Que venha um novo mundo

Que venha um novo mundo

José Renato Nalini*

15 de outubro de 2020 | 07h00

José Renato Nalini. FOTO: FELIPE RAU/ESTADÃO

No livro “O fim do milênio”, Manuel Castells anunciou a gênese de um novo mundo: culminância histórica de três processos independentes: “revolução da tecnologia da informação, crise econômica do capitalismo e do estatismo e a consequente reestruturação de ambos; e apogeu de movimentos sociais culturais, tais como libertarismo, direitos humanos, feminismo e ambientalismo”.

Para o pensador, a interação entre esses processos e as reações por eles desencadeadas fizeram surgir uma nova estrutura social dominante, a sociedade em rede, uma nova economia, a economia informacional-global e uma nova cultura, a cultura da virtualidade real.

Em parte, vivencia-se aquilo que se apregoou. A revolução da tecnologia da informação fez surgir o informacionalismo como a base material de uma nova sociedade. A geração de riqueza, o exercício do poder e a geração de códigos culturais passaram a depender da capacidade tecnológica das sociedades e dos indivíduos. Verificou-se uma nova reestruturação socioeconômica.

Só que ao analfabetismo em sentido estrito e ao analfabetismo funcional, adicionou-se o analfabetismo digital. Massas excluídas viram destroçado o sonho de ascensão social. Abandonados à própria sorte, grupos sociais em tentativa desesperada de conexão com a economia convencional e de fugir à marginalidade, viram-se conduzidos àquilo que Castells chama de “conexão perversa”. Ela ocorre “quando o crime organizado em todo o mundo tirou vantagem de sua condição para promover o desenvolvimento da economia do crime global”.

Esse promíscuo vínculo entre os invisíveis e os poderosos alimenta cadeias que exploram as drogas, o comércio de armas, o contrabando e uma série de outros ilícitos. A tragédia está no conúbio entre o fruto econômico da delinquência e a lavagem de dinheiro, sob disfarce de atividades aparentemente lícitas, mas sustentadas pela mais nefasta criminalidade.

Um Estado perdulário e burocratizado, com vertiginoso crescimento vegetativo, onera os despossuídos com a mais pesada carga tributária do planeta. Oferece, em contraprestação, péssimos, onerosos e ineficientes serviços públicos.

A democracia representativa não atrai o interesse da juventude. Esta procura se socorrer de apego a movimentos ambientalistas, defesa dos direitos humanos  minoritários, liberdade sexual, igualdade étnica e uma ideia de democracia que se aproxima bastante de uma espécie de neo-anarquismo.

A crise de legitimidade atinge todas as instituições. Família, escola, Igreja, Estado. Este assenhoreou-se de inúmeras atribuições e delas não deu conta. Como as promessas básicas do acenado bem-estar social não puderam ser cumpridas, perde autoridade e legitimidade.

Uma educação deficitária não prepara o indivíduo para o trabalho. Aferra-se numa transmissão cognitiva de informações desatualizadas e, em grande parte, inúteis. Daí a evasão, o desencanto e o desemprego. Sobram diagnósticos, teses, dissertações, ensaios, pareceres. Reiteram-se avaliações para se chegar ao inquestionável: o brasileiro vive uma era ultrapassada e irreal. Não se ensina a pensar, a criticar, a criar, ou a empreender.

Mão de obra substituível pela automação é presa fácil das facções. Estas impregnam as entranhas daquilo que um dia se pronunciava com amor: a Pátria. Hoje, ela resta em discursos violentos, irados e pronunciados com ódio, na polarização suicida de um projeto de nação fraterna.

É nesse momento que a voz ponderada e serena do Papa Francisco exorta o mundo inteiro a se compenetrar de que toda a humanidade integra um coletivo substancialmente homogêneo. Há diferenças mínimas entre os seres humanos. Todos são irmãos e assim deveriam se comportar.

Fraternidade é hoje conceito jurídico, pois inserto na Constituição da República. Mais uma opção retórica, a esbarrar no aprofundamento das diferenças, pois a distância inicial entre os que têm acesso a uma escola que cumpre sua missão e os que restam desatendidos vai se alargar no decorrer dos anos.

Ecoará na consciência dos humanos sensíveis esse apelo a uma conversão? Ou continuaremos a manter distância do outro, a reforçar blindagens, a cuidar do próprio umbigo e a acreditar que tudo é obrigação do governo?

Apesar do panorama desanimador, a situação do mundo parece recomendar reversão urgente do comportamento cidadão. Chegou-se a um ponto em que a inflexão é a alternativa. Inacreditável pensar-se que o caminho rumo ao caos continue a ser trilhado, quando tantas crianças continuam a nascer e têm inequívoco direito a encontrar um mundo melhor. Que venha, pois, esse novo mundo!

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020

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