Quem casa já não quer casa

Quem casa já não quer casa

José Renato Nalini*

17 de janeiro de 2021 | 11h00

José Renato Nalini. FOTO: IARA MORSELLI/ESTADÃO

O velho ditado “quem casa quer casa” já não constitui verdade absoluta. Embora ainda restrita a alguns nichos, há gerações que preferem curtir a possível liberdade, que fica reduzida enquanto se criam fortes amarras.

O sonho da “casa própria” pode se converter num peso insuportável. Por enquanto, ainda há milhões de brasileiros sem moradia. Ter onde morar é um direito fundamental explicitado na Constituição Cidadã. Mas a situação de pobreza é fator impeditivo da fruição desse bem da vida.

A chamada “classe média”, uma ficção sociológica tendente a desaparecer com o abismo criado entre os que têm muito e os que nada têm, sabem o que significa adentrar ao terreno pantanoso dos planos governamentais destinados a promover a habitação.

O financiamento é algo surreal. Paga-se durante anos, mensalmente, religiosamente, onerando-se em parcela substancial o orçamento doméstico e quando se verifica, está-se a dever muito mais do que o imóvel custou. Tudo parece conspirar contra o pobre sonhador. É por isso que os jovens mais antenados com as tendências universais, prefere optar por soluções insólitas.

Entrevistei para a TV Uniregistral, o órgão de comunicação da Uniregistral, a Universidade Corporativa mantida pela ARISP, a Associação dos Registradores de Imóveis de São Paulo, o jovem empreendedor Alexandre Frankel, o CEO da Vitacon e Housi. Isso foi antes da pandemia e gostaria de saber se esse trauma produziu algum efeito transformador em sua concepção do que será a realidade habitacional do amanhã.

Mas ele acaba de lançar o livro “Como Viver em um Mundo Sem Casa”, no qual alguns pensadores sustentam que já não é necessário se sacrificar para morar bem. A contemporaneidade descobriu o Uber, que faz com que jovens não tenham a obsessão do carro, o que era a norma há algumas décadas. Os jovens sonhavam com os 18 anos para a obtenção da CNH. O airbnb existe desde 2008 e permite que imóveis sejam utilizados por temporadas, sem a necessidade de um contrato de aluguel duradouro e propiciando enorme variedade de ofertas.

Aquilo que muito proprietário à antiga já percebeu, as novas gerações tratam como fato consumado. Ou seja: possuir um apartamento ou casa na praia é fonte perene de dispêndio e de preocupação. Enquanto que a possibilidade de usufruir de algo que não é seu e não trás o desconforto para o proprietário, foi disseminada e mostrou-se exitosa.

No livro de Alexandre Frankel, um dos capítulos se chama “Do sonho da casa própria ao nomadismo digital” e é escrito por Gesner Oliveira, professor da FGV e fundador da GO Associados. Ele observa a migração do “ter” ou “comprar”, para o “usar”. Mudança de paradigma econômico a merecer observação e análise, para permitir conclusão de definitividade.

Livrar-se de condomínio, de IPTU, de constante necessidade de manutenção – ora são os aparelhos eletrônicos, ora os eletrodomésticos, ora os problemas hidráulicos, ora o cansaço do material – é um atrativo para a juventude. Ela quer descompromisso. Não ter a sensação de aprisionamento que uma casa produz.

Para Gesner de Oliveira, aquilo que aconteceu com o carro, que já não é mais sinal de status, mas fonte de preocupação, acontecerá com a habitação. Para ele, a tendência é a aceitação da moradia como fluxo de serviços. A mocidade adere logo porque é pragmática e não preconceituosa. E também porque é muito menos dispendioso o coliving e o multifamily property. Está comprovado por levantamento do IBGE, que o orçamento familiar dispende mensalmente 17% com alimentação e o custo com habitação corresponde a 36,6%, ou mais do que o dobro.

O trabalho à distância veio para ficar e mostrou-se compatível com notável incremento em escala. Mas para ser eficiente, há necessidade de equipamentos potentes e modernos. Se isso se fizer em comunidade, haverá ganho enorme, a representar economia para quem se propõe levar uma vida com desapego material. O dinheiro economizado com carro, garagem, oficina, condomínio, IPTU e outros gastos, será destinado ao lazer. Viagens, diversões, entretenimento, sem a dor-de-cabeça que em regra acomete um proprietário e o faz pensar se vale a pena privar-se de tanto apenas para ser “dono” de sua habitação.

Alexandre Frankel, jovem dinâmico e talentoso, tem exitoso pioneirismo em empreendimentos que propõem uma nova filosofia de trabalho e moradia. Talvez a estupefação trazida pela Covid19 tenha ocasionado revisão de algumas propostas e surgimento de novas opções. Mas que o mundo mudou, isso é inegável.

Tomara que o planeta, após a praga, aprenda a se desapegar da matéria e a se impregnar de um sentido de essencialidade: valores, sentimentos, espiritualidade, menos posse, domínio e exclusão.

Sentir-se bem, na convicção de pertencimento a uma espécie racional, de quem se espera racionalidade aliada à virtude, não depende exclusivamente de patrimônio imobiliário. Não nos esqueçamos de que o direito à propriedade se submete à sua função social, conceito hoje inclusivo da sustentabilidade ambiental.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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