Quando a dívida se torna uma salvação

Quando a dívida se torna uma salvação

Igor Macedo de Lucena*

29 de janeiro de 2021 | 04h30

Igor Macedo de Lucena. FOTO: DIVULGAÇÃO

Na semana próxima passada, o Bank of America divulgou um importante relatório incluindo 97 países e mostra o quanto de recursos financeiros foram alocados por diversas nações para combater os efeitos econômicos da pandemia causada pelo novo coronavírus, sejam eles para benefícios às empresas, ajuda às famílias ou alocação de recursos nos sistemas de saúde.

Surpreendentemente, as antigas nações conhecidas como Eixo durante a Segunda Grande Guerra foram as que mais alocaram recursos tanto em relação ao PIB quanto em relação a valores absolutos, mostrando como houve em 70 anos uma transformação de políticas de extrema-direita em políticas sociais de centro. O Japão alocou 3,2 trilhões de dólares, ou aproximadamente 63,7% do seu PIB, a Itália alocou 1,16 trilhões de dólares, ou 58% do seu PIB, e a Alemanha alocou 2,08 trilhões de dólares, ou aproxidamente 54,2% do seu PIB.

A lista segue respectivamente com Cingapura (43%), Reino Unido (41%) e Bulgária (40%), e nós nos encontramos na 35ª colocação com aproximadamente 11,2% do PIB com um valor de quase 210 bilhões, mais precisamente 209,3 bilhões de dólares. Neste contexto, pode-se até levar em consideração que gastamos pouco em dólares, mas quando consideramos um ano de alta volatilidade do Real e que nossa moeda foi uma das que mais se desvalorizou em relação ao dólar, esse valor chega à casa de 850 bilhões de reais.

Neste contexto, é óbvio que tais valores não vieram exclusivamente do tesouro dos países. A grande maioria desses recursos foi obtida no mercado por meio da emissão de títulos soberanos de dívida, que no atual momento estão com taxas muito baixas, até mesmo os emergentes, para os padrões naturais.

Um efeito prático disso é que no ano de 2021 a razão dívida/PIB dessas nações deve se alterar consideravelmente e, para muitos casos, os famosos 100% serão o novo piso e não mais o teto de endividamento de diversas nações, principalmente daquelas que passaram a conviver com juros reais e taxas nominais básicas negativas. Por tal motivo, já existem grupos de economistas ortodoxos tanto nos Estados Unidos quanto na Europa que buscam outras ‘métricas’ para avaliar a situação fiscal e o crescimento econômico das nações.

Algumas das ideias básicas para a mudança de critérios é que essa métrica é incapaz de analisar novos efeitos econômicos como o Quantitative Easing (Injeção de recursos monetários do banco central no mercado financeiro), as taxas de juros negativas, as novas tecnologias e outros fatores que afetam fundamentalmente as bases econômicas e alguns elementos fundamentais dos países ao longo prazo.

Para nações em que a moeda fiduciária é algo internacional como o Dólar, o Euro, o Franco e o Iene, essa nova representação econômica e a busca de novos indicadores começam a tomar ‘ares de necessidade’ tendo em vista haver a necessidade de mais financiamento para as empresas e para as famílias desses países em relação a uma nova configuração econômica. Entretanto, ainda é muito cedo para nações emergentes como o Brasil, que possui uma moeda especulativa como o Real, deixar de analisar a razão dívida/PIB sem comprometer a estabilidade financeira nacional. Contudo, uma mudança fundamental nas estatísticas das nações mais desenvolvidas naturalmente seria algo benéfico para o Brasil, pois em um longo prazo o país terá que se adaptar às novas métricas que aparentemente devem ser, sob um ponto de vista fiscal, mais interessantes para uma nação que precisa ainda de muitos investimentos públicos e privados.

Apesar de toda essa situação, a pandemia da Covid-19 está nos mostrando que em algumas situações específicas a dívida se tornou nossa salvação.

*Igor Macedo de Lucena é economista e empresário, doutorando em Relações Internacionais na Universidade de Lisboa, membro da Chatham House – The Royal Institute of International Affairs e da Associação Portuguesa de Ciência Política

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