QG político no subúrbio do Rio une máquinas de campanha da família Bolsonaro

QG político no subúrbio do Rio une máquinas de campanha da família Bolsonaro

Operação Anjo, que prendeu Fabrício Queiroz nesta quinta, 18, fez buscas em endereço ligado a assessora de Flávio Bolsonaro, na mesma rua de escritório político do clã, em Bento Ribeiro, antiga residência do presidente

Ricardo Brandt e Fausto Macedo

18 de junho de 2020 | 19h10

QG político da família Bolsonaro, em Bento Ribeiro. Crédito: Wilton Junior/Estadão

Em Bento Ribeiro, no subúrbio do Rio, funciona o QG político do clã Bolsonaro. Um aparato que une as campanhas e os gabinetes da família de Jair Bolsonaro, na Zona Norte, reduto raiz do presidente. A Operação Anjo, deflagrada nesta quinta-feira, 18, fez buscas em um endereço, próximo, ligado à Alessandra Esteves Marins, assessora parlamentar do senador Flávio Bolsonaro (Republicanos/RJ).

O filho mais velho do presidente é investigado por desvios na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj). Alessandra é uma das suspeitas de ter repassado parte dos salários que recebia para o ex-chefe de gabinete Fabrício Queiroz, principal alvo do Ministério Público do Rio, preso na manhã desta quinta, 18, em Atibaia (SP). Ele estava na casa do advogado Frederick Wassef, homem de confiança do presidente.

Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio Bolsonaro. Foto: EFE/Sebastião Moreira

As ordens contra Queiroz e a mulher foram expedidas pelo juiz Flávio Itabaiana Nicolau, da 27ª Vara Criminal do Rio de Janeiro. O magistrado também decretou a prisão da mulher de Queiróz, Márcia Oliveira de Aguiar, que é considerada foragida. Entre os outros alvos da operação, estão o servidor da Assembleia Legislativa do Rio, Matheus Azeredo Coutinho, as ex-funcionárias da casa, Luiza Paes Souza e o advogado Luis Gustavo Botto Maia.

O nome do ex-chefe de gabinete de Flávio na Alerj caiu no radar das autoridades em 2018. Relatório de inteligência financeira, do antigo Coaf (atual Unidade de Inteligência Financeira), listou centenas de operações financeiras suspeitas de políticos, assessores parlamentares, servidores e ex-servidores, relacionadas a 22 núcleos de gabinetes.

São apurados crimes de organização criminosa, peculato, lavagem de dinheiro, no suposto esquema de “rachadinha” (apropriação de salários de assessores) no gabinete do então deputado estadual Flávio Bolsonaro na Alerj. Flávio ocupou cadeira na Assembleia de 2003 a 2018.

Foram identificados seis núcleos no suposto esquema, envolvendo Fabrício Queiroz, suas duas filhas, o atual chefe de gabinete de Flávio no Senado, Miguel Ângelo Braga Grillo, o próprio senador, sua mulher, seu sócio, a família da ex-madrasta, Ana Cristina Siqueira Valle, e familiares do miliciano Adriano da Nóbrega Magalhães, o Capitão Adriano (morto em fevereiro, na Bahia).

Alessandra teve sigilo quebrado, por ordem da Justiça, em 2019. Ela não estava na residência. Atualmente, ela é assessora de Flávio, contratada pelo Senado, no Rio. O imóvel alvo de buscas fica próximo do escritório único político da família, em Bento Ribeiro.

QG político.  Oficialmente, o QG é o escritório de Carlos Bolsonaro, vereador na Câmara do Rio e iminência parda no Planalto. Parte da história política do clã Bolsonaro está Bento Ribeiro, bairro pobre distante da Barra da Tijuca – onde a família reside atualmente, em área nobre da Zona Oeste.

Foi em Bento Ribeiro que o presidente iniciou a carreira política, em 1988, ao ser eleito vereador pelo Partido Democrata Cristão (PDC), no mesmo ano em que virou capitão reformado do Exército. O bairro é vizinho à Vila Militar – bairro planejado que tem a maior concentração de militares da América Latina -, onde está o 8.º Grupo de Artilharia de Campanha Paraquedista, local em que o presidente serviu seus últimos anos de farda.

Na reta final da campanha em 2018 e logo após eleito, Bolsonaro foi a Bento Ribeiro: cortou cabelo no mesmo barbeiro a quem confia a missão há mais de 20 anos e visitou o escritório político da família, que serve de comitê nas campanhas e estrutura de auxilio para os gabinetes do clã.

Espécie de quartel-general de inteligência dos bolsonaros, o escritório político funciona no imóvel que pertence ao presidente e foi residência da família, quando ele era casado com Rogéria Nantes Bolsonaro, a mãe de Flávio, Carlos e Eduardo – deputado federal, por São Paulo, pelo PSL.

Com valor declarado de R$ 40 mil, a casa 15 do loteamento formado a partir do número 30 da Rua Divisória, é um assobradado de muros verdes e portão branco com duas câmeras de segurança na fachada. Fica em um loteamento com acesso limitado por uma das saídas, em região com presença de milícias.

O QG é parte de uma máquina única de campanha. Antes de eleito presidente pelo PSL em 2018, com 57 milhões de votos, Bolsonaro conseguiu em 30 anos de carreira política sete mandatos de deputado federal e um de vereador – incompleto (1989-1990). Foi o responsável por eleger os três filhos parlamentares – chamados por ele de Zero Um (Flávio), Zero Dois (Carlos) e Zero Três (Eduardo).

