Quando a tecnologia cria novas metáforas para nossas crianças

Quando a tecnologia cria novas metáforas para nossas crianças

Maria Inês Vasconcelos*

23 de junho de 2020 | 06h00

*Maria Inês Vasconcelos – Advogada trabalhista, palestrante, pesquisadora e escritora. Foto: Lett Souza

Desde que me entendo por gente, o melhor lugar para a criança, depois da escola, é o quintal. Mas hoje, o quintal ficou desinteressante. Ninguém mais quer brincar ao ar livre e a meninada tem horror à grama, árvore e sol. Todos querem apenas sofá e vídeo game. A televisão ganhou uma nova face e os programas infantis, que antes tinham conteúdo e ensinavam algo, foram substituídos pelos vídeos no Youtube. Perdemos todo o controle das informações.

Faço parte da geração analógica e meus filhos são da digital. Já nasceram sabendo lidar melhor do que eu com a tecnologia e aprendem tudo muito rápido. Acompanham a explosão diária de novos aplicativos e o nascimento de startups – lidam com isso assim como nós lidávamos com a patinete há alguns anos. Eles estão cada vez mais dependentes da tecnologia para serem felizes, contudo, é uma pena.

Além de estarem permanentemente conectadas e tentando prorrogar cada vez mais o tempo na telinha, as crianças estão desenvolvendo um tipo de alienação muito perigosa, que pode, inclusive, mudar os traços psicológicos. Vídeos cheios de tensão, violência e muita gritaria são brutais, perigosos e desagradáveis. E o pior é que os algoritmos de recomendação da plataforma vão sempre indicar a elas vídeos similares.

Isso ocorre porque as crianças, infelizmente, geram perfis de recomendação muito rápido, basta repetir o vídeo para chegar outro em segundos. A milionária indústria infantil do youtube, que se baseia em recomendações e “likes” vai crescendo e destruindo a Disney, a Universal e os canais de TV à cabo que ainda são coloridos e cheios de animação verdadeira. Os monstros e os guerreiros tomam lugar do Mickey, dos Pokémons e da Peppa.

A culpa é toda nossa, porque nós, homens e mulheres da pós modernidade, somos encantados e movidos por fetiches novos e, exatamente por isso, a tecnologia encanta e seduz. Fomos nós que introduzimos os pequenos nessa onda tecnológica a partir de uma visão solucionista e imediatista de que é possível sempre articular o mundo em termos “computáveis”. Acreditávamos na tecnologia como vetor saudável para solucionar problemas humanos que também poderiam distrair as crianças sem deixá-las dependentes.

Ledo engano. Para elas, a tecnologia não é nada emancipatória.

Se para nós já é difícil desconectar, imaginem para a meninada. A tecnologia, infelizmente, tem um viés altamente alienante e abusivo quando se refere às crianças. A bizarrice desses vídeos e a violência contida em muitos deles são indicativos de que há algo a ser feito, e com urgência. Para nós, que somos pais ou mães, há um grande desafio: tais vídeos sabem como atrair os pequenos e tem mais força do que bala doce. São como ímãs do mal, visto que os motores de recomendação tendem a se ativar e vão chover vídeos similares nas telinhas.

Certo é que a tecnologia vem fazendo uma procissão de crianças dependentes e cada vez mais sedentárias, incultas, nervosas e que, definitivamente, não querem mais saber do saudoso quintal de casa. Não sabemos o que virá pela frente, mas a tendência é que o fenômeno se agrave e nossos pequenos queiram cada vez mais se refugiar num cantinho da casa para jogar seus games ou assistir vídeos imbecis no youtube, deixando de lado as delícias da nossa época.

Certamente, muita coisa vai parar no esquecimento, como a gangorra, o escorregador, o tanque de areia e as brincadeiras que gostávamos. Ninguém mais quer saber de correr e jogar queimada. Subir em árvores passou a ser tão improvável como escalar o Everest. O mundo está cheio de novas metáforas, e foi decretado o fim do quintal.

Os novos hábitos das crianças digitais nos mostra que estamos perdidos num mundo tecnológico, onde o algoritmo e o dinheiro fazem a tecnologia se tornar paradoxal. Esse encantamento pelo high tech e a visão de que ele é somente emancipatório vem sendo desmascarado quando nos vemos diante de crianças cada vez mais agressivas e cansadas, com desempenho escolar e relacionamentos interpessoais debilitados do ponto de vista físico e emocional. Fatigadas, presas e capturadas por essas engenhocas horrorosas. E nós, os pais, tendo que lutar pela imposição dos limites e negociar tempo, horário e lugar. É uma briga sem fim.

Rousseau dizia que “o único hábito que se deve permitir a uma criança é o de não adquirir nenhum”. Está aí nosso papel, não deixar que as crianças sejam tragadas por esses desmantelos do mundo digital. Sermos firmes ao ponto de quase obrigar a brincadeira e fortes para enfrentar a recusa. Lutar pela bicicleta, futebol e boneca, afinal, disso é feito a infância, não dessas loucuras que as crianças andam assistindo e jogando.

A tecnologia como vetor pode facilitar muito a vida, mas no caso das crianças só aliena. Mata a infância. Mais vale ser criança que querer compreender o mundo. Por isso, mesmo que não possamos compreendê-lo, é nosso dever sempre apontar para o quintal, na esperança que troquem de lugar.

*Maria Inês Vasconcelos – Advogada trabalhista, palestrante, pesquisadora e escritora

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.