Quem é Taiguara, o amigo de Lulinha com atuação em obras milionárias financiadas pelo BNDES

Quem é Taiguara, o amigo de Lulinha com atuação em obras milionárias financiadas pelo BNDES

Empresário sócio da Exergia Projetos, em Santos, litoral de São Paulo, sobrinho da ex-mulher de Lula, foi conduzido coercitivamente pela Operação Janus, que investiga tráfico de influência internacional supostamente praticado pelo ex-presidente

Redação

20 de maio de 2016 | 16h41

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Taiguara Rodrigues, em depoimento à CPI do BNDES. Foto: Reprodução

Alvo de mandado de condução coercitiva da Operação Janus, da Polícia Federal, nesta sexta-feira, 20, o empresário Taiguara Rodrigues dos Santos ostenta em seu currículo atuação em obras de empreiteiras financiadas pelo BNDES no exterior na esteira da política de aproximação com países africanos durante os dois mandatos do ex-presidente Lula (2003/2010).

Taiguara é filho de Jacinto Ribeiro dos Santos, o Lambari, amigo de Lula na juventude e irmão da primeira mulher do ex-presidente, já falecida. Morador de Santos, no litoral paulista, ele atuava no ramo de fechamento de varandas e viajou para Angola para começar seus negócios naquele país em 2007.

Em 2009 ele abriu duas empresas de engenharia e, em questão de meses, fechou os primeiros negócios em Angola, segundo dados publicados pela revista Veja.

Taiguara é amigo de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho mais velho do ex-presidente.

Foi na obra de ampliação e modernização da hidrelétrica de Cambambe, em Angola, contudo, que o empresário firmou um contrato milionário com a Odebrecht, em 2012, e que está na mira da Polícia Federal. Sua empresa Exergia fechou um contrato de prestação de serviços para a empreiteira naquele ano no valor de R$ 3,5 milhões.

A Odebrecht é um dos alvos principais da Operação Lava Jato, que desmontou esquema de corrupção e propinas na Petrobrás. O empresário Marcelo Bahia Odebrecht, preso desde 19 de junho de 2015, foi condenado a 19 anos e quatro meses de prisão pelo juiz federal Sérgio Moro. A empreiteira negocia acordo de leniência com o Ministério Público Federal. O próprio executivo negocia delação premiada.

[veja_tambem]

O acerto entre a Odebrecht e a Exergia foi formalizado no mesmo ano em que a empreiteira conseguiu no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) um financiamento para realizar esse projeto na África. O episódio levou o Ministério Público a abrir inquérito para investigar a suspeita de tráfico de influência de Lula em benefício da empreiteira.

Lula já prestou depoimento sobre o caso. Segundo as investigações da Polícia Federal, a obra recebeu um aporte de US$ 464 milhões do banco público.

Em depoimento à CPI do BNDES no ano passado, o empresário admitiu os contratos com a empreiteira. Na ocasião, o executivo falou por quatro horas à comissão, e disse que o valor é referente a serviços de sondagem, avaliação da topografia e gerenciamento de obras prestados pela empresa. Segundo ele, todos os contratos foram obtidos por meio de licitações dentro da empreiteira.

O REGISTRO DA EXERGIA NA JUNTA COMERCIAL:

exergia

Em seu relato à CPI do BNDES, Taiguara também confirmou ser amigo do filho do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, mas negou que o ex-presidente ou seu filho tenham exercido tráfico de influência para que sua companhia conseguisse contratos junto à empreiteira.

O executivo disse ter contato com Lula, mas não se considerar amigo do petista, embora seu pai, que foi cunhado do ex-presidente, tenha sido ‘muito amigo’ do petista. “Lula foi casado com minha tia, irmã do meu pai”, afirmou, negando que isso signifique que ele seja sobrinho do ex-presidente.

Em relação a Angola, ele disse que as oportunidades de trabalho naquele país apareceram “com o passar dos anos”. O executivo contou que, em 2007, foi convidado pelo empresário paulista Nivaldo Moreira, da companhia Morelate, para atuar no fornecimento de peças para ônibus e caminhões no país africano juntamente com o empresário português João Germano.

De acordo com o Taiguara, a Exergia foi aberta em 2009, ele detinha 49% da sociedade, sendo o restante da participação do empresário português. Questionado por integrantes da CPI como o grupo português topou sociedade com ele, sem que ele tenha entrado com qualquer capital inicial, o executivo afirmou que foi escolhido pela sua habilidade como vendedor, uma vez que seu principal papel na companhia seria “vender” a empresa. Ele disse atuar como vendedor desde os 14 anos. Parlamentares de oposição se mostraram irritados com a resposta do empresário, que confirmou ser sócio de outras três empresas, as quais, segundo ele, não atuaram em Angola.

O empresário disse ainda que a Exergia é uma empresa pequena. Segundo ele, de 2011 a 2015, o faturamento da companhia não chegou a R$ 2 milhões por ano. “Infelizmente não sou um grande empresário”, disse, na ocasião. Taiguara confirmou que comprou um apartamento duplex com financiamento da Caixa Econômica Federal e um veículo de luxo da marca Land Rover. Ele alegou, contudo, que, desde meados do ano passado, vive em situação econômica difícil, tendo “muitas dívidas”. De acordo com o empresário, seu apartamento corre o risco de ir a leilão “A Exergia Brasil está há muito tempo sem contratos”, queixou-se.

