Propina podia chegar a 5% dos contratos, diz Youssef

Doleiro revela à Justiça Federal que empresas se reuniam para combinar quem venceria contratos; propinas também abasteceram caixa dois de PP, PMDB e PT

Redação

09 de outubro de 2014 | 13h28

Por Ricardo Brandt, Fausto Macedo e Mateus Coutinho

O doleiro Alberto Youssef listou treze grandes construtoras do País como integrantes de um “cartel” montado para fraudar as licitações da Petrobrás por intermédio do ex-diretor da área de Abastecimento Paulo Roberta Costa e pagar propina a políticos do PT, PMDB e do PP. Afirmou ainda que diretores das empresas tinham comissionamento sobre o esquema que poderia chegar a 5% nos termos de aditivos de contratos.

“Era entregue uma lista que iam participar no certame (licitação) e já era dito quem ia ser o vencedor. Era uma lista repassada pelo Paulo Roberto Costa. Logo que iam existir os convites era passada a lista”, explicou o doleiro a um dos procuradores da Operação Lava Jato, ontem em depoimento à Justiça Federal.

As empresas citadas foram a: Camargo Corrêa, a OAS, a UTC, a Odebrecht, a Queiroz Galvão, a Toyo Setal, a Galvão Engenharia, a Andrade Gutierrez, a Mendes Júnior, a Engevix, a Tomé Engenharia, Jaraguá Equipamentos, Tomé Engenharia e Engesa. Todas elas pagam 1% nos contratos feitos com a diretoria de Abastecimento e de 2% a 5% nos termos aditivos de contratos.

“Era maior podia chegar de 2% a 5%, a proporção era a mesma dos repasses”. Ele explicou como era feita a partilha do caixa-2: “Eram 1% de todos contratos: 30% para doutor Paulo Roberto, 60% para agentes políticos, 5% para mim e 5% era para João Claudio Genu (ex-assessor do PP e do deputado José Janene, morto em 2010)”, detalhou Youssef. Antes de Genu, era Janene quem recebia a parte do PP. Genu foi condenado no mensalão e Janene, que era réu no processo, faleceu.

Youssef acusou especificamente a Odebrecht e a Toyo por pagamentos de comissão feitos no exterior. Ele apontou ainda o vice-presidente da Camargo Correa e um diretor por receberem comissão também pelos contratos fraudados.

As empresas citadas já negaram anteriormente qualquer relação comercial com Youssef e negam irregularidades nos contratos.

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Ex-diretor diz que 3% dos contratos era para abastecer o PT

Caixa dois. O doleiro Alberto Youssef afirmou que a propina controlada pelo ex-diretor de Abastecimento da Petrobrás Paulo Roberto Costa, que era cota do PP, também serviu para pagar caixa-2 ao PMDB e ao PT. Em seu depoimento já sob os termos da delação premiada no processo da Lava Jato sobre fraudes em licitação, desvio de verba pública e lavagem de dinheiro nas obras da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, ele detalhou como era o esquema operacionalizado por ele e repetido em outras diretoras.

“Paulo Roberto fatiava um pouco os recebimentos de obras porque também tinha que atender o PMDB ou o PT”, afirmou Youssef ao ser inquerido pelo juiz federal Sérgio Moro, em Curitiba. Segundo ele, na área de Abastecimento, controlado por Costa e operacionalizada por ele, para desvios de recursos para o PP, as empresas tinham que pagar 1% do contrato. A Camargo Corrêa, citada por ele num consórcio que fez obras na refinaria, fechou contrato de R$ 3 bilhões.

Esse valor era divido: 60% para políticos, 30% para costa, 5% para Youssef e 5% para João Claudio Genu, do PP. Ele explicou desconhecer que na área de Serviços e Engenharia o percentual cobrado era de 2% a 3%, conforme revelou horas antes em depoimento, o ex-diretor da estatal. Costa afirmou que o esquema operacionalizado na área pelo tesoureiro do PT João Vaccari, era maior. “Desconhecia que percentual da propina em outras diretorias da Petrobras era maior que 1%”.

Segundo ele, havia pelo menos outros quatro operadores, que atuavam em outras áreas da Petrobrás, como Internacional, Embarcações, em esquema igual de desvios, lavagem e pagamento de propina e caixa 2 de campanha.

Youssef confirmou que listas apreendidas em seu computador pela Polícia Federal são a contabilidade das propinas pagas pela construtora Camargo Corrêa, via fornecedora de tubos Sanko Sider e pelas firmas de fachada abertas por ele (MO Consultoria e GDF). Nela há os valores movimentados, e “as comissões” e os “repasses” pagos no esquema. Segundo ele, os diretores da Camargo Corrêa recebia valores pelos contratos alvos de fraude e ainda iam retiraram em moeda em seu escritório em São Paulo.

