Quem colocou os jabutis nos postes ?

Quem colocou os jabutis nos postes ?

Jorge Pontes*

15 Outubro 2015 | 10h00

Foto: Filipe Araujo/Estadão

Foto: Filipe Araujo/Estadão

Tudo que estamos passando – a crise e essa encruzilhada política – deve-se em grande parte aos nossos próprios atos como cidadãos. De quatro em quatro anos temos um momento importantíssimo de PODER e CIDADANIA. Isso ocorre por alguns segundos, diante das urnas, quando temos condições de apontar aqueles que irão nos representar.

Sempre fui eleitor no Rio, apesar de ter vivido mais de 20 anos fora da cidade. Aqui corre a piada de que o cidadão carioca, em dia de eleições, enfrenta tão somente o seguinte dilema: votar ANTES ou DEPOIS da praia? Essa má vontade, essa falta de comprometimento do eleitor em buscar com seriedade a sua representatividade, essa insensibilidade com o futuro, como se aquela escolha não tivesse consequências, produz esse tipo de situação que estamos enfrentando.

Temos uma presidente sem credibilidade e sem autoridade para governar e temos um presidente da Câmara dos Deputados ainda em pior situação. Sem falar nos ministros de estado que estão sendo investigados e, também, no presidente do Senado. Temos um ex-presidente sob suspeitas que, aparentemente, continua mandando no país. Não é possível um enredo com tantos vilões. Quem seria confiável nesse imbróglio?

Dezenas de milhões de brasileiros desejam punição, desejam impeachment, desejam mudança e, sobretudo, justiça. Também aspiram o defenestramento, a demissão e o encarceramento dessa trupe de corruptos e incompetentes que permitiu a montagem e operação do Petrolão. Mas nada consegue ir adiante, nada avança, pois temos o “rôto” encarregado de iniciar o processo de afastamento do “esfarrapado”.

Não há gente insuspeita em posições chaves. Não há em quem nos agarrarmos. A sensação de abandono e de frustração é imensa. Só se ouve falar em desistir do Brasil. O que está ocorrendo é um escárnio. Estão esbofeteando o povo diariamente. Não há mais pudor.

Contudo, temos que assumir que essa conta altíssima, que hoje nos apresentam, corresponde exatamente àqueles 30 segundos que passamos a sós nas urnas. Tudo nasceu ali, ou melhor, tudo poderia ter sido evitado ali. Nunca tivemos tão clara essa relação de causa-consequência dos nossos atos como eleitores.

Esses políticos que hoje vendem proteção e blindagem em troca de favores e entregam nossos ministérios em troca de apoio, não foram sozinhos para as suas posições, não se “auto-empoderaram”. São como jabutis no alto dos postes. Alguém os colocou lá. E haja jabuti!

O destino da nação está sendo obscenamente mercadejado, trocado por silêncios escabrosos. Fazem escambo com a própria moral. Tudo isso a céu aberto, publicado em todos os jornais do país.

Há provas materiais contra dezenas de políticos envolvidos nos esquemas, que invariavelmente seguem em seus cargos, recebendo salários pagos pelos contribuintes. Negociam saídas e escapadas. É como uma guerra de bugios ocorrendo nas copas das árvores.

Por oportuno, infelizmente cada um de nós tem seu quinhão de culpa sobre o atual cenário. É instrumental apontar para isso, mostrar essa co-responsabilidade e iniciar um movimento de GRANDE RENOVAÇÃO do Congresso Nacional.

Não podemos mais votar em ninguém que, diplomado pela vontade popular, adota reprováveis condutas comissivas por omissão. Hoje basta o parlamentar estar respirando, sentado em seu assento no Congresso Nacional, para se enquadrar como cúmplice de tudo. Quem não esbravejar na tribuna já merece o inferno. Há em curso o estupro da pátria a luz do dia e reações indignadas se impõem.

Por fim, esses que se calaram não merecem ser reeleitos. Quem não for limpo não pode ser representante do povo, ou assumiremos que o povo é igualmente sujo, o que definitivamente não é verdade.

Jorge Pontes é delegado da Polícia Federal e foi chefe da Interpol no Brasil

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