Que falta faz um Cícero

Que falta faz um Cícero

José Renato Nalini*

10 de agosto de 2020 | 15h00

José Renato Nalini. FOTO: WERTHER SANTANA/ESTADÃO

As Catilinárias, quatro discursos célebres pronunciados pelo Cônsul Romano Marco Túlio Cícero em 63-aC, ecoam como libelos contra desmandos insuportáveis. Bradando contra Catilina, exortou os romanos a se insurgirem contra o senador Lucius Sergius Catilina, que pretendeu destruir a República.

Quanta falta faz um Cícero na República Federativa do Brasil, para ecoar na consciência e na responsabilidade dos que atuam em nome do Estado e que, de forma inclemente, destroem o maior patrimônio nacional. Exatamente aquele que não resulta do trabalho de qualquer humano, mas que foi presente do Criador ou da natureza, como queiram os prejudicados.

Prejudicados são todos os viventes. Compromete-se a continuidade da vida no planeta. Ouvidos moucos não deram ouvidos à manifestação de Fundos que investiriam no Brasil, nem aos ex-Ministros do Meio Ambiente, nem aos empresários brasileiros. Já haviam sido surdos à admoestação do Terceiro Setor, tão vilipendiado pelo governo, que reitera a tosca argumentação conspiratória. Tudo é consequência da rede protetiva internacional, receosa de que o agronegócio tupiniquim atrapalhe os seus lavradores.

Não bastasse o desmanche de uma estrutura lentamente construída para preservar o ambiente, a tolice de recusar ajuda estrangeira, as ofensas a ícones da tutela ecológica, continuam os sinais eloquentes do desapreço à natureza.

O Ministério da Defesa proibiu a urgente atuação do Ibama contra o garimpo ilegal. O Ministro contra o ambiente foi conversar com garimpeiros e pregou a possibilidade de os índios fazerem com suas reservas o que bem lhes convier. Garimpo, lavoura, pecuária, ocupação indiscriminada de áreas protegidas.

Pouco importa que o garimpo ilegal acabe com a floresta, destrua os afluentes do rio Tapajós, despejem nesse rio o equivalente aos males de um acidente da Samarco a cada onze anos. Mais ainda, insiste-se no discurso de que a Operação Verde Brasil 2 está controlando o desmatamento, quando a verdade é outra. Já houve recorde de destruição em 2019 e em 2020 ele será suplantado. A Associação Nacional dos Servidores da Carreira de Especialista em Meio Ambiente diz que a operação da GLO – Garantia da Lei e da Ordem é verdadeiro fiasco.

2020 será um ano trágico para o Brasil. Chegaremos a duzentos mil mortos pela Covid? Quantas gerações restarão prejudicadas ou sequer chegarão a existir, se a extinção da natureza continuar nesse ritmo?

Tudo remete ao Apocalipse. Os amigos da floresta ou são defenestrados, como Ricardo Galvão, devotado diretor do INPE – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais ou morrem, como D. Pedro Casaldáliga, o catalão que tanto fez pelo Brasil, pelos indígenas e pela floresta.

O impossível se tornou rotina: o Pantanal mato-grossense arde em chamas. Os focos de incêndio em 2020 superam qualquer recorde. Se em julho de 2019 eram 494, em julho deste ano atingiram 1.684. Já são 2.534 desde janeiro. O mais lamentável é que o estímulo à queimada partiu do próprio governo, que anistia criminosos, explicita em bizarro encontro ministerial a sua intenção de “soltar a boiada” e de arremessar uma nefasta “baciada de desregulamentação”. Não é preciso grande perspicácia para entender o recado.

Com desenvoltura, propõe-se a substituição da tímida meta de redução de desmatamento e queimadas ilegais até 2023, que havia sido fixada no Plano Plurianual, para a absurda preservação de 390 mil hectares de vegetação nativa. Enquanto isso, três vezes mais já haviam sido devastados em 2019: cerca de 900 mil hectares. O IVC – Instituto Centro de Vida apurou que mais da metade das queimadas são em propriedades particulares. Quem acredita em combustão espontânea? É ação humana, dendroclasta e delinquencial.

Num Brasil depauperado pela policrise – ética, moral, política, econômica e sanitária – a ciência não tem vez. O mundo sabe que o surgimento de pestes vincula-se à derrubada do verde. O HIV saiu das florestas africanas e ganhou o mundo. O desequilíbrio ecológico é a causa de aparecimento de pandemias como a do Sars-Cov-1. O virologista Nuno Faria, que atua na Universidade de Oxford e leciona no Imperial College, ambos na Inglaterra, afirma que processos ecológicos naturais desequilibrados pela ação humana geram consequências dramáticas. Desmatamento e criação de animais para consumo dos homens têm como subproduto maléfico a disseminação de enfermidades letais.

A derradeira esperança é a de que o Parlamento se oponha a esse extermínio programado do maior tesouro pátrio. Se por milagre ressurgisse um Marco Túlio Cícero, ele teria elementos para pronunciar dezenas de discursos, tais os descalabros que a mídia noticia diuturnamente e que não causam a reação em grau de tsunami compatível com a desgraça anunciada e confirmada.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020

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