Quatro passos para o Brasil combater os anticorpos da educação

Quatro passos para o Brasil combater os anticorpos da educação

Bruno Leonardo*

18 de abril de 2021 | 04h00

Bruno Leonardo. FOTO: DIVULGAÇÃO

Nas próximas décadas, o ano de 2020 será visto como um ponto de virada na forma como consumimos e valorizamos a Educação. Foi preciso ficarmos impossibilitados de estudar pelo método tradicional, para romper barreiras tecnológicas e preconceitos com a digitalização da cultura de aprendizagem. Mas essa é uma história que se repete há séculos. É da natureza do ser humano temer e resistir à mudança, nossos anticorpos da inovação ainda são muito fortes e por isso Peter Diamandis, presidente executivo da Singularity University, resolveu estudá-los e categorizá-los, no que chamou de 6Ds da Tecnologia Exponencial: digitalização, decepção, disrupção, desmonetização, desmaterialização e democratização.  Neste artigo, apresento essas 6 etapas da inovação, traçando um paralelo entre a digitalização da indústria da música e da educação no Brasil.

DIGITALIZAÇÃO

O primeiro passo para se tornar exponencial é a digitalização. Só quem viveu a era dos LPs e toca-fitas, sabe o verdadeiro valor de uma playlist em um aplicativo de música! É ou não é? Mas foi um longo caminho até aqui. Quem lembra, na década de 90, como foi a primeira vez em que ouvimos falar em música digital, baixar música e gravar CD com a própria playlist? Certamente a resposta sobre a sua primeira experiência descreve a etapa 2 do processo, a decepção.

DECEPÇÃO

É da decepção que vêm os nossos anticorpos da inovação, o motivo pelo qual a maioria das pessoas não consegue enxergar a disrupção que está para acontecer! A decepção tem diversas origens: a primeira versão digital costuma oferecer uma experiência muito diferente do que estamos acostumados e ficamos resistentes, a inovação também costuma chegar no mercado com custos altos, serviços a desejar e promessas de longo prazo. Aqui com a música foi assim, basicamente um mercado caro, que gerou pirataria, informalidade, músicas com propaganda ou vírus.

A Educação Digital está saindo do “Vale da Decepção”

Começamos essa etapa na cultura de aprendizagem com os nossos anticorpos falando assim: Educação digital não funciona, o conteúdo é ruim, ninguém vai valorizar esse diploma, não tenho disciplina para aprender a distância, não confio nesse método… Qualquer semelhança com pagamento on-line não é mera coincidência.

E sim, ela começou muito ruim, com publicações de PDFs, animações de slides e depois com filmagem de palestras e aulas presenciais. Não adianta filmar uma aula de 60 minutos e quebrar em 6 vídeos de 10 minutos, dizendo que isto é microlearning. Permitindo mais um paralelo, seria como filmar uma peça de teatro e falar que está fazendo cinema. Cada conteúdo deve ser pensado para o canal que ele será entregue. Mas com o tempo a tecnologia começa a evoluir, as pessoas começam a testar, adaptar, transformar e oferecer uma boa experiência. Aí vem o terceiro D, o momento disruptivo no mercado que muda tudo.

DISRUPÇÃO

A segunda revolução no mercado da música digital aconteceu quando a promessa de longo prazo começou a se cumprir: a lançamento de MP3 players, na virada do milênio, permitiu que as pessoas começassem a armazenar e organizar milhares de músicas em um pequeno dispositivo móvel. A música digital começou a dar lugar à música on-line e ilimitada que a gente conhece hoje.

Pela história da Revolução Musical, pudemos observar como leva tempo para uma tecnologia romper um mercado e ser aceita em uma cultura, tudo tem um tempo de maturação. Na Educação, começamos a entrar em novas tecnologias e “disrruptar” o mercado on-line agora. Vale ressaltar que esse processo sofreu uma brusca aceleração com a pandemia do Corona Vírus, a necessidade de aprender remotamente destruiu resistências, preconceitos e combateu anticorpos da inovação pelo menos 5 anos mais rápido do que se levaria em um processo natural de mudança exponencial.

Hoje já existem empresas que se propõem a produzir uma experiência de aprendizagem digital muito mais atraente, engajadora e em larga escala, não só usando tecnologias exponenciais, mas também com método de produção próprio e coerente para cada canal e tema de aprendizado.

