Quando o povo quer

Quando o povo quer

José Renato Nalini*

27 de janeiro de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

Episódios de heroísmo individual não faltam ao Brasil. Numa nação iniquamente desigual, são heróis os que conseguem sobreviver, a despeito das condições sub-humanas. Sem teto, sem trabalho, sem pão. Há milhões nessa condição. Não se vislumbra consciência coletiva posta em ação para sanar essa triste anomalia.

Na versão macro, todavia, não sobram exemplos que evidenciem excepcional coragem gregária. Manifestações padronizadas e facilitadas pelo chamamento eletrônico, reúnem por breve lapso temporal milhares ou até milhões, para imediata dispersão depois de algumas horas.

A vibração é relativa, não chega a empolgar como no futebol, que já foi a grande paixão brasileira. Hoje, talvez substituída pela litigância – quem é que não processa ou está sendo processado em juízo? – e pela difusão de desinformações, as mais variadas.

O brasileiro, como povo, não teve de arrostar perigos que importassem no sacrifício da própria vida, como ocorre em outras latitudes. Não é necessário buscar precedentes remotos, mas basta encarar o que outras pátrias têm sofrido, para a constatação que pode revestir várias tonalidades. Haverá os que nos considerem privilegiados, abençoados. Mas também aqueles que poderão indagar se ao nacional sobra ou falta coragem, destemor e audácia patriótica.

Um bom exercício de reflexão é assistir ao documentário “Winter on Fire: Ukraine’s Fight for Freedom” (Inverno no fogo: a luta da Ucrânia por liberdade”, realizado por Evgeni Afineevski e disponível na Netflix. É impressionante verificar como os ucranianos não hesitaram em testemunhar o seu apreço pela liberdade, a um custo que se mostrou por demais elevado.

Considerando-se libertos da opressão soviética, pretenderam ingressar na Comunidade Europeia, o que lhes fora prometido. Só que o Presidente Viktor Ianukovich preferiu aliar-se à Rússia. Recusou-se a assinar o acordo de ingresso à união dos países do Velho Continente interessados em estabelecer uma comunhão de vida, muito mais do que investir em acordos comerciais e financeiros.

Famílias inteiras foram para a praça mais famosa de Kiev, a capital da Ucrânia e cantaram hinos, fizeram apelos. Tudo isso aconteceu outro dia mesmo, já no século 21: novembro de 2013. O movimento cresceu, porque a população sabia o que adviria de cada opção política.

Persistiu nas manifestações e elas perduraram. O inverno converteu essa vigília permanente numa aventura perigosa. Era necessário agasalhar e alimentar milhares de pessoas, algumas idosas, muitas crianças. Para demonstrar o empenho que as movia, levaram deficientes em suas cadeiras de roda.

O governo reagiu com perversa brutalidade. Primeiro a tentar a desocupação do espaço, utilizando-se de cassetetes de ferro, quando a praxe era servir-se de objetos menos letais, os similares de plástico. Muitas pessoas ficaram feridas. Algumas gravemente.

À medida em que a adesão ao protesto ganhava força, com a chegada de ucranianos de todo o país, a reação governamental recrudesceu. Gás de efeito moral, gás lacrimogênio, e outros presentes foram oferecidos ao povo na praça. Não satisfeito, o Presidente autorizou o uso de armas com projéteis de borracha, com mal disfarçada e parcial substituição por balas de verdade.

É constrangedor verificar as cenas reais em que mães idosas conclamavam os soldados a não atirarem contra seus irmãos, a pensarem naquilo que as professoras os ensinaram quando crianças. Exortavam a milícia enfurecida a um ato nobre de desobediência a ordens ilegais e criminosas.

Nada arrefeceu a deliberada intenção de manter a postura presidencial, nada obstante a vontade da imensa maioria dos ucranianos.

Foram noventa e três dias de concentração no centro de Kiev, com breves deslocamentos até à sede do Parlamento e da Presidência da República. O Mosteiro de São Miguel, com suas múltiplas torres douradas, serviu de refúgio e hospital. O conjunto de seus sinos, que não tocara desde 1240, quando da invasão mongol, lembrava à Ucrânia que seu povo estava sendo assassinado.

Somente em fevereiro de 2014, após cerca de 125 mortes, 65 desaparecimentos e milhares de feridos, foi que o Presidente fugiu para a Rússia. É um espetáculo edificante aquele documentado pelos ucranianos, de resistência à imposição autoritária desconforme com o legítimo anseio por liberdade. Algo que deveria motivar todos os seres humanos.

A Ucrânia tem uma história de sofrimento, mas de elevada consciência patriótica. Mostrou que há caminhos de oposição ao autoritarismo, embora sejam dolorosos. Ainda existem no mundo, a despeito de estar impregnado por interesses materiais, consumismo e exacerbado individualismo, ideais intangíveis, valores insuscetíveis de transigência e sua defesa legitima o sacrifício da própria vida.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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