questões, apenas a superficialidade, e isso reflete no governo federal. O número em si é o que menos importa nesse caso, mas sim a ideia de que Bolsonaro não é idolatrado pela maioria do povo brasileiro. Mas, ao meu ver, mais importante ainda é fazer a pergunta: quem são os 30%? Novamente, a questão aqui não é o número e sim a ideia, que precisa ser deixada muito clara para essa parcela da sociedade brasileira, de que defenderemos a democracia e quem não o fizer se assume como lesa-pátria.

Precisamos dar nome aos bois, não apenas chama-los de gado. Essas pessoas, por seus próprios interesses e ambições, estão concordando em número e grau com o bolsonarismo (que insisto em dizer que deve ser entendido como um fenômeno próprio e não como um ressurgimento de um movimento passado, mas que possui sim diversas convergências com todo tipo de megalomania, do fascismo à supremacia branca). Luciano Hang, da Havan, está de acordo com Bolsonaro (inclusive recentemente o incentivou a omitir dados sobre a Covid-19), pois bem, não compre mais nada em seus templos de idolatria ao imperialismo estadunidense. Silvio Santos, do SBT, está de acordo com Bolsonaro, pois bem, não dê mais audiência a nenhum de seus programas. Valdemar Costa Neto, condenado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, e Roberto Jefferson, presidente do PTB, condenado pela mesma razão, estão de acordo com Bolsonaro. Os deputados federais Wellington Roberto e Soraya Santos, ambos do PL, estão de acordo com Bolsonaro. Marco Bertaiolli e Diego Andrade, ambos deputados federais do PSD, estão de acordo com Bolsonaro. O senador Ciro Nogueira, do PP, e o deputado federal Arthur Lira, também do PP, estão com Bolsonaro. Além disso, estão com ele também integrantes do DEM, do MDB e do Republicanos. Pois bem, não os reelejam. O Grupo Record e a Igreja Universal, ambos do Edir Macedo, e o Silas Malafaia estão de acordo com Bolsonaro, pois bem, cabe decidir se é sábio continuar compactuando com estes e suas organizações.

Eles podem não ser a maioria, mas, ainda assim, dentro desses 30% há muitas pessoas influentes. Contudo, tais pessoas precisam entender muito claramente o que significa estar de acordo com Bolsonaro, para que depois não venham reclamar ou tentar alegar inocência. Estar de acordo com Bolsonaro nesse momento é não estar sensibilizado com a dor de quase 40 mil famílias brasileiras, é concordar com a política econômica de Paulo Guedes de priorizar o alto empresariado ao invés das pequenas empresas (que são as maiores geradoras de empregos), é aplaudir a politização de um remédio sendo que esta discussão deveria estar sendo feita por médicos e cientistas, é legitimar fake news que vão desde caixões vazios até o “plano chinês de dominação mundial”, é concordar com o fechamento do Congresso e do STF, é clamar por uma intervenção militar, etc, etc, etc. Não há mais tempo para meios termos, é preciso separar o trigo do joio, ou se é democrata ou se é traidor da democracia. Por isso, proponho: arrependam-se enquanto é tempo. Caso contrário, preparem-se para um basta, pois estamos atentos a quem está na trincheira do inimigo.

Por fim, faço um adendo a alguns ardorosos lulopetistas: não penso que Ciro Gomes, ao dizer que “quem não vier é traidor”, tenha mandado um recado ao Lula ou ao PT, mas o afobamento em responder é tanto que acabam por evidenciar cada vez mais que preferem se aproximar do problema do que da solução. Lula segue sendo o presidente mais importante da história do Brasil, mas se apequena ao se autocensurar do jornal O Globo. Os tempos já estão suficientemente difíceis e sombrios para termos que lidar com mais egos feridos. Infelizmente, o vírus da vaidade presente no lulopetismo, que sempre destruiu e destrói até hoje as reputações de quem deles discordar, como no caso da corajosa Heloísa Helena, parece ter contagiado até mesmo a Fernando Haddad, por quem tenho profundo respeito, mas que parece ter perdido a sensatez de outrora. Espantei-me ao vê-lo reclamar por não ter sido chamado para uma entrevista na GloboNews (sendo que sua última participação no canal ocorreu no mês passado) e declarar que entre esse canal e a CNN, prefere a “tv” relacionada ao seu partido. Pelo visto, o PT segue e seguirá no fundo abissal de sua própria narrativa, entre lulas e bivalves. Essa narrativa, comprovadamente falida desde 2018, tem sido inconsequentemente reavivada por alguns membros da esquerda. Porém, mais do que nunca, é urgente que nosso povo assimile que Bolsonaro precisa de Lula tanto quanto Lula precisa de Bolsonaro, é uma relação mutualista, porém parasitária para o país. A vacina ou o tratamento para ambos é o mesmo, a emancipação do povo brasileiro.

*Bernardo de Vito Schneider, biólogo e pedagogo

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