Quase todas as licitações da Norte-Sul foram fraudadas, aponta Procuradoria

Quase todas as licitações da Norte-Sul foram fraudadas, aponta Procuradoria

Revelação faz parte de denúncia sobre ilícitos nas obras da Valec no Estado de Goiás desde 2001

Mateus Coutinho e Julia Affonso

20 de maio de 2016 | 10h00

Obra da Galvão Engenharia na Ferrovia Norte-Sul, em 2011. Foto: Divulgação

Obra da Galvão Engenharia na Ferrovia Norte Sul, em 2011. Foto: Divulgação

Praticamente todas as licitações das ferrovias Norte-Sul e Interligação Oeste-Leste no Estado de Goiás a partir de 2001 foram fraudadas por um cartel de empreiteiras que pagava propinas a funcionários da Valec, estatal do setor ferroviário responsável pelas obras.

A conclusão é da Procuradoria da República em Goiás que investiga os empreendimentos desde 2009 e com o apoio da Lava Jato – que enquadrou as principais empreiteiras do País que atuavam em conluio no megaesquema de corrupção na Petrobrás e também em outras áreas do governo – fechou acordos de leniência e de delação premiada com a Camargo Corrêa e executivos.

Com as informações da Lava Jato, o Ministério Público Federal em Goiás apresentou nova denúncia contra oito envolvidos no esquema de corrupção envolvendo as obras ferroviárias, incluindo o ex-presidente da Valec José Francisco das Neves, o Juquinha.

CONFIRA A PLANILHA DAS LICITAÇÕES FRAUDADAS DA VALEC

mapaferrovia

A Camargo e executivos admitiram ilícitos nas obras, aceitaram devolver R$ 75 milhões e entregaram um “mapa” do cartel envolvendo a Ferrovia Norte-Sul e a Leste-Oeste, as principais obras ferroviárias do País.

Aliado a isso, o MPF e a Polícia Federal em Goiás identificaram ao menos 10 licitações dos trechos das duas ferrovias da Valec que passam no Estado, desde 2001, que teriam sido fraudadas pelo cartel e tiveram um superfaturamento de mais de R$ 236 milhões.

Para o procurador Hélio Telho Corrêa Filho, autor da denúncia, o conluio das empreiteiras nas várias licitações ocorreu “com o beneplácito e a efetiva participação da diretoria da Valec, em especial do seu então presidente, José Francisco das Neves e do seu Diretor de Engenharia, Ulisses Assad, que atuaram para beneficiar as empreiteiras e serem por elas recompensados com vantagens ilícitas (propina)”

A denúncia é um desdobramento da operação “O Recebedor”, deflagrada no dia 26 de fevereiro a partir das informações da colaboração da Camargo Corrêa e que cumpriu 44 mandados de busca e apreensão e sete de condução coercitiva em Goiás e em mais seis Estados. A acusação está sob análise da 11ª Vara Federal de Goiás, onde também foi homologado o acordo de leniência da Camargo referente às obras da Valec.

A reportagem não localizou Ulisses Assad. A assessoria da Valec foi procurada via-email, mas a reportagem ainda não obteve resposta da estatal. O espaço está aberto para a manifestação das defesas.

COM A PALAVRA, O ADVOGADO HELI DOURADO, QUE DEFENDE JUQUINHA:

O advogado informou que não iria se manifestar sobre as acusações contra ele e contra seu cliente pois ainda não foi notificado sobre a denúncia e não tem conhecimento das acusações. Dourado disse ainda que assim que tomar conhecimento vai apresentar sua defesa e a de seu cliente na Justiça.

COM A PALAVRA, A VALEC:

“A VALEC instituiu internamente uma Comissão Especial de Acompanhamento e Apuração dos fatos investigados pela “Operação Recebedor”. As irregularidades datam de períodos quando a empresa era gerida por diretorias anteriores, mas a VALEC mantém seu compromisso com a probidade, a ética e a transparência no exercício da atividade pública e vai se empenhar em fazer as devidas apurações no âmbito da empresa. Assim, visa fortalecer os controles internos destinados à prevenção de fraudes e desvios éticos.”