Quase verdade

Quase verdade

José Renato Nalini*

12 de junho de 2021 | 10h00

José Renato Nalini. FOTO: IARA MORSELLI/ESTADÃO

O presidente da Argentina falou que os mexicanos são indígenas, os brasileiros vieram da selva e os argentinos chegaram por mar, vindos da civilização europeia.

Como tudo aquilo que um personagem “Presidente da República” fala, a declaração rendeu comentários. Tanto que a própria autoridade em seguida se desculpou. A mídia ainda apurou que não era verdadeira a alusão a Octavio Paz, que seria o autor da frase, mas que ela fora extraída  de uma canção popular da própria Argentina

Não há motivo para tamanha celeuma. A afirmativa nos faz refletir sobre a origem dos brasileiros e sobre o papel da selva em nossa civilização.

O Brasil humano é a fusão de muitas raças, das quais três são as principais: a indígena, a africana e a europeia. Três raças tristes, já se afirmou. Combinação muito feliz, porque atesta a falácia da “raça pura”, utopia inexistente e indesejável. O ecletismo sugere o aproveitamento das características fortes de cada etnia. Vencem aquelas capazes de submeter as mais fracas. A síntese é a melhor resposta da espécie humana para adequar-se aos desafiadores trópicos. Por isso é que o sertanejo é, antes de tudo, um forte.

Por outro lado, quando se menciona a selva como origem dos brasileiros, tem- se a impressão de que o Brasil ainda é visto como um enorme e exuberante território verde. E já foi assim um dia. Os indígenas conservaram este verdadeiro continente, provido de sua riquíssima e biodiversa mata nativa, magnífico resultado de serviços gratuitamente prestados pelo ambiente.

Foi com a chegada dos “colonizadores” que teve início a devastação. A cultura do século 16 poderia justificar a ignorância em relação ao valor da floresta. O inconcebível é que, em pleno século 21, prevaleça no âmbito do governo federal, a concepção reducionista de que a mata só serve para fornecer madeira e depois tornar-se terreno destinado ao plantio de soja, cana de açúcar e para o pasto, antes de se converter em deserto.

Enquanto o mundo civilizado adotou a lógica da sustentabilidade para orientar os seus investimentos, transformou em norma exigível o que parecia apenas ideal programático uma década atrás, o Brasil reluta em ajustar-se aos novos tempos. Tempos em que prevalece o conceito ESG, que veio para ficar e se tornou obrigatório para a lucidez reinante em todo o planeta. Pensar conjuntamente na preservação ambiental, na urgência do combate às desigualdades sociais e econômicas e em uma governança corporativa, é o dogma que vai orientar o capital verde na próxima década. ESG não é modismo, senão reconhecimento do perigo que toda espécie de vida está a correr, e pode ser extinta, se não houver radical mudança de costumes em todo o planeta.

A realidade do aquecimento global e das gravosas mutações climáticas que ele produz, está presente em inúmeras partes do Globo, inclusive no Brasil. Regimes alterados de chuva, inundações num lugar e seca em outro, conquista de terra por um mar revolto e indisciplinado, tudo isso é fruto da insensatez do bicho homem. Até a pandemia indomável de infinitas cepas e agravada com o fungo negro, decorre dos maus tratos infligidos à mãe natureza.

Lamentável que as autoridades encarregadas de cumprir o artigo 225 da Constituição da República, por muitos constitucionalistas considerado o mais belo dispositivo fundante do século 20, sejam as patrocinadoras de um inclemente processo de extermínio dos biomas. O mais sacrificado é a Amazônia, mas estão também no alvo dendroclasta, o Pantanal, a Mata Atlântica, o cerrado, as caatingas e o mangue.

O Brasil da cupidez e da ignorância está desperdiçando a sua chance de ouro. Privilegiado com a última grande floresta tropical da Terra, teria todas as condições de atrair recursos para a economia cambaleante de um país em retrocesso evidente nas questões as mais sérias: educação, saúde e ética na política.

Esses recursos disponíveis são avaliados em 70 trilhões de dólares. O Brasil é detentor de um capital natural que o credencia a liderar uma verdadeira e eficaz política estatal de economia verde, da qual o mundo inteiro se beneficiaria e pela qual os países ricos estão dispostos a pagar.

Como fazer para destravar o obscurantismo, a ideologia fanática, a ganância imediatista, tudo coroado por uma invencível ignorância da situação do mundo neste momento?

Aqueles não desprovidos de discernimento têm uma responsabilidade acrescida na fase sombria que o país atravessa, mas que não será permanente, porque tudo passa.

Que novos ares, novas luzes e pensamento renovado façam ressurgir a inteligência e a ética, para que o Brasil ainda se aproveite da chance que pode ser a derradeira, mas até agora, calamitosamente negligenciada.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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