Propina na Carne Fraca foi paga até em ovos e botas de borracha, diz PF

Propina na Carne Fraca foi paga até em ovos e botas de borracha, diz PF

Para investigadores da operação que cercou grandes frigoríficos, ‘valor aparentemente irrisório’ das vantagens indevidas é ‘inversamente proporcional ao dano causado pelos crimes contra a saúde pública’

Julia Affonso, Mateus Coutinho e Ricardo Brandt

21 Março 2017 | 10h35

Foto: Dida Sampaio/Estadão

Foto: Dida Sampaio/Estadão

Atualizada às 11h46

As propinas identificadas pela Operação Carne Fraca, investigação que cercou alguns dos maiores frigoríficos do País, foram pagas até em ovos e botas de borracha, segundo a Polícia Federal. Relatório subscrito pelo delegado Mauricio Moscardi Grillo aponta para uma das ‘organizações criminosas estruturadas no âmbito da Superintendência Federal da Agricultura, no Paraná, envolvendo sua mais alta cúpula, além de crimes envolvendo outras unidades da Federação e o próprio Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento’.

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“Para deixar de cumprir com seus deveres funcionais de fiscalização, agentes públicos solicitam e recebem desde dinheiro até “ovos” e “botas de borracha” de empresários corruptores que se beneficiam do sistema para o não cumprimento de leis e regulamentos que visam a garantir a qualidade do produto de consumo comercializado para população”, aponta a Federal.

“Frise-se que o valor aparentemente irrisório das propinas recebidas (“ovos” e “botas de borracha”) é inversamente proporcional ao dano causado pelos crimes contra a saúde pública, pois os efeitos da ingestão de alimentos impróprios muitas vezes só serão percebidos a longo prazo e sem que se possa aferir suas causas, já que tais alimentos continham a “chancela” do órgão que deveria fiscalizar e não o fez.”

A Operação Carne Fraca, deflagrada na sexta-feira, 20, mira corrupção na Superintendência Federal de Agricultura no Estado do Paraná (SFA/PR) do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. No rol de empresas investigadas pela Polícia Federal estão a JBS, dona da Seara e da Big Frango, a BRF, controladora da Sadia e da Perdigão, e os frigoríficos Larissa, Peccin e Souza Ramos.

‘Favores’. A PF ligou o chefe da Unidade Técnica Regional de Agricultura de Londrina/PR – UTRA/Londrina, Juarez José Santana, à propina em ovos e botas de borracha. O relatório listou Juarez “pedindo” favores a empresários.

Em grampo capturado pela investigação, em maio de 2016, Juarez Santana liga para um funcionário do frigorífico Fratelli/E.H. Constantino e lhe pede dois pares de botas de borracha, ‘os quais leva, posteriormente, para suas lojas Subway’.

“As ligações para pedidos de favores continuam, até ovos e comida para cachorro Juarez chega a pedir, sendo distribuído depois para os membros da organização criminosa”, relata o delegado Mauricio Moscardi Grillo.

Em outra ligação interceptada pela Federal, Juarez Santana conversa com Domingos Martins, proprietário da empresa Frango a Gosto.

“ Estou precisando de um favor do senhor de novo aí”, diz Juarez.

“Pois não Juarez, diga”, responde Domingos.

“Viu, é, hoje é a abertura da exposição”, afirma o fiscal. “E tem um monte de gente de fora do Ministério aí, que veio participar da feira e a gente vai fazer uma recepção, um churrasco, sabe, para recepcionar os colegas aí, das outras regionais.”

Jurez pede. “Eu queria ver se você poderia me arrumar uma caixa de coxa e sobrecoxa e uma caixa de filé de peito, pode ser Domingos, para hoje?”

“Você sabe, eu posso sim, não tem problema nenhum. O problema é que o senhor sabe que eu estou fazendo só aquele frango pequeno né? O filé não é tão grande né? E a coxa e a sobrecoxa é com (ininteligível), ela é junto né. É só peça de franguinho pequeno, eu não tenho mais frango grande”, justifica Domingos.

“Não, não tem problema não, não, não tem problema não, pode ser, não tem problema não. O pessoal lá, aí o churrasqueiro se vira lá, eu mando pegar depois do almoço”, diz Juarez.

No relatório, a PF aponta ainda para a ‘postura’ de Juarez. “Outra postura que não parece estar adequada para a função de Juarez, vem retratada na conversa suspeita ocorrida entre Juarez Santana e Marco Aurélio, funcionário de um frigorífico (Fratelli/E.H. Constantino), que o questiona sobre possível supervisão no local”, afirma o delegado. “Imediatamente, Juarez liga para o fiscal federal para que verifique no SEI (Sistema Eletrônico de Informações – MAPA) se há alguma informação.”

Segundo a Federal, ‘após algum tempo’, o fiscal informa que ‘não há nada, só se for uma ‘supervisão, fiscalização de surpresa’.

A reportagem entrou em contato com a defesa de Juarez Santana. O espaço está aberto para manifestação.

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