Qual o valor de uma startup?

Qual o valor de uma startup?

Na avaliação de pequenas empresas inovadoras, é preciso cautela e compromisso com a realidade

João Busin e Victor Cabral Fonseca*

15 de fevereiro de 2020 | 07h00

João Busin e Victor Cabral Fonseca. FOTOS: DIVULGAÇÃO

É sempre uma grande alegria ler uma notícia relatando que mais uma startup brasileira atingiu valor superior a US$ 1 bilhão. Não é por menos: fazer de sua startup um “unicórnio” – como são chamadas as empresas que atingiram esse valor – é um dos principais objetivos de empreendedores que lutam diariamente com os desafios de desenvolver um negócio de alto risco.

Notícias como essas, ainda, são um claro exemplo de que nosso ecossistema está em franco crescimento. O primeiro unicórnio brasileiro foi anunciado em janeiro de 2018; de lá para cá, outras onze empresas já ostentam o famigerado título em seu histórico. De acordo com o portal Crunchbase (que mapeia dados de startups globalmente), apenas EUA e China superaram o Brasil na quantidade de empresas que se converteram em unicórnios em 2019. Ocupamos orgulhosamente o terceiro lugar, empatados com a Alemanha.

Entretanto, o tema da valorização expressiva de tais empresas nos remete a uma discussão há muito adormecida: estamos avaliando corretamente nossas startups, principalmente aquelas que ainda não se tornaram unicórnios?

A avaliação do valor de mercado (também conhecida como valuation) de empresas inovadoras não é uma tarefa fácil: muitas não possuem patrimônio ou ativos tangíveis para ser contabilizados no cálculo; além disso, a maioria ainda apura um faturamento oscilante que pode apresentar súbitas variações positivas ou negativas, dificultando, desse modo, sua projeção em longo prazo. Em outros casos as empresas sequer possuem um monitoramento contábil e financeiro adequado.

Mesmo assim, especialistas têm se debruçado sobre os métodos clássicos e achado formas criativas de resolver a questão. Algumas soluções mais utilizadas consideram a propriedade intelectual intangível das empresas, como os códigos de softwares ou a força de sua marca; outras, por exemplo, analisam questões mais abstratas como potencial de mercado, histórico e currículo dos times envolvidos.

Apesar de soluções viáveis, a ausência de objetividade torna a tarefa potencialmente imprecisa; isso sem mencionar os casos em que o valuation é resultado de uma estimativa bastante abstrata, proposta sem qualquer análise prévia, levando-se em conta potencialidades futuras do negócio (como ocorre, por exemplo, nos casos em que se estabelece um mecanismo de aporte ou pagamento de preço pelo chamado earn-out, que nada mais é do que uma parcela a prazo que será paga ou aportada caso a empresa em questão atinja determinados resultados, sejam eles financeiros e/ou operacionais).

Isso significa que muitas startups são avaliadas de forma errada, para mais ou para menos. O que não é necessariamente um problema – até que o valor seja posto em prática, em rodadas de investimento ou operações de fusões e aquisições (M&A).

Nessas operações, o valuation é talvez o principal elemento de discussão. É ele que determina, por exemplo, quantas quotas ou ações o investidor receberá em troca do capital aportado; também é o número praticado para estabelecer por quanto – e como – um comprador interessado poderá adquirir a empresa.

Por esse motivo, o valuation atua como um verdadeiro fiel da balança no alinhamento de expectativas dos stakeholders. Quanto mais valiosa a empresa, investidores e compradores tendem a ser mais exigentes com resultados e performance. Além disso, como mais dinheiro está em jogo, normalmente ampliam os pedidos de garantias e mecanismos de controle, como poderes de veto e participação na gestão da startup.

Certamente, uma empresa supervalorizada antes da hora não será capaz de corresponder ao que esperam seus investidores; o contrário também é um problema, uma vez que, nesse caso, empreendedores podem ter entregado a terceiros mais do que seu negócio realmente vale – o que, com o tempo, pode desestimular sua dedicação.

Para sanar esse problema, além da avaliação correta das empresas, os contratos utilizados precisam ser bem delineados. É preciso prever, por exemplo, diferentes condições para diferentes valores – uma vez que o valuation da startup pode variar bastante em um curto período de tempo. Isso somente é possível se a operação foi inserida no contexto dinâmico de empresas dessa natureza – papel que deve ser desempenhado, no fim do dia, por advogados que, ao considerarem o fator jurídico dentro da realidade de nosso ecossistema empreendedor, podem auxiliar a evitar futuros problemas de alinhamento de interesses.

Sempre que possível, assim, é preciso olhar com bastante atenção para o valuation de startups. Os cálculos devem ser feitos com cautela, buscando a obtenção da maior precisão possível – quanto menos estimado, melhor. Adicionalmente, é essencial que o valuation esteja de acordo com o estágio de desenvolvimento de cada empresa. Para isso, se faz necessário um compromisso com a realidade, considerando de maneira muito honesta elementos como o grau de evolução do produto oferecido (o famoso “MVP” ou produto mínimo viável), a base de usuários, penetração no mercado, custos operacionais, receita recorrente, entre outras métricas valiosas.

Ainda que startups tipicamente cresçam de forma rápida, é preciso entender que essa não é uma característica obrigatória: é muito melhor fazê-lo de forma segura e correspondendo às expectativas dos que participam do caminho da empreitada. O ecossistema só tem a ganhar.

*João Busin é sócio na área de private equity e Victor Cabral Fonseca é advogado e coordenador do ThinkFuture, programa de inovação de TozziniFreire Advogados

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