Ou seja, na Educação Digital, já é possível aprender com vídeos e conteúdo de alta qualidade, de curta duração e com recursos tecnológicos que facilitam a compreensão. Essas e outras diversas tecnologias, como a realidade virtual e inteligência artificial, estão tornando a experiência da educação digital muito mais eficaz e atraente. De fato, começamos a sair do “Vale da Decepção” e estamos caminhando para o quarto “D”, a desmonetização.

DESMONETIZAÇÃO

Vimos que com a evolução dos MP3 players, a música além de digital, passou a ser on-line e ilimitada. Isso mudou a forma de monetizar artistas, de como as pessoas passaram a consumir música, até os lançamentos de álbuns passaram a ser feitos em e para plataformas digitais. Em vez de comprar um álbum, passamos a pagar por música, baixar quantas quiser, ainda que com custo alto no início. Então, esse impacto mudou toda a cadeia de produção, consumo, negociação e monetização – mudou o mundo da música.

DESMATERIALIZAÇÃO

A desmaterialização é a penúltima etapa do processo estudado e apontado por Peter Diamandis. O que era visto com desprezo, agora é visto como uma ameaça, pois a indústria não para de se desenvolver. Trocamos os LPs e vitrolas, fitas e walkmans por CDs, rádios e Discmans, em seguida por MP3 players e agora não precisamos de NENHUM aparelho específico de música para ouvir as nossas playlists, basta ter um celular e uma assinatura em um aplicativo ou plataforma de streaming.

O processo será parecido em um futuro não muito distante com a Educação Digital. Na Educação Corporativa, por exemplo, antes da pandemia, a maior parte dos investimentos das empresas ainda era destinada ao treinamento presencial, que demanda uma série atributos, tempo e custos, esse cenário mudou completamente e nunca mais será igual.

DEMOCRATIZAÇÃO

Ao analisar o mercado da música e a régua de Peter Diamandis, podemos fazer projeções para o futuro da Educação. Já temos uma excelente experiência de Educação Digital e por isso estamos saindo do Vale da Decepção, mas ainda encontramos poucas empresas oferecendo o recurso com qualidade e estamos longe de chegar ao último “D”, que é a democratização. Ainda mais considerando a complexidade desse setor, que envolve educação formal e informal, básica e superior e educação privada e pública, em um país em que nem o acesso à internet se democratizou.

Mas o caminho da tecnologia exponencial é sem volta. Quem não estiver conectado a isso, de fato, talvez fique ali preso naquele “Vale da Decepção” ou em desvantagem competitiva por não entender como diversos setores da economia estão sendo transformados.

O futuro da educação será híbrido

Claro que a educação do futuro não vai ser 100% digital, mas também, certamente não será quase que absolutamente presencial. As pessoas que estão vivenciando experiências positivas, economizando tempo e custo de deslocamento, tendo flexibilidade de horário, independência de aprendizado, acesso a cursos que não teriam oportunidades e se adaptando a esse método, dificilmente vão querer abrir mão dessas vantagens. O digital vem com muito mais força, inclusive, potencializando a própria experiência do presencial.

Futuro da Educação e Futuro do Trabalho

O futuro da educação e o futuro do trabalho estão totalmente conectados, pois é a nossa capacidade de aprender e se reinventar que nos prepara para qualquer desafio. O aprendizado deve ser contínuo ao logo da vida, seja qual for o método, as pessoas, os educadores, os líderes e as empresas precisam ter esse mindset. Mas não adianta falar de lifelong learning sem apoio da tecnologia, pois é ela que vai nos dar a escala e a agilidade para entregarmos conteúdos de acordo com a velocidade dos desafios que o mercado vai nos apresentando.

Acaba sendo a união perfeita: a empresa querendo fomentar o desenvolvimento dos seus colaboradores e ao mesmo tempo podendo proporcionar uma boa experiência de aprendizado, de forma muito mais rápida, atraente, engajadora e escalável, alinhando o conteúdo de cada nova habilidade e desafio com as metas da corporação.

E vale o alerta a todos os líderes de Educação Corporativa e RH, que se estende também a diretores, CEOs e todos os tomadores de decisões: as empresas que não tiverem em sua cultura o aprendizado contínuo estão programando a própria obsolescência.

*Bruno Leonardo é fundador e CEO da WitSeed

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