Que tal a marcha à ré?

Que tal a marcha à ré?

José Renato Nalini*

05 de junho de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: WERTHER SANTANA/ESTADÃO

A urgência que a restauração da Mata Atlântica requer, impõe ao Brasil uma verdadeira marcha à ré, considerada a política ambiental desenvolvida nos últimos anos. Em lugar do extermínio, um cuidado especial para com a terra maltratada.

O bioma que mais interessa à maior parte dos habitantes desta nação é a mancha verde litorânea. Nela vive uma legião imensa de brasileiros, todos afetados pelo ritmo da destruição, intensamente acelerado neste período.

É importante refletir que o desmatamento zero é insuficiente. Os quase 14000 hectares de floresta nativa dizimados entre 2019 e 2020, correspondem a cerca de 20 mil campos de futebol.  Eles fazem falta. A natureza sacrificada tem pressa. Não é capaz de se recompor facilmente.

Tudo indica – e a prudência recomenda -, a necessidade de formação de uma verdadeira cruzada, formada por governos estaduais e municipais, pela Universidade, pelo empresariado, pelo terceiro setor e pela sociedade civil. Quer dizer: ninguém está excluído e todos são chamados a agir.

Arregimentar esforços no sentido de multiplicar a coleta de sementes, a formação e propagação de muitos viveiros de mudas, a qualificação de trabalhadores que procedam à semeadura, ao plantio e ao zelo contínuo das áreas regeneradas, para que a desgraça não aconteça novamente.

O objetivo de se chegar ao desmatamento zero é perfeitamente viável. Quase toda a faixa residual coberta com vegetação original é de propriedade particular. Governos estaduais e municipais têm condições de estimular os titulares de domínio a promoverem a regeneração em seus imóveis. Existem algumas iniciativas em curso, mas a questão é conferir escalabilidade. O estrago foi muito grave e paliativos já não respondem de forma compatível ao drama.

Campanhas institucionais precisam ser implementadas, pois a consciência ecológica parece não ter sido suficiente para impedir o extermínio da floresta. Em relação a Amazônia, foi preciso que os apelos internacionais acenassem com reais e concretos prejuízos financeiros para que o conceito ESG começasse a ser objeto de atenção de parte do empresariado nacional.

Todas as ações contrárias ao que tem sido feito em nível federal são bem vindas. Educação ambiental formal e informal deve ser intensificada em todo o Brasil. As crianças são mais sensíveis ao apelo ecológico. Tornar cada criança brasileira responsável por uma árvore ou por várias delas, já representaria uma espécie de milagre humano.

Urge alertar a população de que a mata Atlântica é responsável por imprescindíveis serviços ecossistêmicos, algo que não está na competência humana suprir. Sem a recomposição daquilo que a insensatez ignorante destruiu, faltará em breve água em cada casa dos 70% de brasileiros que dependem da mata Atlântica. A questão é ainda mais grave porque os primeiros meses de 2021 mostraram, com a falta de chuvas, as nefastas consequências do desmatamento na Amazônia, no Pantanal e em outros biomas, com prenúncio aflitivo de que São Paulo enfrentará uma crise de carência de água, muito mais grave do que aquela registrada em 2013

Junte-se também ao pacote de ações, um aspecto estratégico a ser considerado: diante da insanidade das declarações e de posturas bizarras, de parte de quem tem obrigação legal de tutelar a natureza, o Brasil passou a ocupar “com distinção”, o ranking de maior inimigo da natureza. Foi chamado de pária ambiental e – o mais incrível -, foi a aceitação desse qualificativo por autoridades despreparadas para o exercício do múnus público

É o momento de São Paulo mostrar que não está afinado com essa antipolítica ambiental. Governo estadual e governos municipais têm legitimidade para a tutela ambiental, por força da mesma Constituição que erigiu o município em entidade federativa da República brasileira.

São Paulo detém as Universidades públicas que mais se destacam no concerto mundial. Todas elas têm material suficiente para alicerçar tecnicamente uma tática exitosa de recuperação deu um patrimônio que foi espoliado por cupidez e ignorância ou pelo incestuoso conúbio entre ambas.

Não faltam tecnologia, nem mão de obra ociosa. A legião de desempregados deveria ser utilizada nesse projeto de interesse global. Com o uso de tecnologia de ponta, disponível nas startups e na criatividade engenhosa da juventude digitalmente nativa. Nada impede, tudo permite que se pratique aqui uma pioneira reversão do mal perpetrado contra quem não tem condições de ser defender: a frágil natureza e a biodiversidade gratuitamente oferecida a quem se autoproclama racional.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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