“Os valores são nominados repasses e comissionamento. O que é comissionamento é comissionamento de venda, o que é repasse foram para agentes públicos e para o Paulo Roberto Costa”, explicou Youssef.

COM A PALAVRA, A DEFESA:

CONFIRA A NOTA DIVULGADA PELA PETROBRÁS

“Em relação às matérias publicadas hoje nos veículos de comunicação, repercutindo os depoimentos do ex-diretor Paulo Roberto Costa e do Sr. Alberto Youssef na 13ª Vara Federal do Paraná, na ação relacionada à “Operação Lava Jato” da Polícia Federal, a Petrobrás informa que vem acompanhando as investigações e colaborando efetivamente com os trabalhos das autoridades públicas.

A Petrobrás reforça, ainda, que está sendo oficialmente reconhecida por tais autoridades como vítima nesse processo de apuração.

Por fim, a Petrobrás reitera enfaticamente que manterá seu empenho em continuar colaborando com as autoridades para a elucidação dos fatos.”

 

VEJA A NOTA DO PT:

“O PT repudia com veemência e indignação as declarações caluniosas do réu Paulo Roberto Costa, proferidas em audiência perante o mesmo juiz que, anteriormente, acolhera seu depoimento, sob sigilo de Justiça, no curso de um processo de delação premiada.

O PT desmente a totalidade das ilações de que o partido teria recebido repasses financeiros originados de contratos com a Petrobrás.

Todas as doações para o Partido dos Trabalhadores seguem as normas legais e são registradas na Justiça Eleitoral.
A Direção Nacional do PT estranha a repetição de vazamentos de depoimentos no Judiciário, tanto mais quando se trata de acusações sem provas.

Lamentamos que estejam sendo valorizadas as palavras do investigado, em detrimento de qualquer indício ou evidência comprovada.

A Direção Nacional do PT, por intermédio de seus advogados, analisa a adoção de medidas judiciais cabíveis.

Rui Falcão
Presidente Nacional do PT”

ABAIXO, A NOTA DA SECRETARIA NACIONAL DE FINANÇAS DO PT

“A Secretaria Nacional de Finanças do PT informa que o secretário João Vaccari Neto nunca tratou sobre contribuiçoes financeiras do partido, ou de qualquer outro assunto, com o sr. Paulo Roberto Costa. O depoimento prestado por ele à Justiça está carregado de afirmações distorcidas e mentirosas.

Essas acusações, difundidas insistentemente por meio de notícias na imprensa, sem possibilidade de acesso de nossos advogados aos depoimentos, impedem o direito ao exercício constitucional da ampla defesa.

Reiteramos que as contirbuições financeiras recebidas pelo PT são transparentes e realizadas sempre de acordo com a legislação em vigor.

Diante de tantas acusações infundadas, o secretário de Finanças vai processar civil e criminalmente aqueles que têm investido contra sua honra e reputação.

Secretaria Nacional de Finanças do PT”

VEJA NOTA DA TRANSPETRO

“O presidente da Transpetro, Sergio Machado, nega com veemência as afirmações feitas a seu respeito pelo ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa. As acusações são mentirosas e absurdas.

Machado faz questão de ressaltar o seu estranhamento com o fato de que as declarações estejam sendo divulgadas em pleno processo eleitoral.

Machado jamais foi processado em decorrência de qualquer dos seus atos ao longo de 30 anos de vida pública. E tomará todas as providências cabíveis, inclusive judiciais, para defender a sua honra e a imagem da Transpetro.”

VEJA A NOTA DO EX-PRESIDENTE DA PETROBRÁS, JOSÉ EDUARDO DUTRA:

“Esclarecimento,

Sobre as matérias publicadas hoje na imprensa envolvendo meu nome no bojo da operação Lava Jato, tenho a declarar o que segue:

– Os depoimentos realizados ontem foram acompanhados pelo Dr. Carlos Fontes, advogado da Petrobrás que constatou que o meu nome foi citado uma única vez pelo ex-diretor Paulo Roberto Costa no contexto de “indicações políticas para diretoria da Petrobras”, não tendo havido posteriormente qualquer citação ao meu nome em irregularidades investigadas pela operação;

– Minhas vinculações com o PT são públicas e notórias, bem como os períodos em que ocupei a presidência da Petrobras, BR Distribuidora e, atualmente, a Diretoria Corporativa da Petrobras;

Repudio quaisquer ilações que procurem vincular meu nome a práticas criminosas e tomarei as providências judiciais cabíveis.

