Quando as circunstâncias decidem por mim

Quando as circunstâncias decidem por mim

Christiano Sobral*

25 de fevereiro de 2021 | 14h40

Christiano Sobral. FOTO: DIVULGAÇÃO

Já parou para pensar o quão livre é sua capacidade de decidir? Ao investir tempo e tecnologia na tentativa de antecipar, da melhor forma, como os magistrados deliberam, descobrirá que o máximo possível é o entendimento do perfil decisório; pois a decisão humana é muito mais complexa do que possa imaginar.

Basta pensar em pesquisas como a de Kahneman, publicada no livro Rápido e Devagar, que indicava como a simples distância entre refeições podia levar um juiz a ser mais, ou menos, rigoroso na sua decisão. Isso em função da química do organismo humano frente a disponibilidade, ou falta, de açúcar. Como prever até que ponto este viés pode interferir numa sentença?

O viés da disponibilidade também interfere. Imagine decidir em prol da abertura de escolas em meio a persistente divulgação das mortes e dificuldades do sistema de saúde frente a COVID? Independente do real risco envolvido, o cérebro não possui capacidade de ignorar aquilo a que é exposto com maior frequência, valorando sempre como mais relevante.

Existe ainda o viés da confirmação, que dentre outros influencia a só captar as informações que confirmam uma crença prévia. Ou seja, se acredita que os genitores tendem a esconder suas rendas para não atender a necessidade alimentar de seus filhos no real quanto justo, tenderia a ignorar qualquer prova de que o pai do caso em julgamento está apresentando sua real renda a corte.

Mesmo fatores externos, e que as pessoas não são capazes de identificar corretamente, interferem nas decisões. Ponto que Dan Goldstein, em participação no livro Quando Roubar um Banco de Levitt e Dubner, aponta como sendo a Nulidade Ecológica. Uma teoria que indica que, as circunstâncias do ambiente, modificam as escolhas do indivíduo.

No seu exemplo Goldstein afirma que, se você vê um pedinte e ele lembra seu pai, você será mais generoso com ele; já se parecer embriagado tende a não dar nada. Mas, se antes de encontrá-lo tiver visto uma propaganda com cativantes crianças pobres com seus olhares tristes, acabará dando-lhe mais que em qualquer outra situação.

Ainda segundo o mesmo autor, as pessoas nunca serão capazes de fazer um link entre a propaganda, a aparência e o alcoolismo com a decisão de o quanto dar, apressando-se para criar uma retórica que justifique o ato. Não por motivo de temor ao julgamento alheio, mas pela incapacidade de entender o real motivo da própria escolha. Alegação que reforça a ideia de que é tomada uma decisão só depois de encontrar os precedentes, jurisprudência, justificativas, histórias e interpretações que suportem a opção.

Dado que todos são tão falhos e suscetíveis ainda a um viés chamado de ancoragem, que limita o espectro de decisão quando um ponto de referência é oferecido; pode ser que decidir fazendo o uso do norte estatístico gerado por máquinas seja útil, e até torne as pessoas mais justas. Afinal, com bases amplas de dados a coleção de decisões, por exemplo, sobre causas semelhantes, podem gerar uma pré-decisão, já fundamentada, que evite a exposição a outras formas de desvio.

Num modelo assim, com cuidado de corrigir problemas que também atingem a geração de respostas por máquinas, poderia levar o magistrado a dar seu veredicto baseado em parâmetros que não o vinculasse (no sentido de obrigado a seguir). À semelhança do oftalmologista que recebe do aparelho, previamente, todas as medidas do desvio de visão do paciente, mas refaz sua análise de forma a confirmar, ou ajustar, a informação que já lhe foi dada.

Talvez um modelo assim reduza o número de vezes em que, o fato de ter a linha bloqueada por engano, faz um juiz posicionar-se excessivamente contra uma operadora específica; ou um histórico familiar leva a exagerar na condenação de determinado perfil de contraventor. Beneficiando o sistema pela ciência da maioria, que é o fato estatisticamente provado que aproxima da exatidão à média das opiniões de diferentes apostadores (como quando um grupo grande de pessoas dá palpite sobre o número de grãos de arroz em um pote).

Claro que é preciso reconhecer que os algoritmos também podem ser povoados de erros que podem prejudicar uma decisão, como no caso de soluções de IA que tornamse preconceituosas. Mas, nunca esqueça, como já demonstrado, que também os humanos não bons nesse quesito. Talvez, com a união dos dois formatos, chegue a uma solução melhor que a atual.

*Christiano Sobral, diretor executivo do escritório Urbano Vitalino Advogados

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