Quarentena: os desafios do uso de máscaras para as pessoas com deficiência

Quarentena: os desafios do uso de máscaras para as pessoas com deficiência

Rejane Dias*

20 de maio de 2020 | 15h25

Rejane Dias. FOTO: CLÁUDIO ANDRADE/AG. CÂMARA

Seja para ir à farmácia ou ao supermercado, o uso da máscara é essencial para evitar a contaminação pelo novo coronavírus. No entanto, o equipamento é bastante incômodo para pessoas com deficiência ou transtornos sensoriais, que não conseguem manusear a máscara da maneira correta, ou que simplesmente têm dificuldade em sentir algo tocando a pele.

Pessoas com autismo, por exemplo, que tem necessidade terapêutica de sair de casa para caminhar, praticar exercícios, mudar de ambiente, sofrem mais com o contato externo de texturas e objetos com a pele. Eles ficam inquietos e, expostos ao estresse, podem evoluir para crises mais sérias.

A Dany, minha filha, é autista. Assim como ela, 96% dos autistas, que tem dificuldades sensoriais não conseguem aceitar qualquer acessório no corpo por muito tempo. A irritação começa nos primeiros minutos, embora haja bem antes uma tentativa de convencimento. Ela não compreende a situação.

O que é novo, para os autistas, gera reações e sensações que, geralmente, são de aceitação, ou de agitação psicomotora, agressividade ou até autoagressividade.

Pessoas com deficiência física ou motora também precisam desse sentimento de empatia. Algumas não conseguem manusear máscara quando estão sozinhas. Cadeirantes precisam do contato com outros equipamentos e a higienização de tudo ao redor precisa ser redobrada. É importante verificar a condição física dessas pessoas para o uso frequente da máscara.

Há os que sofrem de um movimento involuntário de membros e isso os impossibilita de manter o cuidado ao manusear o equipamento. Quase sempre precisam de outras pessoas para o encaixe correto do elástico e do tecido sobre o nariz.

Já as pessoas com deficiência auditiva – que utilizam a leitura labial e expressões faciais para se comunicar – podem contar com máscaras especiais, embora seja difícil encontrá-las no mercado. O ideal é que a máscara contenha material transparente e permita que a boca e parte da face fiquem visíveis.

É importante validar, também, que o uso do equipamento não é recomendado para crianças menores de três anos, porque existe o risco de elas sufocarem.

Foi por esses argumentos que a Câmara abriu um parêntese, por meio de uma emenda que apresentei ao Projeto do uso obrigatório da máscara em todo o País. O texto foi aprovado ontem pela Câmara e está nas mãos do Senado, já com essa interpretação.

As máscaras, artesanais ou industriais, serão obrigatórias para circulação em espaços públicos e privados acessíveis ao público, vias públicas e transportes públicos. Exceto, para autistas, deficiências intelectuais, deficiências sensoriais, ou quaisquer outras deficiências que as impeçam de fazer o uso adequado de máscara de proteção facial, bem como crianças com menos de 3 anos de idade.

As pessoas com deficiência precisavam ser mais compreendidas. A máscara se tornou mais que um acessório, uma questão de autocuidado, prevenção e empatia.

*Rejane Dias, deputada federal. Primeira-dama do Estado do Piauí

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