José Eduardo Dutra
Diretor Corporativo e de Serviços”

NOTA DA ODEBRECHT

Em nota, a Odebrecht rechaçou categoricamente o que chama de “alegações caluniosas” do ex-diretor da Petrobrás, Paulo Roberto Costa.

A empreiteira destaca que, em décadas de atuação, sempre conquistou contratos de acordo com a lei de licitações.

Abaixo a íntegra da nota

“A Odebrecht nega veementemente as alegações caluniosas feitas pelo ex-diretor da Petrobras e em especial ter feito qualquer pagamento ou depósito em suposta conta de qualquer executivo ou ex-executivo da estatal. A Odebrecht mantém, há décadas, contratos de prestação de serviços com a Petrobras, todos conquistados de acordo com a lei de licitações públicas.

Como noticia hoje (9/10) a imprensa, documentos apreendidos pela Polícia Federal não identificaram (como não poderiam identificar, já que as acusações são mentirosas) depósitos da Odebrecht nas contas no exterior supostamente pertencentes ao ex-diretor da Petrobrás. Nos documentos e extratos bancários apreendidos pela Polícia Federal, que já totalizam US$ 18,8 milhões, não há registros que apontem a Odebrecht entre as empresas que fizeram depósitos nas contas do ex-diretor no exterior.

A Odebrecht repudia especialmente insinuações feitas a partir de menções a nomes de seus integrantes como sendo “contatos” do ex-diretor da Petrobrás para supostas operações ilegais. Os executivos citados pelo réu confesso tiveram sim contatos com ele, com diretores, ex-diretores e também com membros do corpo técnico da Petrobras, mas apenas para tratar de assuntos estritamente profissionais, relacionados à execução de projetos para os quais a empresa foi contratada pela estatal.

A empresa reitera que tem todo o interesse em que a verdade seja apurada com rigor – e está, como sempre esteve, à disposição das autoridades para qualquer esclarecimento.”

CONFIRA A NOTA DO CONSÓRCIO CNCC

Formado pelas empresas Cnec e Camargo Corrêa, o Consórcio CNCC, que atua em duas das 12 unidades da refinaria de Abreu e Lima, repudiou as acusações feitas pelo ex-diretor da estatal, Paulo Roberto Costa

“Em relação aos referidos depoimentos, o CNCC repudia as acusações sem prova contra o consórcio e seus executivos. O contrato em questão foi conquistado por licitação pública de menor preço. O Consórcio CNCC reafirma ainda que não realizou nenhum pagamento ao Sr. Alberto Youssef nem a qualquer de suas empresas e não pode responder por pagamento de terceiros.”

VEJA A NOTA DA CAMARGO CORRÊA

Em nota, a Camargo Correa, por meio de sua Assessoria de Imprensa, revelou indignação e informou que a contratação da empresa de consultoria de Paulo Roberto Costa ocorreu depois que ele deixou a diretoria de Abastecimento da Petrobrás. “A Construtora repudia as acusações contidas no referido depoimento. A contratação da Costa Global ocorreu após a saída do ex-executivo da empresa.”

O QUE DIZ A DEFESA DE JOSÉ DIRCEU

O ex-ministro José Dirceu (Casa Civil), por meio de sua assessoria de imprensa, rebateu a informação de Paulo Roberto Costa de que ele fez indicação para a diretoria de Serviços da Petrobrás. “O ex-ministro afirma que não indicou Renato Duque para a diretoria de Serviços da Petrobrás”, destacou a assessoria de Dirceu.

VEJA O QUE DIZ A MENDES JR.

“A empresa não se pronuncia sobre inquéritos e processos em andamento.”

O QUE DIZ A ANDRADE GUTIERREZ

“A Andrade Gutierrez informa que as duas citações feitas à empresa nas gravações dos depoimentos do Sr. Paulo Roberto Costa e do Sr. Alberto Youssef deixam claro que não há qualquer envolvimento da companhia com os assuntos relacionados às investigações.

No depoimento de Alberto Youssef, ele afirma categoricamente que não tinha qualquer contato com a Andrade Gutierrez ou qualquer um de seus executivos. No trecho do depoimento de Paulo Roberto Costa, ele cita o nome de um ex-funcionário da Andrade Gutierrez, que trabalhou por pouco tempo na empresa e que, por atuar no setor de óleo e gás, era natural que mantivesse contatos de trabalho com funcionários da Petrobrás.

A Andrade Gutierrez reitera que não tem ou teve qualquer envolvimento com os fatos relacionados com as investigações em curso e entende que o contexto das citações em que aparece o nome da empresa reforça esse posicionamento.”

ABAIXO, O POSICIONAMENTO DA QUEIROZ GALVÃO

“A Queiroz Galvão informa que desconhece o teor dos depoimentos e reafirma que sua atuação no mercado atende rigorosamente à legislação”.

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