Quem manda na cadeia?

Quem manda na cadeia?

Fausto Macedo

15 de janeiro de 2019 | 05h00

Caro leitor,

O Ceará vive noites de violências desde que grupos criminosos saíram às ruas com fuzis e explosivos para tocar o terror na vida de Fortaleza e de outras cidades pelo interior do Estado – até aqui, 204 ataques.

Quero abordar aqui alguns pontos, algumas situações distintas que, afinal, podem explicar tanta selvageria.

O primeiro ponto é: o que está por trás dessa onda de agressões à cidadania?

Ônibus incendiado em Fortaleza. Foto: Paulo Whitaker/Reuters

Ao que consta, a ira dos bandidos armados tem origem na linha dura implantada pelo secretário de Administração Penitenciária do Estado, Luís Mauro Albuquerque Araújo.

Ele chegou disposto a estabelecer a ordem nas prisões cearenses. Vídeo que corre nas redes mostra a doutrina da qual é adepto.

“Quem manda na cadeia?”, grita o carcereiro para a turba de presos amansados no pátio.

“É o Estado.”

Sim, deveria ser o Estado, desde que esse mesmo Estado não tivesse baixado a guarda e deixado a situação chegar onde chegou em quase todo o País.

Explosivo caseiro foi detonado na base de um viaduto em Fortaleza Foto: REUTERS/Paulo Whitaker

O afrouxamento do aparato estatal, por desídia, omissão ou cumplicidade, ou tudo isso junto, é a grande causa do surgimento dos PCCs e dos CVs da vida que se multiplicaram, saíram de São Paulo e do Rio e se aninharam em outras plagas.

Durante os ataques de maio de 2006, o PCC tomou o controle de 94 presídios em São Paulo. Na foto, Penitenciária de Junqueirópolis. ALEX SILVA/ESTADÃO

O segundo ponto que quero abordar é que a turma do 157 e do 121, a turma do roubo e do assassinato, e também a do tráfico e do furto e de outros delitos, essa gente rotulada ‘criminoso comum’, passou a vida toda atrás das grades ‘assistindo’ ao avanço das organizações criminosas sobre os cofres do Tesouro, a turma do ‘colarinho-branco’.

Pela TV, pelos jornais, pela internet ou por qualquer outro meio, eles ficam sabendo, é óbvio, de tudo o que se passa no poder público e da gatunagem que se promove aqui e ali, licitações fraudulentas, desvios bilionários, propinas a dar com pau, sem nenhum pudor.

O fato é que esse poder paralelo avançou com volúpia sobre as administrações públicas, em todos os níveis, e nas estatais, tanto que perdeu de vez os freios inibitórios e foi deixando rastros, até o estouro da Lava Jato.

Bunker dos R$ 51 milhões atribuídos a Geddel e Lúcio Vieira Lima pela Procuraria-Geral da República Foto: PF

Não se sabe até que ponto esse mau trato à coisa pública funcionou como um ‘incentivo’ para os criminosos comuns, como o mundo forense denomina a turma do 157 e do 121, a turma do ‘sistema’. Mas, certamente, de alguma forma eles ganharam coragem para se organizar e formaram as facções, a partir da constatação de que o ‘colarinho-branco’ deitava e rolava e ninguém cortava suas asas.

Afora o detalhe da lassidão de muitos administradores das prisões e a parceria com carcereiros que abriram caminho de vez para o robustecimento das facções, a entrada fácil dos celulares, drogas e outros itens de consumo interno nos pavilhões.

Então, o negócio foi esse mesmo. Juntou-se, de um lado, a revolta com a vida boa do pessoal do lado de lá, além das muralhas, o pessoal que um dia, enfim!, caiu na malha fina da Lava Jato e outras missões da Polícia Federal e da Procuradoria, e, de outro lado, as facilidades de um modelo anacrônico das prisões.

Mauro Albuquerque, o disciplinador que impôs linha dura nas prisões do Ceará, já declarou publicamente que não reconhece facção porque ‘a lei não reconhece facção’. Muito bom. É o primeiro passo.

Resta, agora, que as outras facções, as que atacam o Tesouro, saiam de cena, de vez.

Afinal, quem manda na cadeia?

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