Quem ganha & quem perde

Quem ganha & quem perde

José Renato Nalini*

19 de fevereiro de 2022 | 12h00

Vista área de trecho da Mata Atlântica desmatada após incêndios. FOTO: TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO

Quem tem juízo sabe que o maior perigo que já rondou a humanidade está muito perto de nós. É o aquecimento global, causado pelas venenosas emissões dos gases causadores do efeito estufa. O Brasil adquiriu um protagonismo vergonhoso no setor, com o desmatamento incentivado e impune que extermina a última grande floresta tropical do planeta, mas também outros biomas.

A nossa Mata Atlântica, na qual vivemos e que já eliminamos quase completamente, em cotejo com o que seria há pouco mais de quinhentos anos, vai sendo consumida aos poucos. O mal avança pelas beiradas. 70% dos alertas de desmatamento ocorrem nas áreas inferiores a três hectares. Isso dificulta a fiscalização, que já é falha e leniente.

O aviso vem do novo sistema de Alerta de Desmatamento – SAD, da Fundação SOS Mata Atlântica. Ele registrou 1.103 alertas de desmatamento, que acabaram com a cobertura vegetal sobre 6.739 hectares. O satélite agora em uso permitiu um controle dez vezes maior sobre as áreas afetadas. O desastre se mostrou muito maior do que as estatísticas divulgam.

A maior causa é a pecuária, responsável por 93,7% da devastação. Realmente, o Brasil assumiu a sua condição de nação do gado. Possui mais cabeças bovinas do que humanas. Ninguém atenta para a produção de gás metano gerada pelo desmatamento e depois intensificada com a digestão e flatulência da criação. Até o esterco bovino produz metano.

Mas não se pode cogitar em falar sobre o assunto. Mera sugestão de um dia sem carne gerou protestos cáusticos. Numa terra em que o armamento é incentivado, é inviável o diálogo. Os irados partem logo para a irracionalidade. Incentivada por quem deveria ser o primeiro a pregar a pacificação, a harmonia e a fraternidade.

Mas o Cerrado também corre riscos. Cientistas da UNESP publicaram estudo na revista PLOS, a demonstrar que a eliminação da cobertura vegetal coincide com o aumento dos casos de dengue. A continuar nesse ritmo, a dengue será, em 2030, o que a Covid foi para nós entre 2020 e 2022. Nem se sabe se ela continuará com outras cepas. Mas concorrerá com a dengue.

No cerrado, só restam 34% da área original. É um bioma onde nascem cursos d’água essenciais para dessedentar milhões de brasileiros. Junto com a mata vai também o líquido. Insuscetível de ser substituído por petróleo ou etanol. Água é vida e falta d’água é morte.

O cerrado também é vítima da cultura do gado. Antigamente, correspondia a 20% do território nacional. Mas a expansão da pecuária foi sacrificando espaços e hoje ele está ameaçado de deixar de existir. Depois da Mata Atlântica, é o espaço ecológico mais maltratado e é considerado um dos vinte e cinco ecossistemas do planeta sob alto e consistente risco de extinção. Cientistas afirmam que, diante do escancarado estímulo à ocupação de seu território, até 2030 não existirá mais o Cerrado brasileiro.

Mas isso não é tudo. Está em vias de ser editado um decreto que flexibiliza, ainda mais, o licenciamento ambiental. Não era brincadeira o “soltar a boiada” do ministro contra o ambiente. Portos, hidrovias, não precisarão mais do aval do Ibama. Órgão também em vias de extinção, assim como os demais biomas. Exploração de gás não convencional, como perfuração de poços, fraturamento hidráulico e sistemas de produção e escoamento ficarão dispensados de manifestação do Ibama.

Também a ampliação de estradas federais fica a critério do município ou do Estado em que situadas. É evidente que se acelera o ritmo das medidas liberatórias para o ecocídio. A natureza perdeu de lavada no atual governo. Avanço do desmatamento chegou a um nível surreal, além do alarmante. Inacreditável que, diante da comoção universal quanto às mudanças climáticas, o Brasil continue na contramão da sensatez e conviva com uma média anual de perda da floresta amazônica 56,6% maior em relação ao período anterior.

Isso foi anunciado por nota técnica do Ipam – Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia. Quase tudo em terras públicas. Ou seja: é o povo brasileiro que vê desaparecer, sob fogo e fumaça, o seu maior patrimônio. O exemplo “de cima” é rigorosamente seguido pelos “de baixo”: segundo o Greenpeace, o prefeito de São Félix do Xingu ocupa terras públicas com desmatamento ilegal e criação de gado. Não é diferente em Rondônia e nos demais Estados.

Mas em breve tudo estará envenenado, se o Senado aprovar o PL do veneno, que deixa entrar no Brasil herbicidas cancerígenos, sem qualquer oposição de organismos gradualmente esvaziados e neutralizados.

Quem ganha com isso? É calculável o número dos que perdem?

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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