‘Quem conta uma mentira passa a vida inteira mentindo’, diz Lula sobre acusação

Ao negar ao juiz Sérgio Moro ter pedido para que a OAS instalasse um elevador no tríplex do Guarujá (SP), que o Ministério Público Federal diz ser do ex-presidente e ocultar propinas, ele afirma que episódio é 'anomalia' da denúncia

Julia Affonso, Ricardo Brandt, Fausto Macedo, Luiz Vassallo e Bruno Ribeiro

10 de maio de 2017 | 21h25

 

Lula. Foto: Reprodução

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou ao juiz federal Sérgio, nesta quarta-feira, 10, que alguns pontos da acusação do Ministério Público Federal contra ele, no caso do tríplex do Guarujá (SP), que ocultaria propinas da OAS, confirma o ditado de que “quem conta uma mentira passa a vida inteira mentindo para justificar a primeira mentira”.

 

Lula falava sobre a instalação de um elevador no tríplex, que segundo a acusação da força-tarefa da Lava Jato faz parte da “benesses” dadas ao ex-presidente pela OAS, como propina no esquema de corrupção na Petrobrás. O petista é acusado de receber R$ 3,7 milhões, ocultos no imóvel litorâneo e no armazenamento de bens pessoais, pagos pela empreiteira.

Segundo Lula, o caso do elevador seria uma “anomalia da denúncia do Ministério Público Federal”, contra ele

O ex-presidente mostrou a foto de uma “escada caracol”, impressa em uma folha de papel, ao juiz da Lava Jato. Segundo ele, é a escada do apartamento onde mora há 18 anos, em São Bernardo do Campo.

“A Dona Marisa, há seis anos tomava remédio todo santo dia para dor na cartilagem. Será que alguém de bom senso nesse país eu ia pedir um elevador em um apartamento que não era meu e deixar de pedir um no prédio que a Dona Marisa morava. É no mínimo doutor cumprir o ditado de que quem conta uma mentira passa a vida inteira mentindo para justificar a primeira mentira.”

“O senhor está dizendo que não solicitou a colocação do elevador nesse triplex?”, questionou Moro.

“Absolutamente.”

Pela primeira vez frente a frente com Moro, como réu da Lava Jato, em Curitiba, disse que não é dono do apartamento, chegou a visitar uma vez o imóvel, mas que era a ex-primeira-dama Dona Marisa Letícia, que tinha interesse no negócio.

“A verdade e o seguinte: não solicitei, não recebi, não paguei e não tenho nenhum tríplex”, afirmou Lula.

O interrogatório durou mais de 5 horas e parou Curitiba, no Dia D da Lava Jato.

“Foi isso. E repeti o que falei aqui três vezes Nunca solicitei e nunca recebi apartamento. Imagino que o Ministério Público vai na hora que for falar apresentar as provas. Eles devem ter pelo menos algum documento que prove o direito jurídico de propriedade para dizer que é meu o apartamento.”

A denúncia do Ministério Público Federal sustenta que Lula recebeu R$ 3,7 milhões em benefício próprio – de um valor de R$ 87 milhões de corrupção – da empreiteira OAS, entre 2006 e 2012. As acusações contra Lula são relativas ao recebimento de vantagens ilícitas da empreiteira por meio do triplex 164-A no Edifício Solaris, no Guarujá (SP), e ao armazenamento de bens do acervo presidencial, mantido pela Granero de 2011 a 2016. O petista é acusado de lavagem de dinheiro e corrupção.

Moro aceitou a denúncia em 20 de setembro de 2016.

Fachada do Condomínio Solaris, no Guarujá. Foto: MOTTA JR./FUTURA PRESS

Triplex. O Edifício Solaris era da Cooperativa Habitacional dos Bancários (Bancoop), a cooperativa fundada nos anos 1990 por um núcleo do PT. Em dificuldade financeira, a Bancoop repassou para a OAS empreendimentos inacabados, o que provocou a revolta de milhares de cooperados. O ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto foi presidente da Bancoop.

A ex-primeira-dama Marisa Letícia (morta em 2017) assinou Termo de Adesão e Compromisso de Participação com a Bancoop e adquiriu ‘uma cota-parte para a implantação do empreendimento então denominado Mar Cantábrico’, atual Solaris, em abril de 2005.

Em 2009, a Bancoop repassou o empreendimento à OAS e deu duas opções aos cooperados: solicitar a devolução dos recursos financeiros integralizados no empreendimento ou adquirir uma unidade da OAS, por um valor pré-estabelecido, utilizando, como parte do pagamento, o valor já pago à Cooperativa.

Segundo a defesa de Lula, a ex-primeira-dama não exerceu a opção de compra após a OAS assumir o imóvel. Em 2015, Marisa Letícia pediu a restituição dos valores colocados no empreendimento.

Bens. A Lava Jato afirma que a OAS pagou durante cinco anos pelo aluguel de dez guarda-móveis usados para armazenar parte da mudança do ex-presidente Lula quando o petista deixou o Palácio do Planalto no segundo mandato. A empreiteira desembolsou entre janeiro de 2011 a janeiro de 2016, R$ 1,3 milhão pelos contêineres, ao custo mensal de R$ 22.536,84 cada.

Toda negociação com a transportadora Granero teria sido intermediada pelo presidente do Instituto Lula, Paulo Okamotto, que indicou a OAS como pagante com o argumento de que a empreiteira é uma “apoiadora do Instituto Lula.” Para investigadores da Lava Jato, os fatos demonstram “fortes indícios de pagamentos dissimulados” pela OAS em favor de Lula. Isso porque o contrato se destinava a “armazenagem de materiais de escritório e mobiliário corporativo de propriedade da construtora OAS Ltda”, mas na verdade os guarda-móveis atendiam a Lula.

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