Proteção contra o roubo de cargas

Proteção contra o roubo de cargas

Leandro Longhi*

12 Junho 2018 | 04h00

Leandro Longhi. FOTO: DIVULGAÇÃO

O processo de escoamento de mercadorias em todo o país é, basicamente, realizado por caminhões. Todo o funcionamento deste modal – que representa 60% dos produtos transportados no Brasil (CNT) –, deve seguir uma forma de logística que garanta agilidade e confiabilidade no timing de entrega do produto. Mas alguns entraves surgem no decorrer do caminho.

O roubo de cargas é um dos principais problemas nas rodovias brasileiras. Em 2014 o prejuízo era de 1 bilhão e no ano de 2017 a conta ficou em R$ 1,570 bilhão. Avançando um pouco nesta comparação de dados, nos últimos 5 anos o aumento passou de 80% e, detalhando um mais, os estados de São Paulo e Rio de Janeiro detém 81% do volume deste crime. Num olhar econômico, os prejuízos se acumulam, e isso interfere na precificação do produto, que tem seu valor aumentado, conta essa que recai no preço final. Além disso, provoca o atraso na entrega da mercadoria, o que gera mais transtorno e custos para os agentes envolvidos no processo.

Atualmente, as cargas mais visadas são produtos alimentícios, cigarros, combustíveis, eletrônicos, produtos farmacêuticos, bebidas, têxteis e confecções, autopeças e produtos químicos. Para as companhias de seguro, o negócio começa a ficar inviável, muitas estão saindo deste segmento e as que permanecem estão restringindo sua participação no risco e impondo condições para que as empresas possam contratar o seguro.

As empresas se organizam para atender da melhor maneira seus clientes e levar o produto comprado dentro do prazo contratado até o consumidor final. Isso envolve, desde o aspecto de contratação, faturamento, expedição, centros de distribuição, logística reversa e por aí vai. Este empenho também é encontrado na organização das quadrilhas especializadas no crime de roubo de carga. Eles são contratados por um receptador que irá distribuir a mercadoria ao “cliente” final, precisam estudar o mercado e as empresas que atuam na distribuição do produto alvo, sua sistemática operacional, além de terceiros que são subcontratados para executar os serviços de embarque e transporte, para onde entregam e por onde trafegam.

Numa segunda fase, precisam definir os locais para o ataque, força que necessita ser empregada, onde farão o transbordo da mercadoria, contratação de um caminhão para receber a carga neste transbordo, depósitos para “esfriar” a mesma e a distribuição até seu cliente. Este processo também envolve subcontratações de equipes especializadas, como as que farão os estudos e levantamentos preliminares, os agentes que farão o ataque ao veículo, carregadores, vigilantes dos depósitos, algumas quadrilhas mais organizadas e especializadas, com mais recursos e equipes, outras menos. Mas em todo este processo de roubo de carga há uma atividade que é, praticamente uma regra, a aquisição de informações privilegiadas.

As companhias do segmento de logística se preocupam com todos estes fatores, e estão buscando alternativas para minimizar as perdas, contratando empresas para monitorar as cargas e veículos, a utilização de “iscas” e a contratação de empresas para recuperação das cargas roubadas. São procedimentos cada vez mais rigorosos quanto às rotas feitas pelas frotas, escolta armada, câmeras de monitoramento embarcadas nos veículos e algumas até com a utilização de veículos blindados. Mas muitas destas empresas não perceberam ainda que devem agir de forma preventiva e, para isso, devem olhar para seus processos internos e não apenas da porta pra fora.

Muitas destas empresas investem e desenvolvem estratégias de caráter reativo, ou seja, ações voltadas no pós-ocorrência. Enquanto que para proteger sua carga, devem primeiramente proteger a informação. Numa reflexão lógica e simples, não existe uma quadrilha que fica na beira da estrada esperando algum caminhão passar para atacá-lo e ver o que tem dentro. Eles sabem qual o caminhão, por onde passa, onde para e o que carrega, e isso veio de dentro da empresa.

Para adotar estas medidas a empresa necessita se reestruturar em termos de políticas, processo e procedimentos. Isso envolve uma mudança integral na companhia, com resultados que vem em médio prazo, mas efetivos.

Certamente, colocar uma câmera no caminhão é muito mais prático, mas qual o resultado efetivo? Nenhum. As empresas que estão se reinventando e colocando a segurança como um dos fatores críticos de sucesso mudam de cenário, possuem estrutura de compliance ativa e todas as etapas de seu fluxo interno são voltadas para o mesmo objetivo, a proteção. Isso inicia desde o processo de recrutamento e seleção de seus colaboradores e terceiros, até atividades dos montadores e carregadores das mercadorias. A revisão deste processo interno, se analisado como investimento, retorna para a empresa, e de maneira sólida.

A alternativa de montar uma estratégia interna que foque na proteção da informação, onde a mercadoria é embarcada sem que os agentes envolvidos saibam o seu destino, aliado às ações junto aos embarcadores e transportadores, e o uso de auditoria de prevenção contribuem muito para a mudança deste cenário de perdas constantes. Estas estão garantindo as empresas a reversão da visão das companhias de seguros, que voltam a compartilhar o risco com seus clientes, mas o grande diferencial é que o produto chega na mão do cliente final, no período contratado, e os resultados são mantidos.

O fato é que a contratação de seguro é uma forma de compartilhar o risco, muito rápida e prática, mas o cliente final paga a conta. Com as seguradoras saindo desta cadeia e o mercado em crise, chega a hora das empresas que tem na distribuição seu negócio, ou a principal área de seu negócio, acordarem e assumirem esta postura, ou o risco não será apenas o roubo da carga, mas a inviabilidade do negócio, mais uma vez promovida pelo custo Brasil.

*Leandro Longhi, especialista em gestão de riscos. É diretor da Squadra-Gestão de Riscos

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