Em seu depoimento, o executivo também confirmou que Exergia Brasil firmou outros contratos com a Odebrecht, empreiteira envolvida nas investigações da Operação Lava Jato: um deles no valor de US$ 280 mil e outro de US$ 750 mil – este para reformar uma casa em Angola. O empresário negou, contudo, ter fechado contrato de US$ 1 milhão para construir uma fazenda hidropônica no país africano. Segundo ele, o projeto não foi para frente porque ele não recebeu o dinheiro pelo serviço. No depoimento, o executivo disse ainda que não sabia que a obra da hidrelétrica de Cambambe possuía financiamento do BNDES.

Na ocasião, Taiguara aceitou a quebra dos sigilos fiscal, telefônico e bancário de sua empresa, solicitada pelo deputado Betinho Gomes (PSDB-PE). Na época, o empresário comentou ainda que não tinha recebido nenhuma notificação ou intimação do Ministério Público no âmbito de investigação a seu respeito.

O executivo disse estar sabendo apenas pela imprensa que estava sendo investigado pelo Ministério Público. “Está me incomodando aqui o menosprezo à minha pessoa o tempo todo”, disse.

COM A PALAVRA, O ADVOGADO FÁBIO SOUZA, QUE REPRESENTA AS EMPRESAS DE TAIGUARA:

Responsável pelas ações judiciais envolvendo as empresas de Taiguara, o advogado Fabio Souza afirmou nesta sexta que as buscas da Polícia Federal na sede da Exergia foi legítima e autorizada pela Justiça Federal. Ele não acompanhou o depoimento do empresário à PF hoje, mas reiterou os argumentos apresentados por Taiguara à CPI do BNDES na qual ele negou que sua empresa foi utilizada para a lavagem de dinheiro.

COM A PALAVRA, A DEFESA DO EX-PRESIDENTE LULA

É reprovável que o Ministério Público Federal do Distrito Federal (MPF/DF) e a Polícia Federal (PF) tenham utilizado o nome do ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva para divulgar, nesta data (20/05), medidas de investigação autorizadas pela Justiça.

Tais medidas não envolvem Lula e seu nome foi indevidamente mencionado. Prova disso é que o MPF e a PF afirmam, na mesma nota que faz referência ao nome do ex-Presidente, que “a investigação é sigilosa” e os nomes efetivamente envolvidos “não serão divulgados” — não havendo, diante disso, qualquer explicação para a menção ao nome de Lula.

Lula já esclareceu nos autos do Procedimento Investigatório Criminal (PIC) nº 1.16.000.000991/2015-8, por meio de seus advogados, que depois que deixou a Presidência da República passou a realizar palestras, a exemplo de outras pessoas que já ocuparam o cargo no Brasil e no exterior — e é remunerado para essa atividade. Não presta consultoria e tampouco faz qualquer intermediação de negócios.

Lula também prestou depoimento em 15/10/2015 ao Procurador da República Ivan Cláudio Marx, relativamente a esse PIC, e esclareceu, dentre outras coisas, que (1) “nunca fez lobby e que respeita os profissionais de carreira que trabalham no BNDES”; (2) “Taiguara é filho do irmão de sua ex-esposa”; (3) “nunca apresentou Taiguara a nenhum dono de empresa (Odebrecht, etc)”; (4) “quando foi fazer palestra em Angola, Taiguara já estava naquele país trabalhando com uma empresa portuguesa”.

Também no citado PIC, Lula sofre devassa em sua vida profissional e pessoal há mais de (um) ano. Seus advogados já levaram ao Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) diversas irregularidades praticadas na condução do procedimento desde o seu nascedouro, a começar pelo fato de ter sido instaurado por um Procurador da República que mantinha em suas redes sociais diversas publicações revelando ódio ao governo de Lula e de sua sucessora, Dilma Rousseff, e também ao partido político ao qual estão vinculados. O procedimento já passou pelas mãos de mais de 10 (dez) Procuradores da República e sofreu sucessivas redistribuições, capitaneadas por pessoa já demitida do Ministério Público a bem do serviço público, com a clara intenção de escolher a autoridade que iria dirigir os seus rumos.

Todo esse quadro revela mais uma tentativa de alguns agentes públicos de macular a honra e a reputação do ex-Presidente, além de utilizar o seu nome para dar uma publicidade indevida a uma operação policial sigilosa e da qual ele não é parte. Essa situação afronta garantias constitucionais, como a dignidade da pessoa humana e o direito à integridade moral, além de violar Tratados Internacionais dos quais o Brasil é signatário, que igualmente asseguram a proteção ao nome, à honra e à presunção de inocência, inclusive como regra de tratamento a impedir a formulação de juízos de valor negativos, sem a existência de culpabilidade legalmente estabelecida.

Roberto Teixeira e Cristiano Zanin Martins