Protágoras e os meios de comunicação

Protágoras e os meios de comunicação

Antoine Abed*

14 de fevereiro de 2021 | 05h00

Antoine Abed. FOTO: DIVULGAÇÃO

São nos momentos de crise que percebemos a importância de sermos bem informados. Entretanto, estar bem informado pode apenas gerar uma sensação de maior tranquilidade ou, até o contrário, de desespero. Na verdade, nesses momentos, o mais importante é termos o conhecimento da real situação de um fato, só desta forma conseguiremos planejar e programar o futuro de maneira conveniente e sem grandes traumas. Esta noção de que conhecemos suficientemente algo, além de nos provocar sensações de todo tipo, proporciona um debate de alto nível entre todos os envolvidos, pois quanto mais a verdade se espalha, mais seguro e livre se torna o grupo.

Sendo assim, como ter a certeza de que conhecemos verdadeiramente algo, ainda mais, vivendo num mundo em que as coisas se transformam tão rapidamente? Como saber se somos ou não manipulados pelas informações que nos apresentam?

Difícil responder essas perguntas em poucas linhas, porém, podemos aqui acrescentar algumas informações que, certamente, aumentarão sua curiosidade sobre este tema bastante complexo.

Em meados do século 5 A.C., Protágoras se destacou entre os famosos nomes de uma polêmica escola de ensino grega. Nascido em Abdera, Protágoras disse que toda afirmação sempre era relativa a um determinado ponto de vista, a uma sociedade ou ao modo de pensar. Protágoras abria caminho para a ideia de que a verdade depende da sua experiência pessoal. Seu pensamento é declaradamente subjetivista, o que é um absurdo, pois um conceito não pode ser verdade e mentira ao mesmo tempo. Além disso, foi o pai de uma das mais famosas frases até hoje conhecidas: “O homem é a medida de todas as coisas”. De maneira ampla, podemos concluir que ele entendia que cada indivíduo conhece algo de maneira particular e independente, não admitindo uma verdade absoluta, o que ia de encontro à ideia defendida por Sócrates que procurava o conceito absoluto das coisas.

Numa associação rápida com os dias atuais e, sobretudo, com a forma de como adquirimos essas informações, nos faz crer que o pensamento de Protágoras está mais atual do que nunca, não é mesmo? Vamos às semelhanças…

Consultando o computador para analisar as últimas notícias, independente do espectro político ao qual você pertença, o YouTube lhe apresentará uma enxurrada de vídeos feitos por pessoas que, na maioria das vezes, você nunca ouviu falar, lhe informam e apresentam suas verdades sobre alguns fatos. Mesmo não o conhecendo, você ouve atentamente seus argumentos e se identifica com aquelas verdades apresentadas, porque vocês têm os mesmos pontos de vista ou o mesmo modo de pensar. Aquele “programa” te conectou com informações que lhe são pertinentes, mas que não correspondem, necessariamente, à verdade sobre o tema. Não existe o contraditório e você fica refém de um sistema que escolhe o que você deve assistir, por entender que você pertence àquele grupo de indivíduos. Além disso, possivelmente, aquelas informações não foram devidamente checadas antes de irem ao ar, fazendo você concluir, de maneira precipitada, que se trata de uma verdade absoluta.

Outro exemplo atual de se obter e trocar informações é o WhatsApp. Nesse caso, são formadas listas de contatos de amigos e parentes que trocam informações, as mais variadas. Entretanto, se alguém do grupo posta um assunto que incomoda a um dos participante, por não partilhar dos mesmos pontos de vista, isso gera um problema, chegando ao ponto de ser excluído ou mesmo sair do grupo, não importando que seja amigo, familiar… Chegamos ao ponto em que, por acharmos que algo é verdade (baseado em subjetividades e opiniões de terceiros), nos comportamos de maneira individualista e pobre, destruindo relações que não deveriam ser interrompidas. A crença em algo que supostamente é verdadeiro para você, não pode ser maior do que uma amizade construída por semelhanças de valores. Esse grupo de indivíduos que se encontra apoiado em cima de pós verdades não consegue enxergar a péssima troca que está fazendo.

De maneira geral, referimos dar credibilidade ao entendimento particular e individual de pessoas que nem sequer sabemos quem são, a desenvolver nosso próprio conceito das coisas a partir de questionamentos confiáveis e, pior que isso, destruímos relações com as pessoas que amamos só pelo simples fato de discordarmos. Tenho a impressão que Sócrates nos faria perceber que dentre todas as pós-verdades aleatórias que consumimos por esses novos meios de comunicação, a única verdade e a mais importante de todas seria as relações afetivas que construímos durante nossa existência. Tudo começa com elas e, sem elas, não somos completos como homens. Por isso, não tenha medo de rejeitar opiniões aleatórias que não foram devidamente embasadas, pois não contribuem para se entender o que é ou não verdade.

Nelson Mandela disse uma vez que: “Quando somos libertados de nossos medos, nossa presença automaticamente liberta a outros.”

*Antoine Abed é presidente-fundador do Instituto Dignidade e autor da obra Ensaio Sobre a Crise da Felicidade

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