Qual a relação entre fake news e violência contra a mulher?

Qual a relação entre fake news e violência contra a mulher?

Lídice Leão*

25 de setembro de 2020 | 07h30

Lídice Leão. Foto: Divulgação

A partir da pergunta do título, resolvi escrever este artigo para provocar uma reflexão sobre como a disseminação de fake news pode atingir um resultado que vai muito além do enxergado de forma objetiva. Sabemos que a divulgação das fake news é responsável pela implantação do clima de ódio que se alastrou pelo país nos últimos meses. E é esse ponto que nos faz pensar na possível ligação entre as notícias falsas e o aumento incessante dos casos de violência contra a mulher em todo o país.

A existência de uma rede de compartilhamento de fake news não é segredo. Que grande parte dessas notícias falsas abordam assuntos relacionados à mulher também não. Vamos aos temas: aborto, feminismo, “feministas sujas e peludas”, difamação de mulheres por meio de fotos íntimas “vazadas”, só para citar alguns dos mais recorrentes. Em um dos casos mais recentes, com repercussão nacional, uma criança de dez anos passou por todo tipo de constrangimento para se submeter a um aborto, após engravidar vítima de seguidos estupros praticados pelo próprio tio durante anos. Teve de ser transferida de hospital, de cidade, de estado, para que o procedimento médico – autorizado pela Justiça – fosse executado. 

Vale lembrar que o estupro está previsto como crime no Brasil no artigo 213 do Código Penal, de 1940. A pena é de seis e dez anos de reclusão para quem “constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que se pratique ato libidinoso”. Se a vítima tem entre catorze e dezoito anos, a pena pode chegar a doze anos. No caso de crianças (menores de 14 anos), a lei presume o estupro independentemente do consentimento da vítima e o criminoso pode pegar até quinze anos de prisão. Sobre o aborto: a lei 12.845, de 2013, regulamentou o atendimento obrigatório a vítimas de violência sexual e concedeu todas as condições para a interrupção da gravidez decorrente de estupro. 

Embora a legislação brasileira seja clara, a vítima de 10 anos acabou exposta nas redes sociais, chamada de “assassina” por pessoas que foram ao hospital em que o aborto foi feito, atacada por “influenciadores” que reconhecidamente compartilham notícias falsas em ritmo recorrente pela internet. Voltando ao título deste artigo: as agressões que a menina sofreu nas redes sociais – com nome e local da cirurgia divulgados – acabam por legitimar outras ações de ataque às mulheres, já que as pessoas que espalharam ataques virtuais contra a criança de 10 anos continuam a atuar intensamente nas redes.

Dia desses, recebi o link de um perfil que dissemina informações mentirosas em uma rede social sobre o feminismo – que, sempre repito, nada mais é do que um movimento de direitos iguais entre mulheres e homens – e as feministas. Em uma postagem, o perfil dizia que “o empoderamento destrói o emocional da mulher” e trazia um texto enorme construído integralmente de notícias falsas: que as feministas incentivam meninas de 13 anos a se masturbar, que o feminismo é uma doença, que o empoderamento “pregado” pelas feministas incentiva o sexo infantil etc. Fui pesquisar e encontrei dezenas de perfis com abordagens semelhantes. Além das notícias mentirosas, as mensagens de ódio às mulheres que questionam o padrão “bela, recatada e do lar” fazem parte dos discursos desses perfis que se escondem atrás do anonimato. Eu e um grupo de amigas denunciamos os perfis à empresa que administra a rede social. Nada aconteceu.

Ao acompanhar as notícias infelizmente verdadeiras, vemos diariamente casos de violência doméstica, mulheres espancadas, estupros e feminicídio, praticados na maioria das vezes dentro da própria casa das vítimas. Em que medida essas mensagens de ódio aqui citadas legitimam o ato violento e o assassinato de mulheres que dizem não aos homens que acreditam mandar nelas? Em que medida essas notícias falsas sobre o feminismo e a relação da mulher com o próprio corpo incentivam recorrentes estupros que estampam as páginas dos portais de notícias verdadeiras? 

É uma reflexão urgente e um debate que envolve mulheres, homens e instituições, para que os responsáveis por espalhar fake news sejam punidos e esse ciclo de incentivo ao ódio às mulheres seja, enfim, quebrado. 

*Lídice Leão é jornalista e mestranda em Psicologia Social pela USP, onde pesquisa o sofrimento psíquico da mulher nos grupos. É pesquisadora do Laboratório de Estudos em Psicanálise e Psicologia Social (LAPSO) da Universidade de São Paulo. 

 

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