Quando o silêncio também mata

Quando o silêncio também mata

Renata Christiny*

19 de agosto de 2020 | 14h50

Renata Christiny. FOTO: DIVULGAÇÃO

Enxergar a realidade assustadora em que vivemos é como ser um balão de ar que murcha lentamente. Comecei a observar à minha volta todas as mulheres e seus sorrisos e passei a me perguntar quantas delas tinham acabado de chorar? Quantas tinham dado seu último grito por socorro?

Começar a compreender sobre a violência contra a mulher é saber que o mergulho será doloroso e as feridas serão irreversíveis. Aos 16 anos eu ouvi falar sobre feminicídio pela primeira vez. Aos 22 eu aprendi que, quando uma mulher sofre violência física, sofre também psicologicamente. E quando sofre esse dano psíquico, ela vê todo o seu universo ser destruído. Uma mulher sem esperança, é também uma mulher morta.

Mas, por que a violência existe? No âmbito familiar, talvez seja onde tudo começa. A educação recebida em casa, fruto de uma evolução histórica machista, muitas vezes, é o primeiro contato que uma criança tem com a violência. Se pensarmos que uma criança é uma tela em branco, entendemos que os pais são os pincéis. Portanto, quando um garoto cresce em um ambiente agressivo, um esboço começa a tomar forma nessa tela. Quando é designado como o chefe da casa, ele se enxerga como alguém superior e, se não ensinado, se vê no direito de inferiorizar sua companheira.

A partir do momento em que essa ideologia é passada para ele no seio familiar, ele a migra para os espaços públicos. Seja no trabalho, ou no relacionamento, a cultura agressiva/machista se perpetuará.

Quando muito poder é dado a um lado, o outro, automaticamente, enfraquece. Em muitos casos a mulher ainda é ensinada desde cedo a cuidar do seu lar, a servir e respeitar seu marido. Uma vez que essas regras são impostas, sua personalidade se conforma à essa realidade e ela se torna frágil, sua identidade desaparece ao ponto de ela própria não reconhecer sua força e acreditar que não sobreviveria sozinha no mundo. E pode ser a partir desse momento que a agressão psíquica começa.

Uma mulher com medo do mundo volta a ser uma tela em branco e passa a ser pintada pelo pincel que agora é do seu parceiro. É importante compreender o quanto isso é agressivo, uma vez que agora ela passará a se ver como um objeto e acreditará que sua existência depende do outro. Ela passa a aceitar agressões, humilhações, e todo tipo de violência por não entender que ela não precisaria passar por nada daquilo.

Então, se os pais educarem seus filhos, a violência não existirá? Isso é fundamental, porém, não resolve o problema, no máximo o atenua, porque os pais podem ser os pincéis, mas a sociedade ainda é a tinta. Mas, mesmo que o meio social interfira, muitas vezes negativamente, quando uma criança é bem-educada desde cedo as chances de ela permitir que outros borrem sua tela, diminui.

Muitas mulheres até hoje não conseguem perceber que sofreram ou sofrem agressões por falta de informação e por toda carga histórica familiar que trazem consigo. Elas foram ensinadas a se calar quando humilhadas, a baixar a cabeça quando agredidas, e muitas foram assassinadas por tentarem reagir.

Atualmente vivemos em uma sociedade que vê a violência contra a mulher de forma banalizada, mas, a partir do momento em que este assunto se torna recorrente, seja pela internet, literatura, televisão, ou qualquer outra plataforma de natureza popular, conseguimos alcançar um grupo maior de pessoas e, dessa forma, tratar esse tema com a real importância que ele merece para que todos os gritos por socorro sejam ouvidos.

*Renata Christiny é escritora, formada em letras-português e em criação literária, autora do livro Minhas Três Primaveras (3DEA Editora)

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