Prós e contras do distanciamento social para a diversidade

Prós e contras do distanciamento social para a diversidade

Jorge Barros*

08 de setembro de 2020 | 04h30

Jorge Barros. FOTO: DIVULGAÇÃO

Em março, quando decretada a pandemia e, consequentemente, a quarentena, muitos de nós imaginamos que seriam 15 ou 30 dias em estado de reclusão, e depois, retornaríamos à vida de antes. Cinco meses se passaram e, na prática, sabemos que não estivemos nem tanto ao céu, nem tanto ao mar. Hoje, diversas empresas já retomaram suas atividades, a quarentena acabou para muita gente, porém o distanciamento social é uma sequela profunda, que deve conviver conosco por bastante tempo. Precisamos aceitar esta realidade e nos cuidar física, emocional e mentalmente, da melhor forma dentro deste contexto imposto.

Especialistas têm analisado os impactos que o distanciamento social deve causar em diversas áreas, segmentos e pessoas.  E compartilho com vocês uma reflexão sobre a diversidade. Elenquei, neste artigo, três vantagens ou ‘prós’ e três desvantagens ou ‘contras’ do distanciamento social para a Diversidade corporativa e, consequentemente, para a inclusão.

Impactos Positivos:

1) Humanizar o indivíduo e as relações:

Talvez, o principal veneno que o mercado de trabalho tenha criado contra a Diversidade é a tentativa de eliminar as características pessoais de cada colaborador. A velha mania de pedir para que deixássemos os problemas pessoais da porta para fora da empresa, não permitir que as emoções influenciem as decisões e entrar no papel funcional (de funcionário), saindo do papel de ser humano. Agora, com a imensa quantidade de reuniões em home office, o que mais temos ouvido é “as relações estão mais humanizadas, a gente vê os filhos e cachorros passando ao fundo da câmera”. Tem sido como deveria ser desde sempre. Deveríamos saber que cada colaborador está integralmente conectado às suas questões emocionais e vida pessoal, e que não é saudável tentar silenciar ou fazer com que a pessoa não possa ser ela mesma no ambiente de trabalho. Os encontros e reuniões em formatos menos formais contribuem para deixarmos cair essa fachada que nos distanciava como seres humanos. É uma grande contribuição à Diversidade, fazer com que cada um seja visto dentro de um ambiente que é mais “a sua cara”. Uma das coisas mais legais disso tudo é que conseguimos perceber que as reuniões a distância não são necessariamente frias como achávamos que seriam. Tenho diversos exemplos de reuniões e encontros virtuais onde foi possível se emocionar ou perceber a emoção no olhar do outro. Aquelas coisas que a gente costumava achar que só eram possíveis perceber no calor do encontro presencial.

2) Quebras de distâncias geográficas trazem diversidade cultural:

Se até pouco tempo enxergávamos a distância geográfica como uma barreira, em 2020, rapidamente, percebemos que, na maioria das vezes, podemos trabalhar com quem quisermos a partir do local em que estivermos. Você deve conhecer pelo menos uma pessoa que, durante a quarentena, foi passar temporada em outra cidade, sem que isso impedisse que ela mantivesse seus compromissos de trabalho. É isso mesmo. Percebemos que não precisamos estar perto fisicamente para trabalharmos com quem quisermos. Ao mesmo tempo que percebemos que é possível mudar de cidade e continuar trabalhando na mesma empresa, nos demos conta de que interagir com pessoas de outras cidades, outros países, outras culturas é mais fácil do que imaginávamos também. Se até 2019 era preciso subsidiar uma mega estrutura de evento para conseguirmos reunir palestrantes e especialistas de diversas partes do mundo (a ingressos caríssimos que financiariam esta estrutura), hoje temos lives diárias que reúnem especialistas falando a partir de suas casas ao redor do planeta de forma muito mais acessível (inclusive financeiramente). Temos muito mais facilidade para acessar mentes diversas, pessoas diversas, culturas diversas.

3) O despertar solidário:

Um dos primeiros reflexos da pandemia, no Brasil e no mundo, foi o espontâneo desejo de contribuir para a sustentação uns dos outros. Aqui no Brasil, tivemos diversos exemplos, tanto de pessoas, quanto de empresas. Consumidores passaram a ter mais consciência para sua decisão de escolha e, com isso, priorizar, por exemplo, o comércio local, de forma a contribuir para que pequenas empresas e fornecedores de seus bairros e arredores conseguissem sobreviver. Grandes empresas também demonstraram, na prática, diversos exemplos de solidariedade e contribuição financeira para sustentar sistemas ou mesmo contribuir diretamente para o combate à pandemia. E as contribuições não se restringiram apenas à preocupação financeira. Cuidados emocionais foram imensamente percebidos. Não apenas empresas passaram a se preocupar mais com as necessidades emocionais de seus colaboradores em isolamento, mas também vimos diversos profissionais de saúde mental se colocando à disposição de pessoas que, durante o isolamento, estivessem sofrendo de ansiedade e depressão, por exemplo.

