Quando o lazer se sobrepõe à Educação

Quando o lazer se sobrepõe à Educação

Antonio Baptista Gonçalves*

11 de setembro de 2020 | 11h00

Antonio Baptista Gonçalves. FOTO: DIVULGAÇÃO

Não são poucos os debates e as incertezas que cercam o eventual retorno presencial às aulas tanto na rede pública quanto particular de ensino. A pandemia da covid-19 trouxe limitações e problemas para o aprendizado de nossas crianças. Enquanto para aqueles que estão nas escolas particulares se amoldaram a realidade do ensino à distância, o mesmo não foi possível para 40% da população na rede pública de ensino por falta de acesso seja a internet ou a um computador ou tablet.

As aulas, tanto em São Paulo quanto no Rio de Janeiro, já estiveram programadas para retornar em setembro, agora, estão para outubro, contudo, sem convicção alguma de que, de fato, tal intento acontecerá. Segundo levantamento, 70% dos pais se mostram inclinados ao retorno dos filhos de maneira presencial apenas no ano que vem, ou quando houver uma vacina.

Se há falta de convicção e uma notória preocupação com o ensino de nossas crianças o mesmo zelo não foi observado pela população no último feriado de 7 de setembro, em especial, nos Estados mais afetados pela pandemia: São Paulo e Rio de Janeiro. Não foram poucas as imagens de praias lotadas, isolamento social desrespeitado e máscaras praticamente inexistentes, ou seja, ir para a escola não pode, mas para a praia está liberado!

A justificativa para o injustificável é que o brasileiro não mais consegue ficar em casa. Ora, tal ilação, por si só já enseja uma reflexão e, se analisada conjuntamente com a questão da educação, aí sim, que alguns pontos obrigatórios devem ser melhor pensados. Vamos a eles com a inserção de ponderações trazidas da filosofia.

Gilles Lipovetsky e Zygmunt Bauman, dois filósofos contemporâneos, cada um a sua maneira, defendem o desejo como forma de satisfação individual em uma sociedade calcada pelo consumo, seja de produtos, coisas ou interações humanas em busca de uma felicidade efêmera. O primeiro trata em suas obras da sociedade de hiperconsumo, na qual o desejo de ter e querer produziu uma sociedade egoísta em que o protagonismo é individual e todos querem o melhor para si, independente do que é adequado para a sociedade. Já Bauman defende a liquidez das relações humanas que se tornaram efêmeras e sem profundidade nesta mesma sociedade, o ser feliz depende do ter cada vez mais, todavia sem esforço para persistir em caso de dificuldade. Na primeira adversidade na relação há a troca, o que torna as relações líquidas.

Com a ressalva da máxima simplificação dos conceitos trazidos, podemos transpor os ensinamentos de ambos para os acontecimentos do último feriado em que, em tempos de isolamento social e pandemia, o que vale mesmo é a minha própria felicidade e se o vírus infectar, paciência. Em um egoísmo típico da modernidade líquida da sociedade de hiperconsumo. Não mais se pensa no próximo e no coletivo com uma visão social harmonizada, todos querem tudo ao mesmo tempo individualmente.

Essa sobreposição de interesses conflitantes inviabiliza o enfrentamento conjunto com o respeito ao correto isolamento social. E qual o resultado? O Brasil enfrenta o platô acerca da pandemia sem sinais redução e com mortes diárias ainda em número elevado.

O que é mais importante: a felicidade individual ou a coletiva? O desfrute do feriado em praias e bares lotados ou todos em casa para que a pandemia regrida o mais rápido possível para, por conseguinte, minorar o impacto (sanitário-econômico-social) e as mortes? A resposta foi dada neste feriado: o lazer é mais importante! Enquanto a educação…

Não se pode dizer que tal pensamento seja adstrito ao brasileiro, pois, a cidade espanhola de Ibiza e suas praias ficaram igualmente lotadas no final do verão europeu e, como consequência, uma nova onda de contaminações atinge a Europa. O ser humano, por conta dos motivos já elencados, não mais consegue discernir e globalizar suas ações, e o que temos é um conjunto de individualidades.

Sobre a educação, o reflexo da pandemia trará consequências profundas, já que a paralização das aulas representará uma queda média do PIB global no importe de 1,5% segundo o relatório Education at a Glance 2020, divulgado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico. O que as pessoas não perceberam ainda, e somente descobrirão as consequências a médio prazo é que a perda do ensino em 2020 e a lentidão na retomada trarão reflexos na formação das pessoas, no aperfeiçoamento, nas relações de trabalho e produtividade no futuro.

Desde janeiro vários países suspenderam as atividades de colégios e universidades, no Brasil a partir de março, e a conta virá. Segundo o mesmo estudo, os Estados Unidos da América, por exemplo, poderá ter uma perda de U$15,3 trilhões se houver uma redução de um décimo no nível padrão de habilidades dos alunos. Enquanto isso, o Brasil se preocupa apenas com a não ida dos alunos à escola de maneira presencial e não questiona a queda de aprendizado, rendimento ou desinteresse de nossas crianças e quais os reflexos disso.

Segundo pesquisa Datafolha realizada com alunos entre 6 e 18 anos de idade das redes estaduais e municipais de ensino de todas as regiões brasileiras, aponta que para 48% dos pais, os filhos estão menos envolvidos na escola do que no período anterior à pandemia e 18% consideram que eles perderam o interesse pelo estudo. A falta de motivação passou de 46% em maio para 51% em junho. Já a percepção de que não há evolução no aprendizado saltou de 46% em maio para 51% em junho.

O Brasil precisa debater e sanear os problemas que envolvem a educação e, principalmente o acesso à internet e a rede pública de ensino à distância. Para tanto, o Estado tem se quedado inerte e esta omissão aliada ao desejo do brasileiro de ter lazer impedem um vislumbre de um futuro planejado e escalonado para enfrentar os efeitos da pandemia.

Por conta da covid-19 a economia, a saúde, a educação, dentre outros padecem, porém, o brasileiro parece se importar mesmo é em desfrutar o seu lazer. Não há um planejamento de retomada efetiva, de adaptação, e o tempo segue inexoravelmente avançando, e o brasileiro segue feliz e contente, bebendo e confraternizando como se não houvesse uma crise econômica mundial em curso, porque afinal, isso não é problema meu, será?

A covid-19 não faz distinção entre os infectados e não há qualquer previsibilidade sobre seu potencial, então, nesse momento de praias e bares lotados com pessoas não se protegendo de maneira adequada, quando o vírus lhe visitar pode ser tarde demais para começar a se importar. O desejo e a sublimação se for colocado como prioridade poderá comprometer o futuro não apenas de si, como de seus familiares.

O brasileiro precisa se planejar para o amanhã, seja com a educação, com a retomada da economia, com novas formas de se manter empregado ou ter novas atividades, porque se a implementação de medidas começar somente com a chegada da vacina, então, pode ser tarde demais, a morte pelo vírus pode ter lhe acometido, a crise econômica pode ter feito mais uma vítima, seus filhos podem ter perdido o ano letivo ou não mais querer voltar às aulas, ou sofrer impactos no desenvolvimento de suas habilidades futuras. O lazer é importante, contudo, ter emprego, saúde e educação sempre serão mais preponderantes, logo, pense no seu bem estar a partir do todo. O futuro de nossas crianças agradece.

*Antonio Baptista Gonçalves é advogado, pós-doutor, doutor e mestre pela PUC/SP e presidente da Comissão de Criminologia e Vitimologia da OAB/SP – subseção de Butantã

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