Qual o futuro das criptomoedas?

Qual o futuro das criptomoedas?

Igor Macedo de Lucena*

26 de fevereiro de 2021 | 06h00

Igor Macedo de Lucena. FOTO: DIVULGAÇÃO

Hoje as Criptomoedas estão sobre um escrutínio internacional. Se por um lado encontramos uma corrida para a compra de Criptomoedas como Bitcoin, Ethereum e outras, seja diretamente ou seja por meio de fundos de investimento, por outro lado sua volatilidade, ou seja, sua variação na cotação do mercado internacional, nunca esteve tão alta. Toda essa evolução faz com que todos os meses novas “moedas digitais” sejam criadas e disponibilizadas ao público, mas efetivamente estamos tratando de ativos? Estamos diante de bolhas? Esse fenômeno é algo interessante de se ver do ponto de vista do mercado financeiro, mas vem chamando a atenção cada vez mais dos reguladores do mercado financeiro e dos bancos centrais.

Em primeiro lugar é importante lembrar que por mais que estejamos falando de “moedas digitais”, as criptomoedas não possuem do ponto de vista clássico da economia todos elementos para serem ditas como efetivamente uma “moeda”. As criptomoedas por mais que sejam usadas para compra e venda de produtos e serviços, seu uso não é universal em um determinado local, não é fácil por exemplo comprar pão na padaria com bitcoins ou pagar uma diária de hotel, por esse motivo as criptomoedas não são um meio de troca ou um meio de pagamento geral. As criptomoedas possuem no entanto a característica da moeda normal em ser uma unidade de conta, podendo assim caracterizar ativos e passivos. Entretanto dificilmente as criptomoedas podem se apresentar como reservas de valor, pois ao contrário do Real ou do Dólar, um Bitcoin pode do dia para a noite perder 20% ou mais do seu valor no mercado, tornando imprevisível seu valor como ativo para reserva monetária.

Em um cenário internacional onde as taxas de juros estão em níveis muito baixos, vide o Brasil a 2% ao ano e outras nações com valores próximos a zero, a mudança de aplicação de recursos de renda fixa para o mercado de renda variável é visível em todo o planeta e parte dos investidores mais agressivos migram para as criptomoedas como oportunidade de melhora nos ganhos, dado a sua forte possibilidade de crescimento, o que se mostra como um “rally”, de tal modo que a mais famosa criptomoedas, o Bitcoin, alcançou a marca de 38 mil dólares por bitcoin.

Por outro lado os reguladores dos mercados financeiros demonstram que esses ativos não possuem lastros reais, nem tem ligação junto a instituições financeiras de tal modo que a  Financial Conduct Authority (FCA), maior autoridade financeira do Reino Unido liberou uma nota em forma de alerta sobre os riscos no mercado de criptoativos:

“Investir em criptoativos, ou investimentos e empréstimos vinculados a eles, geralmente envolve assumir riscos muito altos com o dinheiro dos investidores. Se os consumidores investirem nesses tipos de produto, eles devem estar preparados para perder todo o seu dinheiro. Como em todos os investimentos especulativos de alto risco, os consumidores devem ter certeza de que entendem no que estão investindo, os riscos associados ao investimento e quaisquer proteções regulatórias que se apliquem.”

Neste contexto, os criptoativos atraem dois tipos de investidores. O primeiro é aquele que entende perfeitamente o alerta da FCA, possui uma ampla carteira de investimentos diversificados, sabe exatamente o risco que está correndo, mas possui conhecimento e capacidade financeira para operar neste mercado altamente especulativo. O segundo é aquele que possui um conhecimento básico ou médio sobre esse mercado, mas se sente extremamente atraído pela possibilidade de altos ganhos no curto prazo.

O que mais complica essa situação de ganhos no longo prazo é que diversas autoridades bancárias e instituições financeiras começaram a restringir operações com essas criptomoedas. Neste caso os investidores de moedas digitais em países como a Inglaterra já estão enfrentando dificuldades para acessar seus ganhos, com os principais bancos do país fechando depósitos de criptomoedas.

De acordo com relatórios recentes, bancos como o HSBC já introduziram medidas que impedem transferências de câmbios de moedas digitais para suas contas, evitando efetivamente que investidores retirem seus lucros. Se isso se ampliar para outras instituições financeiras, operações de Bitcoin e outras “moedas digitais” se tornarão mais difíceis de se efetivar para libras esterlinas, o que pode fazer desabar a cotação dessas moedas.

Já o Banco Central da Nigéria, instituiu uma normativa solicitando que as instituições financeiras regularizadas no país devem encerrar as contas que fossem relacionadas às criptomoedas. Segundo o site Money Times, que divulgou no Brasil a diretriz: “o Banco Central deseja relembrar às instituições reguladas que  é proibido lidar com criptomoedas ou realizar pagamento a corretoras de criptomoedas. Portanto, todas as DMBs [bancos de depósitos monetários], NBFI [instituições financeiras não bancárias] e OFIs [outras instituições financeiras] estão direcionadas a identificar pessoas e/ou entidades que transacionam ou operam com corretoras de criptomoedas em seus sistemas e certifiquem que tais contas sejam encerradas imediatamente. Favor entender que violações dessa diretiva irão resultar em severas sanções regulatórias”.

Neste contexto, o Reserve Bank of Australia (Banco Central daquele país) fez comentários específicos sobre as criptomoedas, em especial o bitcoin, em uma reunião do Comitê Permanente de Economia da Câmara dos Representantes. Havia dúvidas entre os parlamentares se o bitcoin e as criptomoedas representavam um risco financeiro para a Austrália.

Segundo Michelle Bullock, membro do RBA “O Bitcoin não é um instrumento de pagamento e nem mesmo é realmente dinheiro”, disse Bullock. Eu acho que há muita confusão sobre isso como um ativo potencial.” Por tal motivo ela acredita que a volatilidade dessas “moedas digitais” não se mostra como um risco para o mercado, muito menos para a estabilidade financeira, contudo é um grande risco exclusivo para os investidores desses ativos.

Neste contexto, as criptomoedas podem sofrer de duas maneira, a primeira seria uma imposição de maior regulação dos Bancos Centrais sobre a origem, destino, uso específico e propriedade dos agentes donos desses ativos, tentando mitigar riscos de lavagem de dinheiro ou terrorismo, o que na prática descaracterizaria todo o arcabouço desses ativos. E por outro lado a exclusão de contas reais e bloqueios de corretoras pelos reguladores e instituições financeiras podem inviabilizar seu uso no futuro e a retirada de lucros em escala mundial. Seja como for, o futuro das criptomoedas ainda é incerto, apesar dos ganhos fabulosos de curto prazo.

*Igor Macedo de Lucena é economista e empresário, doutorando em Relações Internacionais na Universidade de Lisboa, membro da Chatham House – The Royal Institute of International Affairs e da Associação Portuguesa de Ciência Política

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