Impactos Negativos:

Convivência presencial com o mesmo tipo de gente:

Se por um lado o mundo digital abre portas para que possamos nos conectar com qualquer tipo de pessoa que queiramos, temos a inclinação de nos aproximarmos daquilo que parece conosco (“narciso acha feio o que não é espelho”). No entanto, quando estamos no formato tradicional, dentro dos diversos espaços físicos que a empresa possui, “somos obrigados” a nos deparar mais vezes com pessoas com as quais não havíamos escolhido nos deparar. Seja em uma reunião, nos corredores ou mesmo no refeitório, os espaços físicos frequentados por todo tipo de gente (empregados, clientes, fornecedores, parceiros) nos colocava com maior frequência diante de diversidade de pessoas. Em home office ou em distanciamento, fisicamente, passamos a ficar sozinhos ou próximos das mesmas pessoas diariamente.

Algoritmos que nos aprisionam na bolha:

Se o ser humano já tem a predisposição a se aproximar apenas daquilo que lhe é semelhante, esta tendência se acentua ainda mais com a ajuda dos algoritmos aos quais somos digitalmente submetidos. Provavelmente, você deve perceber que o ambiente digital costuma sugerir que você acesse dicas, soluções, artigos e, principalmente propagandas daquilo que combina com você, com suas crenças, com suas buscas, desejos e anseios. Com base em publicações que você curte, posts que você comenta, palavras que você digita nos mecanismos de buscas e diversos outros gatilhos, os algoritmos passam a lhe oferecer ainda mais aquilo que já faz parte da sua bolha. Dependendo da forma como você consome e se deixa levar por estes mecanismos, você pode diminuir ainda mais a capacidade de acessar e se conectar com conteúdos que apresentam visões ou perspectivas diferentes da sua. Isto, consequentemente, pode prejudicar a sua capacidade de empatia.

Impactos emocionais a grupos vulneráveis:

Já notamos o quanto o distanciamento social (sobretudo o isolamento) pode impactar em questões emocionais do indivíduo que se vê privado de interagir com outros da forma como interagia antes. Mas isto pode gerar consequências ainda mais impactantes em determinadas pessoas mais vulneráveis. Quando falamos de gênero, por exemplo, notamos que mulheres passaram a sofrer ainda mais violência doméstica e, mesmo que não seja este o caso, é comum que a mulher costume ser mais sobrecarregada no home office com a conciliação entre atividades da empresa e do lar, como cuidar da casa e das crianças (sem ajuda dos avós ou retorno às aulas, por exemplo). Pessoas mais vulneráveis financeiramente nem sempre têm condições e estrutura ideais para o trabalho em casa – desde a falta de Internet de boa qualidade até a falta de ambiente salubre quando, por exemplo, todos moram em um mesmo cômodo. Estas e outras questões que venham a impactar os grupos mais vulneráveis podem ocasionar ainda mais consequências emocionais a cada indivíduo.

Além de desfrutarmos dos benefícios percebidos pelo distanciamento social, é preciso adotar medidas que atenuem os impactos negativos deste fenômeno. Se você é empresário, gestor ou líder de empresas, pode propor algumas medidas que, por mais simples que pareçam, contribuem para que o fator diversidade não seja prejudicado em sua empresa ou equipe. Do ponto de vista funcional (de entregas práticas), propor atividades nas quais os colaboradores precisem interagir, mesmo que brevemente, com pessoas com perfis diferentes do seu ou acessar conteúdos de áreas de conhecimento diferentes podem contribuir para que o resultado seja mais inovador.

Pensando no aspecto relacional, propor estímulos onde os integrantes dediquem um tempo em atividades que os provoquem a olhar mais uns para os outros, conhecer suas características e anseios são aliados na construção de empatia. Você pode contar com a contribuição de especialistas em desenvolvimento humano para conduzir estas atividades. Sobretudo, emocionalmente é importante dedicar um tempo para dialogar, bater um papo aberto, saber como está cada integrante da equipe. Como estão se sentindo diante deste cenário e que necessidades podem ter. Às vezes, uma simples escuta genuinamente interessada pode fazer toda a diferença.

*Jorge Barros é cofundador da Fator Diversidade

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