Quando tudo voltar ao… normal?

Quando tudo voltar ao… normal?

Karime Cheaito*

15 de julho de 2020 | 06h30

Karime Cheaito. FOTO: DIVULGAÇÃO

As pessoas anseiam pelo retorno à normalidade. Mas que “normal” era esse? E será que queremos mesmo voltar a ele?

As análises feitas sobre os efeitos da covid-19 demonstram que nada será como antes. Uma crise sanitária se somou à crise econômica, social e política. Com isso, esse “normal” que existia antes da pandemia demonstrou os seus limites, fragilidades, incapacidades e esgotamento.

A realidade concreta tem nos mostrado que existe uma intrínseca relação entre a doença, política, economia, sujeitos e grupos de poder. A partir disso, notamos que os efeitos de uma doença não atingem apenas a saúde, mas também todas essas outras esferas que estão interconectadas.

Esse momento escancarou algo que os pesquisadores brasileiros alertam a muito tempo: as desigualdades sociais, as condições subumanas em que milhões de pessoas vivem e o esgotamento do atual sistema político e econômico.

Para conter os impactos econômicos causados pela covid-19 e para criar políticas de prevenção e contenção do contágio, o aumento dos gastos públicos e investimentos em diversas áreas se mostraram necessários e urgentes. Os governos norteados pelos valores do Estado mínimo foram pegos  de surpresa. Problemas sérios que exigem respostas rápidas, têm se confrontado com a lentidão e incapacidade desses governantes.

Esse “normal” que tanto tem se falado nega a milhões de pessoas direitos fundamentais à vida, saúde, educação, moradia, trabalho e lazer. Para uma grande parcela dos brasileiros falta enterro digno, leitos e respiradores. Faltam internet e computadores. Faltam saneamento básico, condições habitacionais e infraestrutura. Faltam empregos.

A pandemia nos expôs de forma escancarada essas desigualdades sociais. Embora haja muitos indivíduos contaminados nos bairros ricos, poucos morrem. Já nos bairros populares, conjuntos habitacionais e favelas, as mortes são numerosas. No Morumbi (bairro rico de São Paulo), registrou-se no dia 20 de abril 297 casos positivos e 7 mortes. Enquanto isso, na Brasilândia (bairro de operários e imigrantes) havia 89 infectados e 54 mortes.

Precisamos entender não apenas a doença em si, mas a relação que existe entre ela, a sociedade e suas instituições. As consequências que vemos dela nesse momento são frutos de anos de uma política negligente que manteve as desigualdades sociais e o sucateamento dos serviços públicos. A realidade que vivemos hoje é produto de decisões políticas cheias de interesses que beneficiaram apenas um grupo específico.

Assim, o que epidemias como esta podem nos ensinar sobre o que chamamos de “normalidade”? Ninguém sabe o que será de amanhã, mas ele precisa ser melhor que o ontem.

*Karime Cheaito, cientista social, com especialização em Ciência Política

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