“Proximus” era ex-governador Sérgio Cabral, diz delator da Odebrecht

“Proximus” era ex-governador Sérgio Cabral, diz delator da Odebrecht

Luiz Eduardo Soares confirmou que Cabral era identificado como “proximus” e Cunha recebia o apelido de “caranguejo”.

Beatriz Bulla e Fabio Serapião, de Brasília

09 Março 2017 | 16h17

O executivo Luiz Eduardo Soares, um dos delatores da Odebrecht, confirmou em depoimento à Justiça Eleitoral nesta quarta-feira, 8, os codinomes usados pela empreiteira para identificar repasses ao ex-governador do Rio Sérgio Cabral e ao deputado cassado Eduardo Cunha. Luizinho, como o executivo era conhecido dentro da empresa, confirmou que Cabral era identificado como “proximus” e Cunha recebia o apelido de “caranguejo”.

O executivo era um dos responsáveis pelo Setor de Operações Estruturadas da Odebrecht, conhecido como departamento da propina, e operacionalizava pagamentos da contabilidade paralela da empreiteira. As informações foram apuradas pelo Estado com pessoas com acesso às audiências realizadas pelo Tribunal Superior Eleitoral.

A alcunha do deputado cassado e ex-presidente da Câmara já tinha aparecido no anexo de delação do executivo Cláudio Melo Filho, que veio à público em dezembro do ano passado.

Já o apelido de Cabral aparece em materiais da Polícia Federal no âmbito da Lava Jato. Em um relatório de busca e apreensão, a PF aponta em planilhas a alcunha “proximus” é vinculada a dois pagamentos no Rio de Janeiro de R$ 500 mil cada um. Há anotações junto à referência aos pagamentos com menção ao Metrô Linha 4-Oeste.

Proximus 2

Em outro relatório, a PF elenca e-mails no qual o codinome está atrelado a repasse de valores, a partir de material apreendido com o ex-presidente da Odebrecht Infraestrututura Benedicto Júnior.

Em uma das mensagens trocadas entre Hilberto Silva, Benedicto Júnior – o BJ -, Lúcia Tavares, João Borba Filho e Luiz Eduardo Soares, de 17 de fevereiro de 2007, o assunto é a liquidação “Proximus”.

Na conversa, a secretária Lúcia Tavares pede para que Benedicto e Borba e façam a liquidação com “Proximus” no valor de R$ 1 milhão e indica que a transação deve ocorrer sob a senha Tomate e os valores devem ser entregues na Torre do Rio Sul, sala 907, no Rio de Janeiro. No local, a secretária do Setor de Operações Estruturadas, conhecido como departamento da propina, afirma que o interlocutor a ser procurador responde pelo apelido de “Orelha”.

Proximus 1

Em outro e-mail, de 11 de janeiro de 2008, trocado entre Marcelo Odebrecht, BJ e Ubiraci Santos, os executivos da empreiteira baiana falam sobre o assunto “Programa Social RJ”. Na conversa, BJ pede autorização a Marcelo Odebrecht para liberação das porcentagens de pagamentos relacionados ao programa. Do valor do contrato, que seria R$ 495 milhões, BJ indica que Proximus ficaria com 5%.

Proximus 3

Depoimento. Luiz Eduardo Soares foi chamado para depor no âmbito da ação que investiga o abuso de poder político e econômico na campanha presidencial de 2014. No depoimento ao ministro Herman Benjamin, relator do caso no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), no entanto, ele esclareceu que não participou de operações envolvendo a campanha presidencial de 2014, pois saiu do Setor de Operações Estruturadas no mesmo ano da campanha presidencial e se mudou para os Estados Unidos.

Ele confirmou informações que já foram prestadas por Hilberto Mascarenhas ao TSE. Mascarenhas era hierarquicamente superior a Luiz Eduardo Soares na estrutura do Setor. Soares confirmou, por exemplo, que foram feitos pagamentos ao codinome “feira”, utilizado para identificar Mônica Moura, mulher do marqueteiro e baiano João Santana.

Soares também confirmou o uso da cervejaria Itaipava como uma empresa que realizava doações oficiais a pedido da Odebrecht. Depois, a cervejaria era compensada pela empreiteira. No Brasil, segundo Soares, pagamentos do Setor de Operações Estruturadas feitos em dinheiro em espécie não poderiam superar repasses de R$ 500 mil em cada vez.

O Estado entrou em contato com a defesa de Sérgio Cabral, mas ainda não obteve uma resposta.