Quando o tédio adoece: os desafios da síndrome de Boreaut

Quando o tédio adoece: os desafios da síndrome de Boreaut

Maria Inês Vasconcelos*

30 de agosto de 2020 | 08h00

Maria Inês Vasconcelos. FOTO: DIVULGAÇÃO

O mundo do trabalho está em permanente evolução e é palco para todo tipo de vivência humana. A tecnologia que hoje, praticamente, é a grande questão na agenda do trabalho, caminha ao lado de outros temas. Dentre eles, o adoecimento do trabalhador provocado pelo estresse mental.

O psiquismo do trabalhador vem sofrendo ataques nunca antes realizados. Dentro desse contexto, surgem novas patologias que decorrem justamente de como o trabalho é prestado e de que forma as atividades são realizadas. A novidade é a Síndrome de Boreaut, que não se confunde com o Bornout.

O Bornout decorre de excessos de metas, de pesos desumanos sobre o trabalhador, provocando a sensação recorrente do esgotamento mental, inclusive emocional causado pela destruição das defesas psíquicas do trabalhador, com a sensação de estar acabado. Já a Síndrome de Bournout está relacionada ao excesso de trabalho.

A Síndrome de Boreaut decorre da sensação de menos valia no ambiente laborativo, de subutilização e de perda da autoestima, tudo em decorrência da forma como o trabalhador é tratado pelos seus gestores e pares. De um lado tem o esgotamento mental pelo excesso de “uso”, de outro pela subutilização. É preciso então muita atenção para não acontecer dentro da empresa, tentando estimular permanentemente os empregados e mantê-los  em exercício de atribuições  sustentando o equilíbrio do contrato e que as suas funções sejam compatíveis com o cargo que ocupa.

Manter o empregado congelado, ministrando-lhe trabalhos inferiores à  sua capacidade, além de ser uma forma de humilhação é a causa dessa patologia que vem ganhando cada vez mais destaque na literatura do trabalho.

Boreaut vem do inglês bored.   Bored é entediado. Por não ter o que fazer, não é um tédio qualquer. É realmente uma sensação de pouca valia que desperta impressão de nenhum valor. E justamente por não se sentir como parte do negócio, parte importante da empresa, o empregado se desconecta e a aderência ao trabalho se torna zero.

O empregado subutilizado por falta de estímulo e motivação em geral tende à depressão. Além disso, os gestores identificam um sintoma muito comum, que é relacional. Geralmente essas pessoas mentem muito, enganam e são impontuais e descomprometidas. Chegam a ser literalmente irresponsáveis.

De forma imprevisível, a solução para isso é criar um ambiente de trabalho sadio do ponto de vista mental, onde os talentos sejam aproveitados. E manter a vigilância. Gestores devem estar atentos à valorização de atributos pessoais, e estimular a inventividade e criatividade.

Deixar alguém de lado, à míngua,  com atividades  que estejam muito aquém de sua capacidade é também um tipo de assédio punido pela Justiça, em razão de interferir  diretamente na dignidade da pessoa humana, que realmente pode se sentir diminuída perante os colegas e chefias.

Enfim, além do Bournout que é representado pela queima do palito de fósforo, provocando a sensação de estar acabado, está o Boreaut que assola os empregados justamente porque o palito nunca é aceso. Aplica-se aqui a máxima: a relação de trabalho precisa ser sustentável, ética e equilibrada. O trabalhador não é coisa e nem mercadoria. Cabe aos gestores responsáveis pelas pessoas identificarem esse tipo de situação e levar o time para cima. A relação de trabalho é via de mão dupla, ou seja, todo palito deve ser aceso, mas com moderação.

*Maria Inês Vasconcelos, advogada, especialista em direito do trabalho, professora universitária, escritora

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