Quando bullying é a primeira suspeita

Quando bullying é a primeira suspeita

Ana Paula Siqueira Lazzareschi de Mesquita*

19 de março de 2019 | 11h00

Ana Paula Siqueira Lazzareschi de Mesquita. FOTO: DIVULGAÇÃO

O ataque infame à escola em Suzano traz à tona um fato que tem se tornado comum em situações de conflito. O uso do bullying como primeira desculpa para atos de vingança. A justificativa conforta, mas é frágil. Psicopatia, maldade e desafeto aos outros estão além do grau de problemas compreensíveis nas situações de bullying e cyberbullying.

Todos, enfatizo, todos os casos de múltiplos assassinatos devidamente apurados, seja no exterior quanto em nosso país, chegaram a conclusões semelhantes. Os perpetradores agiram por estarem em distorção cognitiva grave, um campo de conhecimento psiquiátrico cujos estudos precisam de severa revisão diante do relacionamento humano digital. Assim, o bullying ou a revanche a esta violência sistemática estão dentro do quadro, mas não são, seguramente, as razões chave do gatilho para tamanha violência.

As motivações do crime poderão, talvez, ser explicitadas na apuração policial. Com certeza não chegaremos ao inteiro teor dos fatos. E por quatro razões. Pais não sabem tudo. Colegas adolescentes são um tipo de irmandade que não conta tudo. Uma escola mal consegue saber o que se passa dentro de seu espaço. Imprensa, especialistas e agregados querem apenas expor o que acham, não saber o que, de fato, motivou os crimes.

Sendo assim, o que cada público chave pode aprender com o massacre em si? Primeiro, parar de ignorar que a deep web existe e nela se estimula práticas de crime. Se agem livremente é porque ninguém se importa. Segundo, as famílias precisam aceitar de uma vez por todas que o mundo digital é, sim, mais perigoso do que o presencial. Lá, nossos filhos andam sozinhos. É nele que os predadores modernos agem.

As escolas, como entes chaves do sistema educacional, precisam rever sua missão do que é ensinar numa fórmula que mostre o real tamanho do mundo e seus sentidos para reforçar o sistema de defesa dos indivíduos em formação. Algo, talvez, impossível de ser realizado nas atuais condições, mas que se deve, por obrigação, ser buscado. Não há desculpa para evitar o bom combate.

De toda forma, se faz necessário aceitar que o massacre em Suzano é, simplesmente, inevitável. Na medida em que condescendemos com a violência na nossa sociedade, nos conformávamos em que ocorresse longe de nós. Mas cada vez está mais próxima de todos e, inertes, não sabemos, sinceramente, como reagir.

*Ana Paula Siqueira Lazzareschi de Mesquita, sócia de SLM Advogados e coordenadora do programa jurídico educacional “Proteja-se contra prejuízos do cyberbullying”

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