Quem acredita no Bem Comum?

Aureo Lopes*

26 Novembro 2018 | 11h28

A pergunta pode parecer desnecessária, mas não é. Algumas pessoas, desanimadas por natureza, ou calejadas pelo que há de ruim em nossa sociedade, afirmam que o melhor que podemos fazer é “cada um cuidar do seu”. Outras ainda acreditam, de forma mais acanhada ou mais convicta, que podemos ir além do individualismo se quisermos uma sociedade melhor.

Este texto foi escrito para quem, de alguma forma, ainda acredita. Nem por isso estamos aqui para “dourar a pílula”. A perspectiva social da qual partimos é algo como a realidade revelada pela “pílula vermelha” que oferecem a Neo no filme Matrix. Ou seja, em vez de uma sociedade ordenada, controlada e completa, tratamos de um espaço público conflituoso, incontrolável e em constante mudança. É fora da Matrix, e não dentro, que devemos procurar o Bem Comum. Essa é a trajetória coletiva para a qual o livro “A Jornada no Emaranhado do Bem Comum” (EBC) pretende estimular e contribuir.

No início da jornada, contudo, alguns concidadãos ficarão para trás (esperamos reencontrá-los ao longo do percurso!). Por isso, se no início do texto perdemos os céticos incorrigíveis, agora nos despedimos dos imediatistas e preguiçosos. Afinal, a jornada proposta, não é fácil nem rápida, e mais se parece com o desbravar de uma selva do que com o caminho tranquilo de quem digita o endereço desejado no Waze e depois pode relaxar. Na jornada em busca do Bem Comum, não há nada parecido com um aplicativo de navegação automática que nos guie na convivência pública.

Dentre os fragmentos desse Emaranhado estão as necessidades humanas que se materializam nas Cidades (inclui mobilidade e habitação), Diferenças (inclui diversidades étnicas e etárias), Economia (inclui trabalho, tecnologia e consumo), Educação (inclui cultura e ensino), Funções Públicas (inclui os serviços públicos), Meio Ambiente, Saúde e Segurança.

Além das necessidades, são também elementos do Bem Comum: a) os Valores comuns que orientam a convivência, b) os Problemas públicos que decorrem da insatisfação das necessidades, c) os Processos que usamos para tratar dos problemas, d) os Impactos Sociais que causamos com nossa ação, e) o Conhecimento, disciplinar ou não, que utilizamos como “mapas” que retratam “a realidade” do espaço público, f) os Agentes, indivíduos e organizações, que atuam na sociedade, e g) o Contexto – o mundo da vida – no qual convivemos.

Na dimensão teórica, portanto, cada um dos elementos do emaranhado se desdobra em muitos outros. E na prática se combinam de forma imprevisível. Somados, teoria e prática deságuam na “vida como ela é”, infinitamente mais complexa do que a retratamos em nossas abstrações.

Nesse incontrolável emaranhado social em que vivemos – assim percebido por aqueles que “tomaram a pílula vermelha” e reconhecem os limites do conhecimento no papel de ordenar e prever o mundo da vida – o que mais nos faz falta são bússolas, ou seja, valores, que nos orientem no constante ajuste da nossa compreensão e comportamento, para que possamos nos aproximar simultaneamente do Bem Próprio de cada um e do Bem Comum de todos.

A teoria do Bem Comum não é um manual que prescreve o que se deve fazer, mas um inventário de instrumentos conceituais aplicáveis, de forma transversal a qualquer tema público. Nele se apresentam ferramentas úteis para a construção colaborativa de soluções para problemas públicos. As ferramentas contam, mas, ao final, o que determina o resultado são as habilidades de quem as utiliza.

Para se orientar no labirinto do bem comum, as bússolas que se sugerem são os Valores Comuns. O primeiro deles, pragmático, é a Satisfação das Necessidades. O segundo, é o Acesso, equânime, a informações, espaços e serviços públicos. O terceiro é o Pertencimento, que nos leva a buscar a inclusão de tudo o que se apresenta na convivência social, por mais que nos desagrade, pois “estamos todos no mesmo barco”, e aceitar a ideia de que “alguém pode ser jogado no mar” (nossa compulsão pela eliminação de problemas) é aceitar a ideia de que esse alguém pode ser você.

O quarto valor é a Diversidade, que representa a individualidade, a liberdade, a alteridade. O quinto valor é a Convergência, que ajuda na interação entre os diferentes, cuja liberdade é limitada pelo contexto ao qual pertencem. O sexto valor é a Continuidade, que nos remete, ao mesmo tempo, a respeitar o passado, reconhecer a liberdade no presente, e a buscar a sustentabilidade de nosso futuro. Por fim, temos o Equilíbrio Dinâmico em Conjunto, de todos os elementos, teóricos ou práticos, que formam o Emaranhado do Bem Comum.

Enquanto não aprendemos a fazer bom uso das bússolas do Bem Comum, a travessia do Emaranhado é tão difícil quanto abrir caminho numa mata fechada com o uso de um cortador de unha. Não é todo mundo que está disposto. De qualquer modo, a escolha renova-se a cada dia: “pílula azul” ou “pílula vermelha”? Fazer tudo igual (e esperar os mesmos resultados) ou aprender a fazer diferente?

*Aureo Marcus Makiyama Lopes é procurador da República atuando há mais de 12 anos na região de Campinas/SP, mestre em Filosofia do Direito, escritor, palestrante, professor, organizador de Redes de colaboração para o Bem Comum e mediador em Grupos de Prática voltados a temas públicos como Saúde, Educação e Segurança Pública/Sistema Prisional.

Mais conteúdo sobre:

Artigo