Quem está disposto a investir no tratamento?

Quem está disposto a investir no tratamento?

Luciana Asper y Valdés*

24 de abril de 2021 | 06h15

Luciana Asper y Valdés. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Um mínimo feixe de luz jogado em direção ao espetáculo de aniquilação do combate à corrupcão nos revela um retrato de perfeita angústia, um enredo da mais completa usurpação das vocações de servir ao público até a mais deteriorada visão de miséria, fome e falta de dignidade humana. Impossível não se perguntar, perplexo, onde iremos parar? O que mais necessitamos para nos tornarmos intransigentes com a cultura da impunidade e da corrupção, como preconiza os principais tratados internacionais sobre o tema? O que mais precisamos para corrermos em direção às transformações pessoais que nos farão ser um povo de comportamento íntegro, comprometido com deveres e de fruição de direitos e fim de transformarmos nossas instituições em reflexos disso?

Oscilamos entre a indignação e o fatalismo, entre espasmos de esperança e total apatia. Semeadura instável, insegurança jurídica absoluta e um BRASIL adoecido, agonizando e insistimos teimosamente em prolongar a doença, testando sua resistência.

O Sr. BRASIL foi acometido por uma doença silenciosa e cruel, daquelas que deterioram suas entranhas, sua imunidade, aniquilam o sistema de defesa e deixam suas células apodrecidas. Acostumou-se tanto com os saques, roubos, desvios, inversão, usurpação e distribuição dos seus bens para os mais ardilosos predadores, como também com a falta de fruição de serviços, direitos e dignidade, que segue em modo da mais MEDÍOCRE
SOBREVIVÊNCIA e adia o sonho de ser e usufruir de seus potenciais, riquezas, inteligências, tecnologias e inovações.

Seus filhos, saqueadores, tentam esconder os mais escancarados diagnósticos, ignoram cada uma das veias entupidas, isquemias cerebrais, órgãos desfalecendo e corações empedrados. Desconstituem os diagnósticos e impedem os possíveis tratamentos apresentados pelos médicos. O paciente, por sua vez, segue, caminhando em direção à morte, sem saber ao certo como pode lutar com tanto mal consumindo suas vísceras. Ao longo da história, novos médicos são consultados, acompanham os sintomas do Sr. BRASIL e, quando surge uma brecha, uma oportunidade qualquer para o Estado de Direito, a Ordem Jurídica, o império da Lei e da Justiça atuarem, apresentam seus diagnósticos e revelam, com uma clareza solar, o que se passa no corpo do Sr. BRASIL, indicam os tratamentos urgentes e ressaltam: não há como sobreviver sem eles.

Quando os exames de sangue são apresentados, o primogênito alega que aquele exame não pode ser usado para um diagnóstico, porque houve uma inversão na ordem de acesso aos exames. O laudo da biópsia é jogado no lixo, porque o laboratório é de Curitiba e o paciente deveria ter feitos os exames em Brasília. Quando o neurologista apresenta a tomografia mostrando cada uma das áreas afetadas pelo derrame, o tratamento indicado é desprezado porque aquele diagnóstico seria totalmente abusivo, uma vez que o neurologista conversou com o cirurgião e isso pode ter contaminado a percepção dele em relação às manchas reveladas na tomografia de última geração.

O resultado da pulsão do tumor também é desprezado porque, embora o oncologista tenha apresentado todo o diagnóstico da extensão do tumor, entendeu-se que apenas o endocrinologista deveria ter analisado tais resultados e, por isso, decidem que o paciente, Sr BRASIL, precisa fazer novo processo de pulsão e diagnóstico. O tratamento que havia sido indicado pelo oncologista como urgente e certeiro, é adiado mais uma vez.

E assim, a doença do SR. BRASIL começa com uma carta de Pero Vaz a Dom Manuel, segue com os saques de minérios e pau-brasil, com o clientelismo e patrimonialismo, e sem os remédios, sem o tratamento, sem antídoto, sem freios, cresce e se alastra pelo corpo, vorazmente. A cada diagnóstico, os resultados são infinitamente mais graves. As células malignas, cancerígenas, percebendo-se livres de qualquer tratamento moral, legal, administrativo ou judicial, se animam, se multiplicam e percorrem todos os órgãos, livremente, com apetite cada vez mais intenso. Nem mesmo os médicos internacionais, como OCDE, convencem aos filhos saqueadores do Sr. BRASIL que o paciente está caminhando para a falência total de seus órgãos.

Fosse o Sr. BRASIL nosso amado pai, até quando ficaríamos culpando o laboratório por ter diagnosticado o que está dentro do sangue, do corpo? Até onde insistiríamos destruir a reputação do médico especialista que assinou o laudo “tão duro e inconveniente”? Até quando puniríamos os médicos, negaríamos os remédios, as equipes e os equipamentos? Onde nos levará a veemente insistência nos caminhos do desprezo do diagnóstico e recusa do tratamento? A doença, afinal, está no diagnóstico do médico ou no corpo do paciente? Há uma convicção equivocada de que somos todos tolos. Não é o caso. O Sr. BRASIL tem outros filhos que sabem que a aplicação, ainda que “incômoda” dos diversos tratamentos existentes contra a corrupção (punição, controles, detecção e educação intencional em valores e virtudes) é o único caminho que poderá livrar o SR. BRASIL da morte: econômica, comercial, financeira, do bem-estar e trilhar a esperança para a dignidade de um povo que tem potencial para constituir a maior e mais próspera de todas as nações!

*Luciana Asper y Valdés, promotora de Justiça no Distrito Federal e economista

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