Quem já se rendeu ao ESG

Quem já se rendeu ao ESG

José Renato Nalini*

14 de julho de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: IARA MORSELLI/ESTADÃO

A se acreditar na divulgação recente, a cultura ESG impregnou o mercado brasileiro. Tornou-se cada dia mais frequente a inserção de páginas inteiras dos jornais físicos, anunciando observância do princípio de atuação conjunta e simultânea das três grandes questões atuais: o meio ambiente, as desigualdades sociais e a urgência de uma governança  corporativa eficiente, a traduzir-se na administração pública por uma gestão inteligente.

Breve retrospecto nessa publicidade, permitirá enxergar inúmeras adesões de empresas conhecidas, que estão disseminando o conceito e, com isso, tentando obter a preferência do consumidor.

Sem pretender exaurir o rol das que já perfilharam essa tendência, pode-se mencionar como exemplo a Hering, que anuncia a roupa para “construir o Novo Mundo”, falando em “básico original sempre em reinvenção”. A camiseta básica agora compensa duas vezes sua própria pegada de carbono, por meio da conservação da Amazônia. E completa: “Com carbono negativo, o impacto é positivo”.

Outra mensagem persuasiva é a da Ambipar: ela joga com a primeira letra do alfabeto: A de atmosfera, de água, de árvores, A de animais, de Amazônia, de Antártida. Acrescenta: A de Ambipar, “que tem tudo o que sua empresa precisa para cuidar do meio ambiente”. A chamada também é eloquente: não existe planeta B; cuide do planeta A.

A KPMG é outra aderente: ESG: “uma jornada de transformação nos negócios”. O banco BV também se converteu. Aduz que entre os pilares da agenda ESG, a governança cumpre um papel fundamental. O banco tem uma estrutura voltada especificamente para a sustentabilidade e o tratamento socioambiental, com áreas dedicadas a esses temas e comitês formados por executivos da companhia. Seus compromissos de sustentabilidade estão no pacto “Por um futuro mais leve” e assume a promessa de 1. Neutralizar o impacto ambiental, efetuando 100% da compensação de CO2 do principal negócio do BV, o financiamento de veículos usados. E também a compensar 100% das emissões diretas de gases do efeito estufa do BV; 2. acelerar a inclusão social, interna e externamente. A meta é atingir 50% dos cargos de liderança ocupados por pessoas que se identifiquem com o gênero feminino. E ainda garantir participação de 35% de negros no quadro de colaboradores do PV; 3. Mobilizar recursos para fomentar negócios sustentáveis, numa ordem de R$ 80 bilhões, só para aqueles que se afinarem com a política ESG.

A Vale, tão presente na mídia, afirma definir ambiciosa meta florestal para a década, com recuperação ação e proteção de 500 mil hectares até 2030. Salienta que projetos-piloto atrelados à nova meta florestal da Vale já recuperaram 1053 hectares de áreas degradadas em 6 estados: Pará, Bahia, São Paulo, Mato Grosso, Rondônia e Minas Gerais. Projetos que envolveram três biomas: Amazônia, Mata Atlântica e Cerrado. Assegura haver investido quase R$ 700 milhões em projetos de pesquisa e proteção na Amazônia legal. Está a caminho da própria neutralidade de carbono, com uso de tecnologias inovadoras que gerem ganho ambiental, no desenvolvimento de processos mais limpos e eficientes em várias áreas. Ainda mantém o ITV, Instituto Tecnológico Vale, com vistas ao desenvolvimento sustentável, um centro de pesquisa multidisciplinar com 35 pesquisadores contratados e 90 bolsistas. Eles pesquisam os meios físicos, biológicos e a socioeconomia nas áreas de estudo.

Também a JBS, líder global no setor de proteína e a segunda maior empresa de alimentos do mundo, adota estratégias de economia circular. Uma das iniciativas é o uso de gordura proveniente de sua cadeia produtiva para a formulação de biodiesel na produção de fertilizantes. Mostra como o óleo de cozinha usado vai parar no tanque dos veículos e o plástico deixa de ir para aterro e é transformado em piso verde.

Um grupo de empresas, encabeçado pelas Casas Bahia, conclama a população a aderir ao ESG, mediante o lema: “ser sustentável é ir além do discurso. E isso, a gente faz todo dia”. Enfatiza suas ações em reciclagem, logística reversa e outras iniciativas como energia solar, eficiência logística, digitalização do crédito, apoio à diversidade até em programa de trainee e trabalho de inclusão digital e financeira.

É uma pequena amostra, que não inclui os três maiores bancos do Brasil, nem o uso da sigla ESG por influenciadores, blogueiros, figuras que querem sempre estar up-to-date e as poucas manifestações análogas por parte do poder público.

Incumbe ao Terceiro Setor desempenhar duas funções: 1. fiscalizar esses compromissos e denunciar eventuais práticas que reproduzam o greenwashing, que não implica apenas em perda de reputação, mas em fracasso de uma cultura que é imprescindível para tentar reverter o nefasto rumo que a sociedade tomou e que poderá levá-la à extinção; 2. Exigir do governo, servo do povo, cumpra a Constituição e a prolífica normatividade e infraconstitucional, para que cesse de imediato o extermínio de todos os biomas esse inicie, também com urgência, o reflorestamento das áreas degradadas. só propaganda e proclamações de fé na agenda ESG são insuficientes para reverter a gravíssima situação do ambiente brasileiro.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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