O escritório sobrevive independente dos partidos pelos quais eles passam, mas não sem recursos públicos. Contas eram pagas ora pelo gabinete do patriarca ora pelos gabinetes dos filhos. Na eleição de 2018, o local foi usado como “comitê de apoio” para as campanhas. Foi também para onde eram enviados materiais de divulgação da família.

Campanhas. Em 2016, por exemplo, o QG do clã em Bento Ribeiro foi usado como comitê informal da campanha de Flávio Bolsonaro a prefeito do Rio, pelo PSC. Oficialmente, o comitê foi registrado na Justiça Eleitoral em endereço ao lado do Teatro Municipal, na região central do Rio. No local funciona a sede do PSC do Rio.

Na eleição municipal, documentos mostram que reuniões e materiais eram entregues no local. Um deles a nota emitida pela gráfica Copyline Digital, que registra a entrega de 160 mil “informativos”, no modelo padrão usado pelo clã, impressos em maio ao custo de R$ 29 mil. Pago pelo gabinete de então deputado Jair Bolsonaro.

No dia 4 de julho de 2016, o gabinete de Jair também pagou R$ 11,2 mil pela confecção de 200 mil envelopes, segundo mostra o registro de gastos dos gabinetes no site da Câmara dos Deputados. Um adendo registrado em agosto fez constar no documento que os envelopes de julho deveriam ter o seguinte remetente registrado: “Jair Bolsonaro/Rua Divisória, 30”.

Em dezembro de 2016, Jair e Eduardo contratam a gráfica. Do gabinete do pai foram pagos R$ 24,7 mil por 110 mil impressos e 200 mil envelopes, segundo consta na nota fiscal 1534. O gabinete do filho Zero Três pagou R$ 4.290 por 20 mil informativos no mesmo formato do pai, serviço registrado na nota sequencial 1535.

Flávio que usava o QG em Bento Ribeiro na campanha de prefeito, não gastou com a Copyline na disputa. Já seu irmão Carlos, que buscava a reeleição como vereador, contratou a gráfica e gastou R$ 14 mil com impressos.

O dono da Copyline, Cosme Araújo, afirmou que a relação da Copyline com o clã Bolsonaro é legal. Afirmou que todos os serviços foram regularmente pagos, com nota e o material entregue.

Radar. Sem ter como alvos o presidente da República ou sua campanha presidencial, as investigações do Ministério Público sobre “rachadinha” e emprego de funcionário fantasma nos gabinetes dos filhos Flávio e Carlos, na Alerj e na Câmara de Vereadores do Rio, respectivamente, se aproximaram dessa máquina patronal de fazer política e campanhas.

A reportagem esteve em Bento Ribeiro, em duas ocasiões, em 2019. Em uma delas, um funcionário atendeu, mas pediu para ligar para o gabinete de Carlos. Na frente do imóvel, um carro estacionado. Segundo o registro, o veículo pertence a Nelson Alves Rabello, tenente da reserva e ex-assessor do gabinete de Bolsonaro na Câmara, que trabalha atualmente no gabinete de Carlos.

Rabello está entre os 94 alvos de quebra de sigilo decretada pela Justiça do Rio, nas investigações de “rachadinha” no gabinete de Flávio. Carlos também é investigado por supostos crimes em seu gabinete na Câmara Municipal. Além de “rachadinha”, a Promotoria suspeita de pagamentos para uma servidora fantasma. Registrada em seu gabinete, ela trabalharia no escritório de Bento Ribeiro.

O Grupo de Atuação Especializada no Combate à Corrupção (Gaecc) aponta que Queiroz era um “operador financeiro” de Flávio. Homem de confiança da família Bolsonaro, Queiroz admitiu responsabilidade sobre a captação de parte dos salários dos assessores do gabinete, sem conhecimento do ex-chefe. O valor seria para subcontratar outros assessores, mas nunca foi identificada tais contratações.

Ao todo, foram R$ 2 milhões identificados em 483 depósitos de outros assessores na conta de Queiróz. No mesmo período, ele sacou R$ 2,9 milhões em espécie. Para a Promotoria, a movimentação em dinheiro vivo serviu para ocultar a origem e o destino dos valores. Quase R$ 1 milhão, seguem sem identificação.

Preso em Atibaia, São Paulo, Fabrício Queiroz estava sem advogado desde dezembro do ano passado, quando Paulo Klein deixou sua defesa. Neste mês, contratou Paulo Emílio Catta Preta, defensor de Brasília que atuou recentemente para Adriano Magalhães da Nóbrega, miliciano do Rio morto em fevereiro.

COM A PALAVRA, AS DEFESAS

O senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) nega irregularidades em seu gabinete na Assembleia e diz ser alvo de investigação ilegal desde o início do caso, em 2019. Por meio de sua defesa, busca a anulação das apurações e de provas, como as quebras de sigilos fiscal, bancário e telefônico, com recursos no Tribunal de Justiça do Rio, no Superior Tribunal de Justiça (STJ) e no Supremo Tribunal Federal (STF).

O criminalista Frederick Wassef, que defende Flávio, afirmou que os investidores do Rio “quebraram ilegalmente” o sigilo fiscal e bancário do senador.

Flávio Bolsonaro divulgou nota em 2019 em que afirmou que era “vítima de uma campanha difamatória com objetivo de atingir o governo de Jair Bolsonaro”. “A funcionária que aparece no relatório do Coaf foi contratada por indicação do ex-assessor Fabrício Queiroz, que era quem supervisionava seu trabalho. Não posso ser responsabilizado por atos que desconheço, só agora revelados.”

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